










 O campeo
  The Champion
  Suzanne Barclay























Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!




   PRLOGO

   Inglaterra, 10 de maio, 1222

   Seguiam no rumo norte, pela estrada entre York e Durleigh, seis cavaleiros das Cruzadas em surrados tabardos cinza com uma rosa negra costurada sobre o corao,
um beb com cerca de um ano e Odetta, uma cabra mais encrenqueira do que os sarracenos que haviam enfrentado no Oriente.
   Densas nuvens escuras obscureciam o sol do meio-dia. A brisa fria que lhes fustigava as costas anunciava chuva, desencorajando a permanncia na trilha.
   No que Simon de Blackstone quisesse permanecer. Estabelecera um ritmo acelerado desde o momento em que arrancara os companheiros do saco de dormir na escurido
que antecedia a aurora, com inteno de estar em Durleigh no meio da tarde. Ignorando o desconforto, a exemplo de muitas outras provaes que a vida lhe atirara,
concentrou-se no caminho enlameado  frente. Seus pensamentos, todo o seu ser tinha como objetivo alcanar a cidade a meio dia de jornada na direo norte.
   Seu destino era Durleigh, onde se criara e se sagrara cavaleiro, na casa do lorde Edmund de Meresden. Durleigh, sede da grande catedral presidida pelo bispo Thurstan
de Lyndhurst.
   O homem que o gerara.
   Simon endureceu o queixo, o calor da raiva combatendo o frio mido. Esperara trs longos anos para confrontar-se com o padre que lhe dera vida mas nunca se incomodara
em assumi-lo. Trs anos amargando o conhecimento de que toda sua vida fora uma mentira.
   - Vamos ter que parar - murmurou Guy de Meresden, que cavalgava  direita de Simon.
   - Parem vocs. Eu, no. No enquanto no tiver visto o poderoso bispo e arrancado uma penitncia por seus pecados.
   As palavras entalaram-se na garganta de Simon. Quatro anos antes, duzentos homens haviam partido de Durleigh rumo ao Oriente. Apenas seis voltaram vivos, e Simon
considerava os cinco camaradas to preciosos quanto a famlia que jamais tivera.
   Suspirando, Simon olhou por sobre o ombro para o resto da tropa. Hugh, Bernard, Gervase e Nicholas eram veteranos de longas marchas e raes escassas, mas suas
montarias comeavam a fraquejar e Odetta tambm cambaleava. Se a maldita cabra desmaiasse agora, a pequenina Maudie no teria leite no jantar.
   - Tinha esperana de chegar hoje a Durleigh - resmungou Simon.
   - Eu tambm, meu amigo. - Guy sorriu, os dentes brancos em contraste com a pele morena que denunciava sua herana mestia. Segundo sua me sarracena, era filho
legtimo de lorde Edmund de Meresden, nascido depois que este trocara Acre pela Inglaterra. - Estamos igualmente ansiosos para nos confrontar com nossos pais, ainda
que por motivos diferentes. De qualquer forma, os cavalos precisam de gua e descanso.
   Relutante, Simon concordou com um grunhido e olhou de novo por sobre o ombro.
   - Vamos parar um pouco naquele prado.
   Nicholas de Hendry sorriu.
   - Sabe, conheo uma estalagem mais adiante onde servem uma cerveja...
   - E onde h muitas garotas - completou Smon, rabugento.
   Nicholas apagou o sorriso fcil com que tentava seduzir todas as mulheres que encontrava.
   - J no sou o selvagem que era na juventude.
   - Perdoe minha lngua afiada - pediu Simon, embora pensasse: uma vez tratante, sempre um tratante. Quatro anos de convivncia forjaram um vnculo entre ambos,
mas o fato era que no apreciava a conduta licenciosa de Nicholas. Quem imaginava quantos bastardos Nick gerara e abandonara pelo pas? Assim como o bispo Thurstan
o abandonara. - Leve-nos a essa estalagem, ento.
   - Eu mudei - replicou Nicholas, rspido, antes de assumir o lugar de Simon  frente da coluna..
   - Ele entende porque voc se sente assim - afirmou Guy.
   - No, no creio que algum entenda, nem mesmo voc. - Simon voltou trs anos no tempo, quando irmo Martin, confessor do grupo deles nas Cruzadas, adoecera.
Na
hora da morte, o padre lhe revelara um segredo surpreendente: era filho do bispo Thurstan.
   - Pelo menos, seu pai se casou com sua me.
   - E, mas lorde Edmund jurou nunca voltar para ela - retrucou Guy. - E nunca voltou. Talvez quisesse esquecer que desposara uma mulher infiel, apesar de ela ter-se
tornado crist.
   - Voc conheceu sua me. Ela o criou, amou, e voc cuidou dela quando ficou adulto. Eu no tenho idia do que aconteceu com minha me. - A dor cortava as entranhas
de Simon. - Ele a abandonou e me ignorou, embora vivssemos na mesma cidade.
   - Pode ter tido um bom motivo...
   - Que nada! Queria preservar a reputao, o bispo Thurstan - grunhiu Simon. - Mas eu o confrontarei com seu mau ato e conseguirei o nome de minha me, para encontr-la.
- Pensar nela, sozinha e provavelmente desamparada, era quase insuportvel.
   - A estalagem - anunciou Nicholas, ao dobrar uma curva na estrada e avistar um vilarejo.
   O rebulio foi grande enquanto desmontavam no ptio do estabelecimento, os cavalos relinchando e agitando as cabeas, Odetta balindo alto. A pequena Maud acordara
sobressaltada e lamuriava-se.
   - Calma, j vamos lhe dar seu leite...
   Hugh de Halewell embalava o beb. No combinava nada com seus braos macios a pequena criatura de cabelos negros, mas ali ela viajara de Acre  Inglaterra, embora
no fosse sua filha. Maud era filha de uma prisioneira do mesmo campo do qual os cavaleiros haviam resgatado Hugh. Em seu ltimo suspiro, a mulher implorara a ele
que lhe salvasse a filha. E o cavaleiro assumira o encargo com a maior seriedade.
   - Acho que precisa trocar-lhe as fraldas de novo - murmurou Simon.
   Hugh olhou desgostoso para a mancha molhada em seu tabardo.
   - No  de admirar que minha cota de malha esteja sempre enferrujada... - divertiu-se, os olhos azuis cintilantes.
   Simon contemplou a fralda que Hugh pendurara na ponta da lana para secar.
   - E temos mais roupa para lavar do que todo um acampamento de Cruzada.
   A porta da estalagem se abriu e um homem troncudo espiou para fora.
   - Ei, o que  que... - Arregalou os olhos. - Sir Nicholas?
   - Eu mesmo. Que bom que se lembra de mim, mestre...
   - Vocs esto mortos! - O estalajadeiro fez o sinal da cruz e recuou.
   - Mortos?! - exclamou Smon. - O que quer dizer?
   - Mortos. Assassinados. - O homem olhava-os cauteloso. - No outono, o mensageiro do rei informou que tinham sido massacrados pelos infis. O bispo Thurstan at
rezou uma missa especial em Durleigh.
   Simon sorriu sarcstico.
   - Devia estar comemorando meu falecimento.
   - Que absurdo! - repreendeu o estalajadeiro.
   - Graas a minha burrice, estvamos fora quando nossos companheiros foram atacados - esclareceu Hugh. - Se eu no tivesse sido capturado...
   - No teramos ido a Acre resgat-lo. - Simon olhou para as costas de Hugh, lembrando-se da flecha sarracena que l se alojara enquanto fugiam. No fosse a destreza
de Gervase para os curativos, ele teria morrido naquele beco. - No imaginava que tnhamos sido dados como mortos.
   Fitando os companheiros, viu em cada rosto um reflexo de sua prpria preocupao. O que pensaram suas famlias ao receber a notcia? Seriam os cavaleiros recebidos
com alegria em casa? Ou haveria mais desafios a enfrentar?
   - Bem, graas a Deus se salvaram!
   Todo sorrisos, o estalajadeiro apressou-se em levlos a uma mesa perto da lareira e serviu cerveja. Uma empregada bonitinha ofereceu-se para levar o beb ao andar
superior, trocar-lhe as fraldas e dar-lhe um pouco do leite da cabra. Acostumada  companhia dos homens, Maud agarrava-se a Hugh.
   - Calma, meu amor... - acalentou Hugh, dando-lhe leite.
   Simon recostou-se na cadeira com a caneca de cerveja sobre o abdome esguio, observando os cinco homens que, sem querer, tornaram-se seus amigos. Quanto haviam
mudado em quatro anos!
   Bernard FitzGibbons fora o que mais amadurecera, sob a orientao de Hugh, passando de cavaleiro a guerreiro veterano. O loiro Gervase de Palgrave descobrira
em si um dom de cura que desafiava explicaes. Dividido entre dois mundos, Guy encontrara um refgio entre os cavaleiros de Durleigh, apegando-se principalmente
a Simon.
   - Foi uma longa jornada - murmurou Simon. - No somos mais os mesmos homens de quando a iniciamos juntos.
   Nicholas franziu o cenho.
   - S espero convencer meu pai de que agora sou digno de tornar-me seu herdeiro, ou ele cumprir a ameaa de decepar aquela parte de mim  qual atribui meus descaminhos.
   Hugh riu.
   - Talvez Gervase consiga recuper-lo.
   - No gosto que brinquem a respeito de meu dom.
   - Oh, ningum brincaria com uma coisa dessas - provocou Nicholas.
   Todos sorriam, mas por sob o divertimento espreitava a tenso, que Simon por fim traduziu em palavras.
   - A notcia de que morremos pode ter conseqncias quando chegarmos em casa.
   O silncio dominou a mesa, cada cavaleiro recordando as circunstncias que os levaram a assumir a cruz, antes de mais nada. Smon partira com a certeza de salvar
a Terra Santa, mas a Cruzada terminara em fracasso total. Nicholas precisara fugir de uma horda de mulheres apaixonadas. Bernard desejara expiar os pecados de seu
senhor. Gervase cumprira um juramento feito junto ao tmulo do pai. Hugh penitenciara-se por matar um amigo num torneio. O bispo Thurstan exigira que partissem na
Cruzada em pagamento de seus pecados. Simon considerava tal manipulao mais um crime do bispo.
   - Ningum gostar de me ver de volta - disse Simon.
   - Pode ter uma surpresa - avisou Guy. - Nem sempre sabemos que vidas tocamos.
   Simon esvaziou a caneca e levantou-se.
   - Bem, logo descobriremos. Estou a caminho de Durleigh. - Voltou-se para Hugh. - Tem certeza de que seu irmo acolher a pequena Maud em sua famlia?
   - Tenho. Deve estar casado agora, e tem corao mole. Se por algum motivo ele a recusar, eu mesmo a criarei.
   Simon aprovou.
   - Se no puder, entregue-a a mim. No ficarei em Durleigh aps confrontar-me com o bispo, mas ria hospedaria Royal Oak sabero de meu paradeiro. No permitirei
que essa criana cresa sem amor e carinho.
   - Como eu.
   - Fique tranqilo, pois isso no acontecer - garantiu Hugh.
   O sol lutava para afugentar as nuvens quando saram da estalagem. Descansados e saciados da sede, os cavalos recuperaram o ritmo. Faltava pouco para se separarem,
pensou Simon, triste. Nicholas e Guy o acompanhariam at Durleigh, mas os outros tomariam caminhos diversos. Quem imaginava se voltariam a se encontrar? Uma inesperada
sensao de perda o dominou. Aprendera a no precisar de ningum.
   Num esforo para recobrar a compostura, Simon olhou para cima no instante em que um bando de pssaros alava vo de umas rvores  frente.
   - En garde - advertiu, em voz baixa. - Talvez algum nos espere alm da curva. - Ordenou a Bernard e Nicholas que sassem da estrada e avanassem pelos flancos
atravs da mata.
   Hugh entregou a Gervase o beb adormecido.
   - Tome conta dela.
   - Com a minha vida. - Gervase embrenhou-se nas folhagens.
   Simon tirou a espada da bainha, pousou-a sobre as pernas e baixou o visor do elmo.
   - Prontos?
   - Sim - responderam Hugh e Guy. Atrs de Simon, avanaram cautelosamente pela estrada.
   A floresta parecia fechar-se sobre a trilha, escura e sinistra. Com os sentidos em alerta, Simon esquadrinhou a rea  frente, examinando cada folha e galho em
busca de sinais.
   - Ali,  direita! - sussurrou, enrijecendo os msculos. - Atrs das pedras!
   Quando chegaram s pedras, a floresta de repente encheu-se de homens. Gritando feito demnios, caram sobre a estrada liderados por um homem de porte atltico
e mascarado.
   Simon contou dez bandoleiros ao erguer a espada, pronto para rechaar o ataque do mais corpulento de todos. Dispunham de espadas e machados, mas suas armaduras
no passavam de tnicas e gorros de couro. Tampouco haviam recebido treinamento militar, percebeu, ao derrotar o primeiro oponente. Nem teve tempo para saborear
a vitria, pois dois homens j o desafiavam.
   As costas dele, Hugh emitiu um grito de guerra, brandindo a espada como um guerreiro viquingue, ao mesmo tempo que Guy volteava sua lmina afiada num arco mortal.
No entanto, os bandoleiros podiam no ter requintes de combate, mas ganhavam em nmero. Simon sentia-se fraquejar sob o ataque implacvel de trs inimigos. Deus,
onde se metera Nicholas?
   - Pela Rosa Negra! - gritou Ncholas, pulando da mata com Bernard ao lado.
   - Como nos velhos tempos! - lembrou Hugh, acirrando a luta.
   Com um sorriso desolado, Simon derrubou um dos oponentes com um unico golpe e voltou-se para os outros dois, vagamente consciente das outras batalhas ao redor,
do estrpito do ao, dos grunhidos dos cavaleiros extenuados, dos lamentos dos bandoleiros aniquilados.
   Minutos depois, tudo estava acabado.
   Ofegando fortemente, Simon deu as costas ao ltimo oponente e esquadrinhou a estrada. Os nicos homens de p eram os seus, e estavam todos reunidos ao redor de
uma pedra na qual Bernard sentara-se. Correu ao encontro dos companheiros.
   - Algum se feriu?
   - Minha perna. - Bernard tinha o rosto contrado de dor. - Matamos todos, exceto aquele vira-lata. - Olhou raivoso para o bandoleiro estendido no cho a poucos
metros. - Eu o desarmei, mas ele ainda pegou uma pedra e esmagou minha perna...
   - O lder. - Simon agachou-se e arrancou-lhe a mscara.
   O fora-da-lei abriu os olhos e os arregalou, chocado e apavorado.
   - Simon de Blackstone?! Mas est morto!
   De olhar estreito e boca contrada, Simon fitou detidamente o rosto comprido.
   - Parece que j o vi antes...
   O bandoleiro pulou do cho como que lanado por catapulta e sumiu entre as rvores, perseguido de perto por Simon, que no foi rpido o bastante. Evidentemente,
o fora-da-lei conhecia bem a floresta, que pareceu engoli-lo.
   Simon desistiu e voltou ao campo de batalha.
   - Encontrou-o? - indagou Nicholas.
   - No. - Simon chutou um monte de terra. - E Bernard?
   - Gervase acha que a perna est quebrada - informou Hugh. - Conhece um mosteiro aqui perto e quer lev-lo l. Irei junto.
   Simon concordou, de olho na floresta.
   - J vi aquele homem antes. Na catedral de Durleigh.
   - Simon, no seja precipitado - advertiu Nicholas.
   - No  possvel que o bispo tenha mandado esse bandoleiro mat-lo. Nem imagina que estamos vivos, quanto mais que chegamos por esta estrada.
   - Talvez, mas gostaria de saber que males me aguardam em Durleigh - murmurou Simon.

   Rob FitzHugh continuou correndo at chegar ao casebre em que ele e o bando tinham se abrigado. Resfolegando, e cobrindo com a mo o ferimento ardente no ombro,
empurrou a porta frgil e estacou.
   - O que est fazendo aqui?
   Jevan le Coyte levantou-se da banqueta em frente  lareira, o grosseiro hbito clerical enfatizando sua estrutura esguia.
   - Preciso de dinheiro. - Contorceu as belas feies, desgostoso. - Se bem que, a julgar por sua aparncia, o ataque no deu certo...
   - No deu certo! - desabafou Rob, incrdulo. Fechou a porta com um pontap e titubeou at a lareira, bebendo de uma jarra ao lado. A cerveja azeda acah7nou-lhe
a garganta seca, mas no eliminou o fel da derrota. - Fomos trucidados! Todos morreram, menos eu!
   - Quer dizer que no conseguiu nem um tosto? - repreendeu Jevan, frio.
   - No, o que conseguimos foi muito ao. - Rob afastou a mo ensangentada para mostrar o corte fundo, mas o rapaz que fora o mentor daquele ataque apenas deu
de
ombros. - Eram cavaleiros, droga, cinco, no mercadores indefesos!
   - Cinco contra dez - lembrou Jevan, desdenhoso.
   - Cinco cavaleiros da Rosa Negra, liderados por Simon de Blackstone.
   Jevan ficou boquiaberto.
   - Ele est morto.
   - Era ele... sem dvida. E ele me reconheceu.
   - No! - Perdendo a costumeira frieza, Jevan passou as duas mos pelos cabelos negros. - No agora!
   No quando a fortuna de Thurstan est bem ao meu alcance. No a perderei. De jeito nenhum. - Seus olhos brilhavam como os de um co raivoso.
   Rob recuava para a porta.
   - O que pretende fazer?
   - No perderei aquela fortuna. - Com os dentes cerrados em fria, Jevan empurrou Rob e deixou o casebre. - Venha, temos trabalho a fazer.


   CAPTULO 1

   Catedral de Durleigh, 10 de maio, 1222

   Estava morrendo.
   O mal-estar do esprito poderia ser atribudo  perda do filho. Mas a fraqueza nos membros que piorava gradualmente, a dor que passara de um tormento no inverno
a uma ardncia aguda, estas j no podia ignorar. Por mais impossvel que parecesse, dada sua riqueza, seu poder e suas conexes divinas, ele, Thurstan de Lyndhurst,
bispo de Durleigh, estava morrendo.
   - No!
   O angustiado grito de raiva e negao ecoou por toda a sala de estar. O medo levou-o a agarrar-se  borda da escrivaninha com tanta fora que os dedos de suas
mos longas, macias, ficaram brancos. Tal emoo sentira apenas uma vez em seus cinqenta e um anos, no dia em que soubera que o amor que partilhara com lady Rosalynd
daria um fruto.
   Simon. Um filho que jamais reclamaria. Simon estava morto agora. Uma luz brilhante, promissora, extinta antes que tivesse a chance de brilhar. E logo Thurstan
acompanharia o filho que amara mas nunca pudera abraar.
   Thurstan suspirou. Por menos que quisesse desistir da vida, ao menos, quando se reunisse ao filho na terra prometida, poderia explicar-lhe por que fizera o que
fizera.
   Sorriu sem graa. Isso se fosse para o cu, o que no era garantido, dados os pecados que cometera, alguns em nome do lucro, outros por vingana. Pecados, no
obstante, concluiu, levantando-se devagar para ir at a janela. A tnica ricamente bordada que vestira em honra ao jantar daquela noite pesava em seu corpo, assim
como a morte de Simon lhe afligia a conscincia.
   Se ao menos tudo pudesse ter sido diferente...
   Mas era tarde demais para compensar seus erros, desde o triste dia no outono em que chegara um mensageiro com a notcia de que Simon e os outros cruzados de Durleigh
haviam perecido.
   A dor aguda no peito de Thurstan no provinha de sua doena, mas de uma angstia profunda demais para ser descrita. A ele e Rosalynd fora negada uma vida em comum,
mas consolara-se proporcionando o melhor ao filho de ambos. Jamais poderia ter reclamado Simon, porm, astuto, providenciara para que fosse criado por lorde Edmund
ali mesmo em Durleigh, no castelo Wolfsmount, de modo que pudesse v-lo crescer. Fora com imenso orgulho que oficiara a cerimnia de sagrao de cavaleiro de Simon,
pois o menino transformara-se num homem de lealdade, coragem e honra inabalveis.
   Melanclico, Thurstan destrancou as venezianas e abriu as duas folhas da janela de pergaminho oleado. O ar fresco e mido invadiu o recinto, afastando pcir um
segundo o cheiro de morte. L embaixo estava a muralha verde que cercava a catedral e, mais alm, os telhados da agitada e prspera cidade de Durleigh, tudo dominado
pelo castelo Wolfsmount na encosta da colina rochosa. Durleigh era um povoado pequeno quando chegara, vinte e cinco anos antes. Agora, centro de comrcio e negcios,
rivalizava com a grande cidade de York, ao sul. Em parte, o crescimento de Durleigh devia-se s intrigas de Thurstan e suas conexes familiares na corte. Assim como
Durleigh povoara-se de negociantes e trabalhadores, Thurstan recheara seus cofres.
   Mas todo aquele ouro pouco o confortava agora. Perdera seu amor, seu filho morrera e ele mesmo sentia a vida esvair-se.
   Thurstan suspirou, os pensamentos mais morosos ao deslizar o olhar pelo telhado do boticrio. Ah, sentiria falta de Linnet com seus cabelos dourados, inteligncia
viva e ilimitado interesse pela vida. Fizera planos para a jovem boticria, no entanto, com Simon morto, jamais se realizariam.
   Uma dor aguda cortou-lhe as entranhas, e ele curvou-se. Quando a onda de agonia passou, Thurstan agarrou-se ao peitoril da janela e endireitou-se. Que doena
era essa que o atormentava tanto? Aps anos levando a absolvio aos aflitos, vira a morte sob muitos disfarces, mas nunca uma que enfraquecia a vtima sem febre
nem deteriorao da carne. At irmo Anselme, o enfermeiro, fracassara em identificar o mal, enquanto que os tnicos preparados por Linnet no lhe trouxeram o menor
alvio.
   A doena era como um veneno invadindo seu...
   - Veneno...
   A palavra escapou por entre os lbios de Thurstan com um silvo. Horrorizado, ele recordou a maneira insidiosa com que o mal fora se apossando de seu ser.
   Era possvel que algum o estivesse envenenando?
   Quem? E por qu?
   Com o olhar estreito, Thurstan contemplou a cidade que governara por tanto tempo. Como um dspota, cochichavam os caluniadores. Mas falavam baixinho e pelas costas,
pois a riqueza e o poder do bispo Thurstan excediam at os sonhos do pai manipulador que lhe comprara a diocese de Durleigh havia tantos anos. Teria alguma ovelha
de seu rebanho se irritado com uma penitncia rigorosa? Ou estaria o criminoso mais  mo?
   Crispin Norville, o arquidicono da catedral de Durleigh, sempre deixara claro que desaprovava os mtodos de Thurstan. Frio e severamente pio, cobiava a diocese
e realava o contraste de seu comportamento com o de Thurstan, passando mais tempo ajoelhado na capela do que cumprindo as tarefas administrativas. Sempre de hbito
rstico, fazia o estilo de So Benedito, enquanto Thurstafl cobria-se de sedas bordadas e ls finssimas.
   Mas... assassinato?
   Apesar do dio evidente de Crispin, Thurstan hesitava em atribuir ao arquidicono o papel de assassino. Ora, um homem que se flagelava todo sbado por conta dos
pecados que podia ter cometido sem querer! No, Crispin, no.
   O proco Walter, ento? Visitara a catedral com freqncia naquele inverno. Alis, acabava de voltar, portador de saudaes de Sua Graa, o arcebispo de York,
indagando sobre a sade de Thurstan. Sujeito falso, ardiloso, Walter de Folke ascendera ao poder dentro da igreja de maneira rpida e inesperada, considerando-se
sua origem humilde.
   Thurstan tentou recordar se sua doena piorara aps a visita de Walter, mas tinha a mente transtornada pelo choque. Trmulo, afastou-se da janela, o olhar varrendo
em desespero o cmodo ricamente decorado. Como fora feito? Pela comida? Pela bebida?
   Cambaleou pela sala at a escrivaninha macia. Sobre ela, a bandeja tinha uma garrafa de prata com seu vinho de Bordeau favorito. No, no podia ser ele, pois
o servia aos convidados,  irm, Odeline, hospedada temporariamente no andar superior, e at a Walter. Sim, Walter bebera um clice pouco antes, ao meio-dia.
   Thurstan relaxou, at que olhou pela porta aberta para o quarto de dormir. Sobre o criado-mudo estava a garrafa de aguardente herbrea. Tomava um traguinho da
bebida saborosa toda noite, enquanto escrevia no dirio. Estaria envenenada?
   Thurstan ficou olhando a garrafa, fraco demais para alcan-la. O cheiro no lhe diria nada, pois bebera a aguardente de bom grado nos ltimos meses. Como concluir
algo sem saber o que fora usado? Beladona? Cicuta? Acnito?
   Acnito.
   Thurstan sentiu a garganta bloqueada. Ento, soluou. Pegara com Linnet um pouco da erva venenosa para matar os ratos que vinham roendo s razes de suas roseiras
premiadas. Tocara no p? No, entregara o pequeno frasco a Olf, o jardineiro, que misturara a erva as sementes a ser lanadas no jardim. Se algum tivesse se envenenado
pelo contato com o acnito, seria Olf.
   O que, ento, o matava? E quem?
   Thurstan contemplou o livro fino preto sobre a mesa. As trs primeiras pginas continham suas preces favoritas e o resto, seu dirio pessoal, um relato de como
passava os dias. Mas encontravam-se registrados ali tambm os pecados dos cidados de Durleigh, conforme os revelavam no confessionrio. E, ao lado de cada nome,
a penitncia imposta pelo deslize.
   Para os pobres, o preo costumava ser uma orao ou uma boa ao. Dos ricos, obtinha moedas para encher os cofres da igreja e, s vezes, o seu prprio. Para os
autores de crimes graves ou cruis, as punies eram muito severas. Teria um deles decidido se vingar?
   A corneta soou, anunciando a hora do jantar.
   Thurstan fez uma careta. A ltima coisa que desejava era partir o po com a irm resmungona e dois homens que achava tediosos e que podiam ser criminosos. Queria
discutir com irmo Anselme suas suspeitas e ver se o bom religioso conseguiria encontrar-lhe um antdoto antes que fosse tarde demais. Se j no fosse. Queria tambm
analisar o dirio na esperana de descobrir quem...
   A porta que dava para o corredor abriu-se de repente. Um homem deteve-se  soleira. Trajava um tabardo cinza desbotado. Sobre o ombro esquerdo, uma rosa negra
bordada.
   O emblema dos cruzados de Durleigh. Mas estavam todos mortos!
   Thurstan engoliu em seco ao olhar para o intruso alto, de peito largo e cabelos negros  altura dos ombros. Tinha o rosto meio oculto nas sombras, mas mesmo assim
o reconheceu.
   Simon.
   Cus!
   Devia estar tendo uma alucinao. Afundando na cadeira, cobriu o rosto com as mos.
   - V embora, espectro! - suplicou.
   - No enquanto no souber a verdade.  meu pai? - inquiriu a apario. O cho pareceu tremer conforme avanava.
   Devo ter morrido, pensou Thurstan. E ido direto para o inferno.
   - Sim, sou seu pai - murmurou.
   - Por que nunca me disse o que eu era para voc?
   - No tive escolha.
   - Minha me era uma criatura to desprezvel?
   - No. De forma alguma. - Thurstan ergueu o olhar para a criatura de p diante da mesa. Parecia to real, a barba por fazer, a expresso angustiada. Simon tinha
olhos verdes, como os de Rosalynd, mas com uma pincelada cinzenta dos seus, e brilhantes devido s emoes dolorosas que o atormentavam. Virou o rosto. - Ela era
um anjo, sua me.
   - Ento, por qu? - Simon bateu o punho na mesa, desarrumando acessrios de escrita, fazendo danar o candelabro.
   Thurstan endireitou-se na cadeira.
   - Mas que visita  essa? - ralhou.
   - Uma muito atrasada, eu diria. - Simon fitava-o frio, duro. - Irmo Martin contraiu uma febre e morreu em Damietta. Assisti-o nas ltimas horas, quando ele me
confessou que voc era meu pai. - Aproximou-se, a respirao queimando a pele gelada de Thurstan. - Por que esconderam-me a verdade?
   Thurstan piscou.
   - Voc est vivo.
   - Estou. Para seu desagrado, sem dvida. Esperava que seu erro se perdesse na Terra Santa?
   -  um milagre. - Thurstan nunca pusera muita f neles. Tampouco nas preces, pois a sua permanecera sem resposta at agora, mas com certeza tratava-se de um milagre.
   - Um brao forte com espada me salvou, no a interveno divina - desdenhou Simon. - Sobrevivi com um nico pensamento, voltar aqui e jogar seus crimes na sua
cara. Talvez tenha enviado irmo Martin para garantir que eu no retomasse...
   - Por que eu o quereria morto? - questionou Thurstan.
   -  claro que sou motivo de constrangimento para voc, do contrrio, teria reconhecido a paternidade h anos.
   - Tive meus motivos.
   -  o que diz.
   -  a verdade.
   Simon no lhe dava crdito.
   - Voc no reconheceria a verdade nem que ela lhe mordesse o traseiro sagrado. Durante anos, eu o vi manipular os outros a sua vontade. Metade dos homens que
partiram
na Cruzada o fizeram porque os chantageou, para engrossar as fileiras que enviou em resposta ao pedido de ajuda do papa. Aproveitando para subir mais um degrau na
escalada rumo ao arcebispado, talvez. Caminha sobre o sangue deles - rosnou Simon. - Por isso e pelo que fez a mim, eu o desprezo.
   - Voc no entende.
   - Entendo que o odeio, acima de todos os homens. - Simon estreitou o olhar. - Quis manter em segredo nossa relao, e estou de acordo. No quero que ningum saiba
que seu sangue corre em minhas veias. H s uma coisa que quero de voc. Diga-me quem foi minha me.
   - No posso lhe dizer - murmurou Thurstan, cerciado por um juramento que lhe impuseram havia muito.
   - Ento, descobrirei sozinho.
   - No! - Desesperado, Thurstan levantou-se e cambaleou, agarrando-se  escrivaninha quando uma dor lancinante cortou-lhe as entranhas. Um lembrete de que estava
morrendo. Viu-se apossado pelo terror, embora a dor diminusse. Quem quer que fosse o assassino poderia transferir para Simon seu dio, ou ganncia, ou qualquer
outro sentimento vil que o movesse. At que descobrisse de quem se tratava, Simon no estaria seguro. Estudou o rosto querido que no esperara rever nesta vida.
Cus, adoraria abraar o menino, ainda que por um segundo. Em vez disso, concentrou-se na tarefa que o aguardava. - E melhor voc ir embora, pois aguardo uma visita
importante. - A mentira acrescentaria s mais uma manchinha em sua alma j deteriorada. O que importava era livrar-se de Simon antes que algum o visse, ou, pior,
ouvisse.
   Simon endireitou-se.
   - Quero o nome dela.  claro que deixou a coitada desamparada.
   - Ela est morta - disse Thurstan, desesperado.
   -  mentira. Ela est viva, e quero saber onde.
   - No posso lhe contar - rosnou Thurstan. - V. Falaremos disto outra hora. - Tinha muito a fazer, um assassino a desmascarar, uma escritura de herana para emendar,
e pouco tempo restante.
   Smon enrijeceu-se, como se as palavras o esbofeteassem.
   - Se eu for, no voltarei.
   - A escolha  sua - concluiu Thurstan, o corao despedaado.
   Simon voltou-se para a porta, rodopiando ligeiramente a capa de l negra. Ento, parou e olhou para trs. A postura rgida e expresso impiedosa lembraram Thurstan
de seu prprio pai. Sim, havia muito de Robert de Lyndhurst no neto. Simon no era homem de esquecer-se de um deslize ou perdoar uma ofensa.
   - Estarei na hospedaria Royal Oak. Mande me avisar o nome e o paradeiro de minha me. Se eu no tiver recebido nenhuma mensagem at amanh a esta hora, investigarei
por conta prpria.
   A batida da porta ecoou pela sala encerrando o encontro de forma terrvel.
   Thurstan afundou-se na cadeira, a dor no corao mais aguda do que aquela nas entranhas e nos membros. Simon o odiava. A ltima ironia, cruel.
   Vagamente, ouviu a cometa anunciando pela segunda vez o jantar. Irmo Oliver o procuraria se no aparecesse logo. De fato, a porta do escritrio do secretrio
entreabriu-se.
   - Oh, Thurstan...
   Thurstan abriu os olhos e viu Linnet correndo pelo cmodo ao seu encontro.
   - Minha querida... - Endireitou-se na cadeira, embora lhe custasse muito. - No devia estar aqui.
   - Eu sei. - Ela se ajoelhou a seus ps e tomou-lhe as mos frias nas suas, quentes. - Sei que ter problemas se o arquidicono descobrir que estive aqui.
   -  por sua reputao que temo. - Ele apertou-lhe mos, fitando os olhos de rara colorao, castanhos muito claros. To afetuosos, to cheios de compaixo que
um homem poderia perder-se neles.
   - Est mais corado hoje - animou Linnet, sorridente.
   Simon est vivo.
   Thurstan tinha as palavras na ponta da lngua, mas conteve-as. No era seguro.
   - O clima mais quente ajuda.
   Linnet deixou de sorrir e apertou-lhe as mos com mais fora.
   - Thurstan, temo que no se trate de uma doena comum. Acho que  envenenamento.
   - Envenenamento?! - Ele riu forado. Linnet no devia desconfiar, nem divulgar suas suspeitas at que ele descobrisse quem tentava envenen-lo.
   - Acnito. Lembra-se que lhe arranjei um pouco para as roseiras? Li a respeito num livro antigo, e os sintomas de envenenamento por acnito assemelham-se aos
seus.
   Ao menos, agora sabia o que o matava aos poucos.
   - Ouvi dizer que matava, no que debilitava.
   - Em pequenas quantidades, provoca dor como essa que sente.
   - Ningum est me envenenando, minha querida. No pensei mais...
   A porta do corredor se abriu e Oliver parou no umbral.
   - Meu senhor, os convidados esperam na... - Franziu o rosto liso feito pudim. - O que  que ela est fazendo aqui, meu senhor?
   Linnet levantou-se e arrumou as saias.
   - Vim ver como estava meu senhor bispo.
   Oliver fungou.
   - Ele tem a mim e irmo Anselme para olhar por sua sade. - Virou-se para Thurstan: - Sente-se bem o bastante para descer e jantar?
   No, no se sentia bem o bastante. Mas Robert de Lyndhurst no criara nenhum fracote.
   Nunca deixe o inimigo v-lo vulnervel.
   - Diga-lhes que j estou descendo.
   Mas por quanto tempo agentaria? A porta se fechou atrs de Oliver e Thurstan olhou para o dirio. E se morresse e aqueles registros cassem em mos erradas?
Preocupava-se em parte com os moradores da cidade, cujos pecados, pecaminosamente, registrara... para usar contra eles, mas em especial com o documento oculto atrs
da primeira capa do dirio. A escritura que dava a Simon a propriedade de Blackstone Heath. Comprara-a para com ela presente-lo assim que ele se sagrasse cavaleiro,
mas o rapaz partira na Cruzada em seguida. E morrera.
   Encontrava-se ainda transtornado com a notcia terrvel quando a meia-irm mais nova, Odeline, exilada da corte devido a seu comportamento escandaloso, chegara
com o filho. Se ele no os ajudasse, lamuriara-se Odeline, ela e Jevan morreriam de fome. Como no queria mais esse peso na conscincia, acolhera-os. E alterara
a escritura, concedendo Blackstone a Jevan, desde que ele completasse os estudos na escola da catedral. O rapaz era to ftil e mimado quanto a me, mas esperava
que a disciplina o transformasse num homem capaz.
   Agora que Simon estava de volta, deveria alterar a escritura novamente, para que ele ficasse com Blackstone. A Jevan daria outro pedao de terra, ou talvez dinheiro
para comprar...
   - Thurstan... - Linnet tinha os olhos marejados de lgrimas.
   - No se aflija, minha querida. - Ele conseguiu se levantar, sentindo as pernas mais firmes. - Estou melhor.
   Smon estava vivo. Alm disso, j sbia o que o matava, embora no imaginasse quem. A esperana instalou-se em seu peito pela primeira vez em meses.
   Aps o jantar, entregaria a aguardente herbrea a irmo Anselme para que a mandasse examinar. Talvez parar de beber a droga bastasse para salvar-se. No obstante,
persistia a sensao de condenao pendente percorrendo-lhe a pele como nvoa fria, ou sopro de tmulo, causando-lhe arrepios.
   - Thurstan? - Linnet apertou-lhe a mo sobre o dirio.
   O maldito dirio, com seus segredos tenebrosos.
   - Quero que guarde isto, minha querida. - Quem melhor para guardar seus segredos do que a mulher cuja transgresso tambm encontrava-se registrada ali? Afinal,
sua vida estava intrnsicamente ligada  de Simon. Com sorte, os dois talvez encontrassem a felicidade que escapara a ele e Rosalynd. - So minhas preces favoritas.
   - Obrigada. - Ela apertou o livro junto ao seios.
   - Mas temo por voc. Por sua alma. Quero ajudar.
   - J me ajudou, mais do que imagina, mas  melhor que se v agora, antes que o arquidicono Crispin venha me procurar e a encontre aqui. Poderia fechar a janela
no caminho?
   Ela aquiesceu, parecendo ainda aflita.
   - Estou preocupada porque o amo, Thurstan - explicou, fechando a janela.
   - No se aflija, minha querida Linnet. Sinto-me mais forte agora. Em poucos dias, mandarei cham-la. - A essa altura, talvez j soubesse quem planejara o crime
vil. - Vamos nos sentar juntos no jardim.
   Ento, tiraria a escritura do esconderijo na capa do dirio e faria as alteraes fundamentais, transferindo Blackstone Heath das mos de Jevan para as de Simon.

   Simon deixou o palcio do bispo furioso, mal contendo o pssimo temperamento que o atormentara por toda a existncia. No caminho, chutava as pedras, imaginando
qual delas seria o bispo Thurstan.
   Cus, o homem era um monstro mais frio e insensvel do que se lembrava.
   - Estou preocupada porque o amo, Thurstan. -  Uma voz feminina abafada transportou-se pelo ar parado.
   Simon estacou e olhou por sobre o ombro, esquadrinhando o palcio do bispo, quatro impressionantes andares de pedra com janelas pequenas a intervalos regulares.
Uma delas, acesa no primeiro andar, acabava de ser fechada. Aps um clculo rpido, concluiu que era o aposento do qual acabara de sair. A sala de estar do bispo.
   Ento, a visita importante de Thurstan era uma mulher. Uma mulher que declarava abertamente seu amor por ele. Simon sentiu-se nauseado. Cus, no havia limites
para os pecados daquele homem?
   E se fosse sua me?
   A idia chocou-o tanto que estremeceu. Aproximou-se da janela e apurou o ouvido, mas no captou mais nada. Ainda abalado, recostou-se no prdio. Uma voz branda,
sufocada de emoo, perene.
   Moraria ela ali?
   Apostando que nem Thurstan teria o descaramento de manter a amante dentro da catedral, Simon esgueirou-se junto  parede e escondeu-se nos arbustos. O aroma de
rosas vindo do jardim prximo invadiu-lhe os sentidos, aplacando um pouco seu nervosismo. No deserto, passara noites em claro, ansiando pelo retorno  Inglaterra,
pelo ar mido, pelo cheiro forte de relva e rosas.
   Sabia por qu.
   Em sua ltima noite na Inglaterra, sonhara com uma mulher, uma mulher cuja pele cheirava a rosas e cujo toque o tornara cego para todas as outras mulheres. Passara
quatro anos procurando uma mulher que o completasse como ela o completara.
   O som de passos no caminho de cascalho arrancou-o do devaneio. Viu uma figura envolta numa capa deixar o palcio s pressas. O capuz ocultava seu rosto e cabelos,
mas era uma pessoa pequena e andava como mulher.
   Sua me?
   Com o corao tomado de esperana e medo, Simon saiu do esconderijo e seguiu-a.

   De p, com as mos apoiadas na mesa e a cabea baixa, Thurstan reunia foras para descer a escadaria at o trreo e suportar a refeio de seis pratos. Ao ouvir
a porta se abrir, ergueu o rosto, esperanoso de que Simon houvesse voltado.
   Odeline entrou num farfalhar de seda acetinada, as gemas cintilando como estrelas na tara que lhe prendia os cabelos. Era a imagem da me, uma beldade inteligente
e sensual que chamara a ateno de Robert de Lyndhurst quanto ele tinha cinqenta anos e ela, vinte, levando-o ao altar, para desgosto dos filhos dele.
   - Vai descer para o jantar?
   - Vou. - Thurstan contornou a escrivaninha, o andar vacilante contrastando com o deslizar felino de Odeline indo a seu encontro. S quando ela passou da sombra
ao crculo dourado que as velas lanavam sobre a mesa ele notou a fria em seus olhos cor de esmeralda. - Est zangada.
   - Zangada?! - Ela ergueu os punhos cerrados. - Ele voltou, seu filho bastardo!
   Thurstan assustou-se.
   - Por que diz isso?
   - Eu o vi descendo a escada.
   - Ah. - Thurstan suspirou. - Poucos em Durleigh sabem da... ligao entre Simon e mim. Prefiro que continue assim. - Ao menos, at descobrir quem o estava envenenando.
   - Como se eu quisesse que o mundo soubesse que meu irmo, o bispo, gerou um filho em...
   - Cuidado, Odeline, pois suas indiscries tambm podem se tornar pblicas.
   - Tenho uma proposta. Meu silncio em troca de Blackstone Heath.
   - Blackstone  de Simon. Mas no deixarei seu filho desamparado.
   Odeline contraiu a boca num rosnado.
   - Prometeu a propriedade ao meu filho e ele a ter.
   - S se eu quiser. E digo que no!
   - Maldito! - Odeline o golpeou no peito com os dois punhos, empurrando-o para trs.
   Thurstan gritou, estendendo os braos ao perder o equilbrio. A irm nem se mexeu. A ltima coisa que ele viu antes de bater a cabea na escrivaninha foi o sorriso
dela e, mesmo assim, sob uma escura chuva de estrelas.


   CAPTULO 2

   Algum a seguia.
   Ao perceber isso, Linnet Especer sentiu dissipar-se a nvoa de tristeza que a engolfara desde que se despedir de Thurstan.
   A noite cara enquanto estivera com ele. As luzes da catedral e do palcio do bispo piscavam, ilhas de luz na escurido, prometendo um porto seguro. Mas no ousava
voltar. O arquidicono Crispin desaprovava totalmente seu relacionamento com Thurstan e, desde que o bispo adoecera, vinha externando a opinio com mais contundncia.
No que ligasse para o que o arquidicono pensava a seu respeito. O problema era que as acusaes manchavam o bom nome de um quase santo, a seu ver.
   Ali! Uma sombra descia o caminho vindo do palcio, a capa enfunando-se  leve brisa noturna. Um dos espies do arquidicono, concluiu, contrafeita. Se bem que
tratava-se de um indivduo alto e de andar mais determinado do que o de um monge. Quando a capa se agitou novamente, percebeu um reflexo de luz sobre metal. Uma
espada.
   O delegado?
   Linnet sentiu mais medo, o pulso acelerado  idia de que Hamel Roxby poderia estar atrs dela. Devido a sua proximidade com Thurstan, o delegado disfarara um
pouco o interesse, porm, agora, vendo o bispo cada vez mais fraco, talvez pensasse em aproveitar-se dela.
   Com o corao disparado, Linnet passou correndo pelos portes do ptio da catedral, tomando a rua Deangate, quase deserta, livre dos peregrinos e fiis que convergiam
ao santurio durante o dia. Para voltar a sua loja, o caminho mais curto era pela Colliergate, onde os carvoeiros vendiam sua mercadoria, atravessando a cidade at
a Spicier's Lane. Mas era tambm o caminho mais ermo  noite.
   Sendo assim, tomou a Deangate rumo ao centro de Durleigh. O aroma de po fresco envolveu-a ao dobrar a esquina com a Blake Street. A rua estreita no estava cheia,
mas o vaivm de algumas pessoas entrando e saindo das padarias bastou para tranqiliz-la. Ante as luzes que escapavam pelas portas abertas, sentia menos medo. No
meio do percurso, olhou para trs, esperando ter-se enganado quanto ao perseguidor.
   No, ele estava l, acabava de entrar na Blake, bem mais alto do que os outros que transitavam, avanando com passos contidos, porm determinados. Seu modo de
andar, deslizando de um grupo de pessoas para o outro, provocava-lhe arrepios. Usava-os como cobertura, a exemplo de uma raposa ocultando-se atrs de arbustos ao
espreitar um coelho.
   Linnet fez o que qualquer coelho faria. Correu para o beco mais prximo. Morando em Durleigh desde a infncia, mesmo no escuro reconhecia cada curva e atalho
que a levariam para casa. Na esquina da High Gate com a New Street ficava Guildhall, um imponente edifcio com fachada de pedra e madeira, testemunho da riqueza
dos comerciantes de Durleigh. De dia ou de noite, a galeria contava sempre com grande movimento. Aquela noite no era exceo.
   O fogo das tochas enfileiradas diante do prdio tremeluziam ao vento, lanando luz e sombras sobre os trabalhadores que voltavam para casa e os comerciantes obesos
que chegavam para o jantar. Conhecia muitos deles, mas nenhum a ajudaria, por medo de enfrentar o delegado ou por acreditar que tratava-se da amante de Thurstan,
desaprovando-a.
   No beco, Linnet tirou a capa e enrolou-a com o livro de preces no meio. A seguir, soltou as tranas e sacudiu os cabelos fulvos, ajeitando-os em torno do rosto.
Como disfarce, deixava a desejar, mas se Hamel estivesse mesmo seguindo-a, procuraria uma mulher de capa, no a lavadeira que esperava estar representando.
   Saindo do beco, Linnet passou a acompanhar dois rapazes que seguiam pela High Gate no rumo sul. No ousava olhar para trs, vendo se Hamel a seguia, temerosa
de estragar o disfarce frgil. Sentia arrepios na nuca e um frio gelado na espinha. A cada passo, esperava ser agarrada e confrontada com seu castigo havia muito
merecido. Mas percorreu todo o quarteiro do mercado sem ser incomodada.
   Diante da hospedaria Royal Oak, Linnet suspirou aliviada. Ali, ao menos, poderia contar com ajuda. Aps agradecer aos rapazes em pensamento, seguiu para os fundos
do estabelecimento. Com dedos trmulos, refez as tranas nos cabelos e empurrou a porta da cozinha. Foi recebida pela luz e por um cheiro de comida bem condimentada.
   No outro lado da cozinha, Elinore Selwyne distribua sopa em tigelas de madeira com uma concha.
   - Linnet, o que faz aqui a esta hora da noite?
   - Eu... estava passando - mentiu ela, ofegante.
   Elinore franziu o cenho, observando Linnet dos ps  cabea.
   - O que foi que aconteceu?
   Consciente da pssima aparncia, Linnet j ia se explicar quando notou a criada demorando-se junto a uma porta afastada. Baixinha e gorducha, Tilly tinha olhos
castanhos dissimulados e nariz bisbilhoteiro. O aprendiz de Linnet, Aiken, gostava de Tilly, mas a criada s tinha olhos para o delegado. Corria o boato de que ela
freqentava a casa dele perto do mercado.
   - Estou com fome, s isso - replicou Linnet, ganhando tempo.
   - Entendo.
   Linnet acreditava que sim. Doze anos mais velha do que Linnet, Elinore herdara a hospedaria do pai e agora a dirigia com a ajuda do marido, Warin. Tinha lngua
afiada, esperteza para os negcios, mas tambm um bom corao. No ano anterior, quando o pai de Linnet morrera, tomara-a sob sua proteo. Dera-lhe conforto, apio
e conselhos quando a intercesso de Thurstan junto  associao lhe permitira assumir o boticrio.
   - Aiken j passou aqui e levou o jantar para sua casa, mas  melhor sentar-se e fazer a refeio. Tenho certeza de que ele e Drusa comeram quase tudo.
   Linnet sorriu. De fato, tanto seu aprendiz quanto a velha criada tinham timo apetite.
   - Agradeo a oferta. - Com o corao ainda aos pulos, deixou a capa no cho ao lado da porta e esperou Elinore terminar de encher as tigelas.
   A cozinha do estabelecimento era pequena, mas organizada e bem administrada pela bela e robusta Ehnore. Uma lareira de tijolos alta o bastante para conter uma
pessoa de p ocupava o outro extremo do recinto. Em seu interior, um suporte denteado sustentava dois caldeires macios. Diante dela, ficava a comprida mesa de
pranchas sobre a qual preparavam-se as refeies, com um ba em cada ponta, um para os ingredientes dos pratos, outro para as especiarias. Nas prateleiras de uma
parede, empilhavam-se tigelas de madeira, colheres de chifre e travessas para se servirem as fatias de carne, po e queijo.
   - Sirva-se rpido antes que esfrie - ralhou Ehinore, expulsando Tihly pela porta. Ao voltar-se para Linnet, seus olhos azuis eram perscrutadores. - Agora, o que
foi que aconteceu? Parece aterrorizada. Est com os cabelos desarrumados e o olhar selvagem, como o de uma raposa acossada.
   - No aconteceu nada...
   Vendo Linnet de lbios trmulos e os olhos cheios de lgrimas, Elinore abrandou a expresso.
   - Venha, sente-se aqui. - Abraando a protegida pela cintura, conduziu-a ao banco junto  mesa.
   Linnet encolheu-se.
   - Temo... que o bispo esteja morrendo.
   Elinore fez o sinal da cruz.
   - Morrendo?! Mas de qu?
   Veneno. Linnet no ousaria revelar suas suspeitas, nem mesmo  melhor amiga. No queria que ningum adivinhasse, como adivinhara, que o bispo estava morrendo
de tristeza. Tambm lamentara ao saber da morte de Simon, mas a dor de Thurstan era mais aguda porque ele acreditava ter negligenciado o filho.
   No que se referia a Linnet, seis meses no haviam arrefecido a angstia pelo passamento de Simon, embora nunca tivesse sido dele, de verdade. Sempre o admirara
de longe, mas s se aproximara mesmo uma vez. Na noite que antecedera a partida dos cruzados de Durleigh. E aquele nico e breve encontro mudara sua vida para sempre.
Lamentava profundamente a morte dele. Parecia impossvel que uma alma to brilhante e vibrante como a de Simon houvesse se apagado.
   - O tnico que levou para o bispo na semana passada no ajudou?
   Linnet meneou a cabea, lutando para conter as lgrimas. Se lhes permitisse correr, temia jamais parar de chorar. Por Thurstan. Por Simon. E por uma outra vida,
tambm perdida, para ela.
   - Ele comeou a se sentir mal no outono, quando chegou a notcia de que os cruzados tinham morrido.
   Elinore deu-lhe tapinhas na mo.
   - Cinqenta e um anos no  uma idade avanada, mas quando o corao enfraquece...
   Ou quando cessa de ter esperana. Linnet suspirou.
   - Temo que esteja certa, mas di v-lo sofrendo tanto e no poder ajudar.
   No existia antdoto para o acnito, mas se conseguisse descobrir a fonte e destru-la, talvez conseguisse salv-lo.
   - Com sua amizade, voc lhe proporciona alvio e alegria. - Elinore franziu o cenho. - Mas esse contato mancha sua reputao, minha querida.
   - No ligo para o que os outros pensam de mim.
   - No agora, mas, quando ele se for... - insinuou Ehinore, delicada. - As lnguas ora contdas pelo poder do bispo podero se voltar contra voc.
   - Palavras no me atingem.
   - Podem lhe custar sua clientela ou seu lugar na associao - advertiu a prtica Elinore. - E h o delegado Hamel, ainda interessado em voc.
   Linnet estremeceu.
   - Eu sei. Por que ele no me deixa em paz? J lhe disse mil vezes que no quero nada com ele.
   - Bobinha, assim demonstra saber pouco dos homens..
   Com efeito, Linnet conhecera apenas um homem, e por pouco tempo.
   - Os homens so caadores que adoram perseguir. Para Harnel, voc  um desafio. Se a pegar, talvez a abandone no dia seguinte e nunca mais pense em voc.
   As palavras de Ehinore reabriram uma velha ferida. Simon tomara a inocncia de Linnet naquela quente noite primaveril e nem sequer a olhara pela manh, ao partir
para o Oriente com os cruzados. Mas ele no agira assim por vileza. A escurido e a bebida deviam ter afetado sua memria. Afinal, ele nunca soubera de sua existncia,
enquanto que ela o vinha notando havia algum tempo. O destino os reunira para aquele breve interldio apaixonado no estbulo s escuras. Envergonhada, sara de mansinho
enquanto ele dormia. Portanto, era culpa sua o fato de ele no saber com quem se deitara naquela noite.
   - Bem, pois no cederei a Hamel - concluiu Linnet.
   Embora Simon estivesse morto, no mancharia a lembrana do ato de amor com ele entregando-se a outro. Alm disso, um outro pecado, maior, pesava-lhe na conscincia.
J trara Simon uma vez ao abrir mo de sua ddiva mais preciosa.
   - Nenhuma mulher  obrigada a suportar algum de quem no gosta - apoiou Elinore. - S estou dizendo que deve estar preparada. Se Deus resolver mesmo levar nosso
bom bispo, Hamel poder persegui-la.
   - Temo que j esteja...
   Linnet falou a Elinore do homem alto que a seguira desde a catedral.
   - Bem, isso explica o jeito como entrou!  melhor passar esta noite aqui. - A hospedeira j oferecera um quarto para Linnet quando ela perdera o pai.
   - No quero deixar Drusa e Aiken sozinhos.
   - Traga-os tambm, ento. Aiken pode dormir aqui na cozinha, e Drusa, num colchonete em seu quarto.
   Linnet torcia as mos.
   - No sei. Deixar a loja e meus produtos sem ningum tomando conta...
   -  to perto daqui! - argumentou Elinore. - Posso mandar um dos meus empregados dormir l, se isso a deixa mais tranqila.
   - Obrigada, Elinore,  uma grande amiga e est tentando me proteger, mas, se acontecer o pior, no quero que se meta em encrenca com Hamel por minha causa.
   Um pigarro alertou-as de que no estavam sozinhas. Tilly olhava-as da porta, a expresso curiosa.
   - O que faz espreitando a? - ralhou Ehinore.
   A criada fungou.
   - No estou espreitando, patroa. Vim buscar mais quatro tigelas de sopa. Para o delegado e seus homens.
   Linnet sobressaltou-se.
   - O delegado est aqui?
   - Est. Disse que aprecia a comida... e o servio - Tilly sorriu maliciosa.
   Sem querer ouvir mais, Linnet levantou-se e encaminhou-se  sada, seguida de perto por Elnore.
   - Fique. Aqui  mais seguro - sussurrou a protetora.
   - No. - Linnet pegou a capa enrolada. -  melhor voltar para a loja. - Saiu ouvindo as recomendaes de Elinore para que tomasse cuidado.
   Os fundos da estalagem abrigavam um estbulo pequeno e, ao lado dele, o sanitrio. Um caminho estreito cortava o mato do quintal, desaparecia em meio a arbustos
densos, mas acabava dando na porta dos fundos do boticrio. Linnet o percorria sem problemas, apesar da falta de iluminao, pois o conhecia bem. Com a capa enrolada
apertada junto ao peito, transps os arbustos e, atnita, sentiu-se chocar contra algo quente e duro como pedra.
   Sem flego, Linnet caiu de costas, batendo a cabea no cho.
   - Voc est bem? - indagou uma voz masculina. Ela se lamuriou, mais de medo que de dor. Tentava se mover, mas os membros no obedeciam, e uma nvoa cinzenta lhe
obscurecia a viso.
   - Calma. - O desconhecido a segurou pelos ombros para que parasse de se agitar. - Fique quieta enquanto me certifico de que no quebrou nada.
   A voz dele lhe era terrivelmente familiar.
   Piscando aflita, Linnet, distinguiu uma figura agachada a seu lado. Seus cabelos e roupas mesclavam-se  penumbra, de modo que o rosto parecia flutuar acima do
seu.
   O rosto de Simon de Blackstone.
   - Deus do cu, eu morri - sussurrou Linnet.
   Ele riu da concluso.
   - No creio, mas sem dvida sentir dores pela manh. Desculpe-me por no t-la visto.
   Linnet sentia vagamente as apalpadelas e apertos gentis com que ele lhe examinava as pernas e braos.
   - Parece que no quebrou nada. - Ele acocorou-se.
   - Consegue mexer os membros?
   - Simon? - murmurou Linnet.
   Ele inclinou o rosto.
   - Sabe quem sou?
   - Mas... voc pereceu na Terra Santa...
   - No, mas cheguei bem perto algumas vezes.
   A alegria tomou conta dela, to intensa que fez brotar novas lgrimas nos olhos que tanto j haviam chorado por ele.
   Simon abaixou-se, revelando olheiras e a barba por fazer.
   - Eu a conheo?
   Linnet riu, nervosa. E calou-se com um soluo. Estivera certa. Ele nem se lembrava dela ou do momento maravilhoso que haviam partilhado.
   - No.
   - Como sou idiota... Voc bateu a cabea e eu a deixo a, deitada no cho frio. Onde voc mora?
   - Logo ali, naquela rua.
   Antes que Linnet pudesse adivinhar o que Simon planejava, ele e tomou nos braos e levantou-se.
   A sensao dos braos dele ao seu redor abriu uma comporta de lembranas pungentes.
   - Por favor, ponha-me no cho.
   - No,  melhor eu carreg-la at termos certeza de que no se machucou com gravidade.
   To galante... Mas a proximidade a enfraquecia de saudade, a ponto de recear dizer uma tolice.
   - No estou machucada.
   - Est zonza e no pode ter certeza.
   - Posso, sim. Sou boticria.
   - Entendo. - Simon sorriu na penumbra, os dentes brancos cintilantes. Linnet no podia ver-lhe o lado direito do rosto, mas sabia que havia uma covinha ali.
   - Eu devia ter adivinhado, pelo seu cheiro gostoso. - Fungou-lhe os cabelos. - Ah, rosas! Pensava muito nelas quando estava longe, na Cruzada. Linnet sempre usara
aquele perfume.
   - Lembram-no de alguma garota que deixou para trs? - indagou, esperanosa.
   - No. - Adotando um olhar distante, Simon meneou a cabea. - No  nada disso. No tenho namorada e nunca tive.
   Linnet sentiu os olhos ardentes.
   - Por favor, ponha-me no cho.
   -  mesmo cabea-dura, minha boticria com perfume de rosas - ralhou ele, brincando. - Acontece que sou mais. Para que lado fica sua casa?
   Com um suspiro, Linnet apontou para a loja. Era maravilhoso ser carregada por Simon, sentir o corao dele bater junto ao seu. Se ele sonhara com rosas, ela sonhara
com aquilo. Fitou-o encantada, incapaz de acreditar que no se tratava de um delrio febril, mas do calor do corpo dele envolvendo-a, como na noite em que se amaram.
   Logo chegaram aos fundos da loja.
   - Tem algum a dentro? - indagou Simon.
   Arrancada dos devaneio, Linnet aquiesceu.
   - Minha criada.
   Simon bateu na porta com a ponta do p.
   - Quem ? - indagou Drusa.
   - Sou eu, Drusa - respondeu Linnet, em voz to fraca e entrecortada que nem parecia a sua.
   No obstante, a criada tirou o ferrolho e empurrou a porta pesada.
   - Oh, mileide, eu estava to preocup... - A mulher engoliu em seco e recuou um passo, a mo junto ao peito amplo, o rosto empalidecendo.
   - Nada tema - tranqilizou Simon. - Sua patroa levou um tombo e bateu a cabea. Onde posso acomod-la?
   Atordoada, Drusa continuava olhando-os, imvel.
   Aiken apareceu atrs dela.
   - O que foi? Lady Linnet!
   - Aiken... - Linnet no prosseguiu, incapaz de concatenar as idias.
   - Sua patroa bateu a cabea. Leve-me ao quarto dela, rapaz - ordenou Simon, em tom brando. - Drusa, vamos precisar de gua, compressas e cerveja, se tiver.
   Acostumada a obedecer, a criada apressou-se a recolher pela cozinha os materiais requisitados.
   O aprendiz de Linnet parecia contrariado.
   - No  conveniente o senhor subir...
   - Aiken... - Murmurou ela, sentindo a cabea latejar muito. - Rogo-lhe que desculpe a rudeza dele, senhor. Era o aprendiz de meu pai e, depois que ele morreu,
tornou-se o protetor de nossa casa.
   Simon aprovou.
   - Tanta cautela e preocupao para com sua patroa so louvveis, Aiken - afirmou, mal disfarando o divertimento. - Mas trata-se de circunstncias especiais e
no sou nenhum estranho. Sou Simon de Blackstone, um cavaleiro da Rosa Negra, recm-chegado da...
   - Mas disseram que todos morreram! - exclamou o rapaz.
   Simon sorriu.
   - Apenas seis sobreviveram e voltaram - declarou, os olhos cheios de tristeza.
   Linnet sentiu o corao contrado, pensando nas provaes que ele devia ter suportado. Mas o importante era que estava de volta, so e salvo.
   Aiken grunhiu.
   - Acho que est bem, ento. - Seguiu na frente pela cozinha, at o aposento conjugado, uma espcie de saleta. - Esta escada d no primeiro andar.
   - Pode iluminar o caminho? - pediu Simon.
   O rapaz grunhiu de novo, pegou uma grossa vela de sebo e tomou a escadaria.
   Simon foi logo atrs.
   - Eu consigo andar - protestou Linnet, num sussurro.
   - Mas no ir, at termos certeza de que no se machucou seriamente.
   Simon galgava os degraus com cuidado para que ela no batesse a cabea de novo. Adentraram um amplo cmodo que servia como escritrio, sala de estar e quarto
de dormir. Aps um segundo de hesitao, Simon seguiu para a grande cama de dossel.
   - No, a cadeira - murmurou Linnet. No suportaria que Simon a acomodasse na cama em que tecera tantos sonhos. - Ou Aiken certamente pensar o pior.
   Simon riu, um som rico que acelerou a pulsao dela, e acomodou-a na cadeira de espaldar alto defronte  lareira.
   - Poderia acender o fogo e trazer mais velas, Aiken? - solicitou ao empregado.
   - Vou descer e pegar mais lenha - respondeu o rapaz, mais respeitoso do que cauteloso agora. Aparentemente, confiava em cavaleiros de cruzadas.
   - H mais velas nessa caixa sobre a cornija - informou Linnet, enquanto o aprendiz deixava o cmodo.
   Simon escolheu uma vela e a acendeu.
   - Lamento dar tanto trabalho - comentou Linnet.
   - Se eu estivesse olhando para onde ia... - As palavras morreram-lhe na garganta quando a chama da vela aumentou, iluminando o rosto de Simon.
   Estava mais magro do que se lembrava, e a barba por fazer escondia a covinha do queixo. Os olhos tambm haviam mudado, com fantasmas de emoes turbulentas sombreando
as ris cinza-esverdeadas outrora vibrantes de humor. A boca que a beijara com devastadora eficcia anos antes agora contraa-se sbria.
   - De quem estava fugindo? - indagou ele.
   Linnet quase revelou, mas lembrou-se da antiga inimizade entre Simon e Hamel. Naquela noite, Simon surgira da escurido para salv-la e tudo terminara em desastre.
No se envolveria com ele novamente.
   - Eu no estava fugindo, s...
   - Corria como que perseguida por algum demnio maligno.
   - Nada disso. - Linnet ergueu o queixo, mas no conseguiu sustentar o olhar de Simon.
   Aiken voltou com duas toras de lenha nos braos. Parou e olhou-os.
   - Qual o problema?
   - Nenhum - afirmou Linnet, olhando para Simon com o cenho franzido.
   O aprendiz foi at a lareira, juntou a lenha aos carves adormecidos e soprou-os, reavivando as chamas. Alheio  tenso no ambiente, levantou-se.
   - Como est ela, sir Simon?
   - Teimosa.
   - Mas no quebrou nada?
   - No o esprito, ao menos.
   - Estou bem - resmungou Linnet.
   - Drusa acha que est com fraqueza.
   Simon franziu o cenho.
   - No jantou?
   - Eu voltava para casa para jantar quando... nos encontramos.
   - Hum... - Aken remexeu-se, irrequieto. - No sobrou muita coisa, mas posso correr at a hospedaria e trazer um prato. - Olhou para Simon. - Royal Oak fica logo
a atrs. Fazem a comida mais gostosa de Durleigh.
   Simon concordou, fitando o rosto de Linnet.
   - Eu me lembro. Ia justamente encontrar uns amigos l.
   - Nesse caso, no o deteremos mais - finalizou Linnet. Por mais que ansiasse estar junto de Simon, sabia que no era aconselhvel. Ele estava vivo, e esse fato
provocava tantas mudanas... Em seu ntimo, o sentimento de culpa misturava-se  alegria.
   - Tambm ainda no jantei. - Simon coou o queixo, sem desviar o olhar de Linnet. - Se no for incmodo trazer refeio para dois, pagarei por ela.
   - Que bobagem - protestou Linnet. - Posso pagar... Devo-lhe, pelo tombo que levou.
   No, eu lhe devo. S que no havia como voltar atrs. No havia como mudar o que fora obrigada a fazer.
   - Est bem - concordou, por fim.
   Rogo a Deus que no esteja cometendo outro erro.

   - Irmo Oliver, se meu senhor bispo no est bem o bastante para se juntar a ns,  claro que compreendemos - disse o arquidicono Crispin, a voz sedosa.
   Ele e o proco estavam sentados  comprida mesa no salo de jantar,  direita e esquerda da cadeira do bispo.
   Uma cadeira que tanto um quanto outro venderia a alma para ocupar, ponderou Crispin, crente que seria escolhido quando chegasse a hora de se nomear o sucessor
de Thurstan. Afinal, Walter de Folke era de origem inferior, meio saxo. Alm disso, j se provara quase to corrupto e manipulador quanto o bispo Thurstan. O que
o povo de Durleigh precisava era de uma mo severa para gui-lo, um lder religioso que se preocupasse mais com suas almas do que com seus negcios e prosperidade.
   - O bispo pede desculpas pelo atraso, mas  que teve de dar ateno imediata a uma questo inesperada.
   -  mesmo?
   Fungando, Crispin lanou a irmo Oliver um olhar to arrasador que a criatura desprezvel estremeceu sob o hbito. O secretrio e o mestre a quem ele servia com
tanto zelo eram farinha do mesmo saco. Quando se tornasse bispo, Crispin pretendia nomear irmo Gerard seu assistente. Ele e Gerard estavam juntos desde a ordenao
e concordavam quanto  importncia da piedade, da castidade e da pobreza, trs princpios totalmente ignorados na catedral de Durleigh.
   Mas no por muito mais tempo, alegrou-se Crispin. O bispo enfraquecia a cada dia. Talvez no durasse um ms. E ento...
   - Meus senhores! - Lady Odeline invadiu o salo, o rosto, branco como papel, os olhos arregalados de horror.
   Crispin correu o olhar pela figura voluptuosa num vestido escandalosamente curto e apertado. Sua presena na residncia do bispo era uma ofensa a tudo o que se
considerava decente. Desde sua chegada, os confessionrios lotavam-se de clrigos e seminaristas corrompidos pelo pecado da lascvia.
   - O que foi?
   - Meu irmo! Ele... - Odeline pousou a mo no peito arfante.
   Crispin levantou-se num pulo.
   - O bispo est doente?
   Odeline tinha o queixo perfeito trmulo.
   - Ele... caiu!
   Ah, maravilha! Crispin tentou disfarar o entusiasmo que lhe aquecia as veias.
   - Ele... morreu?
   - No. Est respirando. Mas est to...
   Irmo Olver soltou uma exclamao desalentada e precipitou-se pelo salo.
   - Chamem irmo Anselme! - gritou.
   - Naturalmente.
   Crispin voltou-se para mandar Gerard cumprir a tarefa... bem devagar, claro. Mas o lugar a sua esquerda estava vazio, e s ento recordou que mandara Gerard ficar
atento, para o caso de Linnet resolver desafiar suas ordens e tentar ver o bispo.
   - V buscar o enfermeiro - ordenou o proco Walter ao jovem clrigo que o atendia.
   - Obrigado, irmo. - Fitando o proco nos olhos frios e calculistas, Crispin sentiu um frio na espinha. Ele no pode saber de nada, afirmou a si mesmo, mas nem
assim se tranqilizou. - Vamos, temos que ajudar nosso bispo acidentado.
   Deixou o recinto consciente dos passos estudados do proco em seus calcanhares. Que azar o arguto Walter estar ali naquele momento crtico!
   - Cuidado para no tropear na barra da batina - aconselhou Walter, enquanto galgavam a escadaria ngreme.
   - Sempre tomo cuidado - replicou Crispin, a mente gil j antecipando as providncias a tomar. O funeral, as cartas para o arcebispo de York...
   O grito de irmo Oliver interrompeu-lhe os pensamentos.
   - Rpido, irmo! - Walter passou a empurr-lo pelas costas na escada.
   Chegaram juntos ao corredor e venceram num instante os ltimos passos at a sala de estar do bispo.
   L, sobre o horroroso tapete vermelho, estendia-se o corpo do bispo Thurstan, os membros afastados, a boca contorcida em aflio, a cabea numa poa de sangue
rubro.
   Crispin sentiu a bile na garganta.
   - Est morto?
   Walter ajoelhou-se ao lado do bispo, apertou os dedos em seu pescoo e olhou para Crispin.
   - Sim, est. - Voltando-se, comeou a murmurar as preces que facilitariam o ingresso da alma de Thurstan na vida futura.
   Crispin tambm fez sua prece. Eu no estava aqui e no posso ser acusado de nada. Palavras que mal aliviaram o peso em sua conscincia.


   CAPTULO 3

   Drusa subiu a escada com gua e toalhas.
   - Deixe-nos ver onde se machucou, mileide.
   - No foi nada, s uma batida na cabea e um arranho no cotovelo - assegurou Linnet. - Posso fazer os curat...
   A criada nem ouvia.
   - Sempre querendo fazer tudo sozinha. - Sorrindo de esguelha para Simon, lanou-se ao trabalho.
   Simon encostou o ombro na parede e observou a mulher cuidar de Linnet com uma ternura ranzinza que denunciava anos de dedicao. O velho desejo agitou-lhe as
entranhas. Qual seria a sensao de ser amado assim? Descartando a idia, concentrou-se no presente, no no passado turbulento.
   Disfaradamente, analisou a mulher com quem se chocara. Ao se inclinar sobre ela no caminho escuro, algo nela lhe parecera familiar. Agora que a via  luz, porm,
a sensao de reconhecimento enfraquecia-se. Talvez fosse seu perfume de rosas que lhe despertava uma lembrana. Com certeza, era bonita o bastante para que desejasse
conhec-la.
   O perfil delicado de Linnet era to perfeito que poderia ter sido entalhado em mrmore, prejudicado apenas pelas manchas de terra que Drusa ora lavava com todo
o cuidado. A criada tambm lhe soltara as tranas, esparramando os cabelos sobre os ombros esguios e costas abaixo, verdadeiro rio cor de mel, cintilando como ouro
 luz do fogo.
   Devia ter uns vinte anos, o que significava que contava dezesseis quando ele partira na Cruzada. Crescida o bastante para ter-lhe chamado a ateno quando estivera
na cidade a servio de lorde Edmund, graciosa o bastante para merecer um segundo olhar. Seus olhos castanhos, meigos e expressivos, reluziam com duas qualidades
que ele valorizava em homens e mulheres: inteligncia e esprito aguado. E, quando sorria, todo o seu rosto parecia se iluminar, com uma luz interior.
   Linnet, a boticria, era uma mulher que ele gostaria de conhecer melhor.
   Contudo, no era esse o nico motivo pelo qual Simon demorava-se no pequeno e aconchegante solar. A vulnerabilidade e o medo que ela no conseguia disfarar preocupavam-no.
Ela fugia de algo quando colidiram. Ou, mais provavelmente, de algum. A aura de perigo atiava o instinto protetor do qual seus amigos viviam caoando.
   Voc j tem problemas demais.
   Simon colocou-os de lado, para considerao posterior. Parte dele, a faceta branda que poucos conheciam, esperava que Thurstan o procurasse. Mas a concha dura
em que se encerrara como rfo dizia-lhe para no se importar. Tinha seis anos quando chegou  casa de lorde Edmund como pajem. No fora rejeitado, mas tambm no
fora amado. No contara com a proteo de um pai ao ser provocado e perseguido pelos outros pajens, nem com uma me carinhosa para enxugar-lhe as lgrimas aps um
tombo nos treinamentos. Seus nicos amigos verdadeiros eram os cinco cavaleiros da Rosa Negra.
   - Pronto. - Drusa amontoou as compressas na bacia. - Passei creme de betnica nos arranhes, e parece que a batida na cabea no foi grave.
   - Obrigada - resmungou Linnet, aborrecida com os cuidados exagerados.
   - Estou aliviado por saber que no se feriu gravemente, senhora Linnet. Temi que mandasse o delegado atrs de mim.
   Linnet estremeceu.
   -  a ltima coisa que eu faria.
   Interessante. O delegado John Turnebull era um homem confivel, lembrava-se Simon. Recearia a moa que o delegado lhe fizesse perguntas s quais no queria responder?
   - Se puder fazer-lhe companhia por alguns minutos, senhor, vou levar estas coisas e trazer uma cerveja - declarou Drusa.
   - No precisa tomar conta de mim - murmurou Linnet, contrariada.
   - No ser sacrifcio algum, eu lhe garanto - afirmou Simon. - E uma cerveja cairia muito bem. Talvez j esteja recuperada, mas eu continuo abalado - queixou-se,
dramtico. - Alis, acho melhor me sentar.
   Puxando uma banqueta, sentou-se diante de Linnet com as pernas estendidas para o fogo.
   - Pois bem, vou num p e volto no outro - disse Drusa, retirando-se apressada.
   Linnet volveu os olhos ao teto.
   - O senhor, um destemido cavaleiro recm-chegado da Cruzada, abalado?
   - Ver uma mulher em sofrimento realmente me afeta demais. E a idia de que podia ter-lhe causado ferimentos graves... - Ps a mo sobre o corao e suspirou exagerado,
imitando Nicholas. - Infalvel para fazer uma mulher se derreter.
   Linnet riu, um som melodioso, cativante. A alegria transformava suas feies e, de graciosa, ela passava a irresistvel. A luz do fogo refletia-se nos salpicos
dou rados de seus olhos e cabelos. Era como se o sol de repente sasse de trs de uma nuvem, derramando seu brilho sobre o mundo, banindo a escurido e o frio.
   Simon teve o mpeto inesperado de coloc-la no colo e beij-la at tirar-lhe o flego, envolvendo ambos naquela cabeleira gloriosa, vendo se ela correspondia
a seu sonho. J sentia o corpo reagindo, o pulso acelerado, os msculos se retesando em preldio a uma perseguio to antiga quanto o tempo. S que nunca desejara
nenhuma mulher to prontamente ou com tanta certeza quanto desejava aquela.
   E ela sentia isso. Podia ver a cautela em seus olhos arregalados, a respirao entrecortada que parecia encher o cmodo de possibilidades. O que faria ela? Gritaria?
Desmaiaria? Ou se atiraria em seus braos, realizando a fantasia no revelada?
   - Aiken chegou com o jantar - anunciou Drusa, da escada. - J estou levando.
   Linnet sobressaltou-se, quebrando a magia do momento. Tinha o rosto corado e o olhar to confuso que Simon percebeu que a situao era nova para ela. Talvez at
fosse virgem.
   A idia o perturbou ainda mais, o desejo duelando com a necessidade de proteg-la. Sabia que no podia permanecer com Linnet naquele quarto, certo de que no
sucumbiria ao desejo que fervilhava entre ambos.
   - Vamos descer, Drusa! - Sorrindo resignado, Simon levantou-se.
   H hora para tudo, dizem. Nossa hora chegar.
   Ele estendeu a mo para Linnet.
   - Vamos, Linnet, precisamos nos alimentar.
   Ela pousou a mo sobre a dele, aquecendo-lhe a carne. Como era possvel uma mulher que acabara de conhecer excit-lo tanto?
   Drusa e Aiken aguardavam-nos na cozinha. Uma sopeira fumegante dominava o centro da mesa, entre po, manteiga e cerveja.
   - Drusa disse que Elinore ficaria preocupada se soubesse que caiu, por isso no contei - comentou o aprendiz.
   - Nem para Tilly? - indagou Linnet.
   Aiken ficou sem graa.
   - Ela estava servindo o delegado e nem me viu.
   Linnet soltou o brao de Simon e sentou-se no banco, no antes que ele sentisse seu tremor.
   O que ela teria feito?, cogitou ele.
   Drusa encheu trs tigelas de sopa e serviu cerveja a todos antes de se acomodar ao lado de Aiken, de frente para Simon e Linnet.
   - Como  que sobreviveu, sir Simon?
   - Foi a vontade de Deus, acho - replicou ele. A vontade de Deus, um pouco de sorte e muita luta.
   - Por que disseram que tinha morrido? - indagou Linnet.
   - Tome a sopa e contarei. - Entre colheradas do caldo saboroso, Simon relatou os eventos que levaram  captura de Hugh e depois para Acre, de cuja priso o libertaram.
   - Um milagre... - Linnet tinha os olhos reluzentes de lgrimas.
   Ela se compadecia de um estranho, espantou-se Simon, ainda mais atrado. Seus olhares se encontraram e a tenso voltou a dominar o ambiente.
   - Matou muitos infiis? - quis saber Aiken, com a mesma ansiedade de muitos que haviam navegado com Simon para o Oriente.
   Com esforo, Simon deixou de fitar Linnet. Infelizmente, a Cruzada no fora apenas um fracasso total, mas um verdadeiro inferno em vida. Condies deplorveis,
clima terrvel, doenas, falta de suprimentos, solido. Tais provaes custaram mais aos cruzados do que as espadas e flechas dos infiis.
   - Matamos nossa cota - declarou.
   O aprendiz mostrou-se entusiasmado.
   - Gostaria de ter sido treinado para soldado em vez de boticrio - resmungou. - Assim, Tilly no me olharia com aquele nariz empinado...
   - H outras garotas em Durleigh - lembrou Linnet, gentil. - Moas que sabem que um bom boticrio pode ganhar vinte vezes mais do que um soldado.
   -  Sei. - Aiken empurrou para trs o banco que dividia com Drusa, quase derrubando-a.
   Simon segurou a velha criada pelo brao e olhou, severo para o rapaz.
   - Uma das primeiras lies de um cavaleiro  ser corts com os outros, principalmente com as damas.
   Aiken empalideceu.
   - No quis ser rude.
   - Claro que no - desdenhou Drusa.
   - Sente-se, ento, rapaz, e lhe falarei das maravilhas que vi na Terra Santa.
   - Tilly com certeza ficaria impressionada - comentou Linnet.
   Aiken sentou-se e passou a ouvir com ateno, mas era para Linnet que Simon descrevia os navios e as cidades com edificaes de cpula dourada, os desertos interminveis
e as palmeiras altssimas, os povos estranhos e os animais exticos. O tempo foi passando, at que Simon notou a palidez e as olheiras no rosto de Linnet.
   - Est cansada.
   - Estou fascinada.
   - No obstante, estou de sada. - Simon levantou-se devagar, relutante em deixar a cozinha aconchegante e a mulher que o intrigava mais a cada instante. Ela tambm
se levantou.
   - Tem onde ficar?
   - A hospedaria.
   Ele sorriu, encantado com a fragilidade de Linnet. O topo de sua cabea batia no meio de seu peito. Estava to prxima, menos de trinta centmetros os separavam.
Seu corpo latejava com o desejo de dar o passo que os uniria. Acalentou a dor, pois fazia muito tempo que no sentia uma paixo assim, a no ser em seu sonho especial.
   - Sir Nicholas e sir Guy, dois cruzados amigos meus, estiveram l mais cedo e reservaram um quarto. J devem estar se perguntando o que aconteceu comigo. - Nem
assim conseguia deixar de olh-la.
   - Vamos, Aiken - chamou Drusa. - Est na hora de nos recolhermos, tambm. V verificar se a loja est bem trancada.
   Linnet mordiscou o lbio, os olhos eloqentes.
   - Leve uma tocha para iluminar o caminho, sir Simon. - Aps acender nos carves uma estaca de madeira com piche na ponta, estendeu-a. Saram e apontou-lhe o caminho.
- Seguindo por ali, atravs dos arbustos, chegar aos fundos da hospedaria.
   Ambos ofegavam.
   Simon sabia que no devia toc-la, mas no se conteve e ergueu-lhe o queixo.
   - Linnet, gostaria de v-la novamente.
   Ela sorriu.
   - Oh, nada me agradaria mais.
   - Amanh, ento.
   Ele inclinou o rosto, s para roar os lbios nos dela, mas ao primeiro contato, perdeu-se. A boca era to macia que parecia derreter-se sob a dele. Com um grunhido,
passou a mo em seus cabelos, segurando-a pela nuca enquanto aprofundava o beijo.
   Ela correspondeu docemente, agarrando a frente de sua tnica, acompanhando-o de bom grado. Seus gemidos roucos lhe incendiavam o sangue e teve que introduzir
a lngua para explor-la mais profundamente. Mas ela se assustou e recuou.
   - Calma. - Simon ergueu o rosto, mas continuou segurando-a pela nuca, afagando-lhe as costas com o polegar. - Eu jamais a machucaria ou foraria.
   Ela riu nervosa e encostou a testa em seu peito.
   - Temo que no seria preciso fora.
   Simon grunhiu e fechou os olhos, implorando fora.
   - No devia dizer essas coisas...
   - Por que no?
   Ele viu o prprio rosto refletido nos olhos dela, carregados de paixo.
   - Porque no confio em mim para preservar sua inocncia.
   Os olhos dela parecem obscurecer-se de dor. Ou seria um truque da meia-luz?
   - Talvez eu no seja to inocente quanto imagina.
   Simon sorriu indulgente, envaidecido por ela quer-lo a ponto de mentir sobre sua experincia.
   - Voltarei amanh.
   Ele a levou at a porta e a fez entrar. S se afastou ao ouvir o barulho da tranca, voltando  hospedaria mais apressado do que ao deixar o bispo.

   Linnet recostou-se no batente da porta, com as pernas bambas e o corpo trmulo devido  intensidade de sua reao a Simon.
   - O Senhor opera mesmo milagres - comentou Drusa, terminando de arrumar a cozinha.
   Linnet endireitou-se e tentou controlar as emoes avassaladoras.
   - Sim,  um milagre que os seis cruzados de Durleigh tenham voltado.
   - Darei graas quando for  catedral para a missa, e ele esteja entre os sobrevivente  mesmo um milagre.
   - O que quer dizer? - Linnet nunca falara de Simon com ningum, a no ser sua me e Thurstan.
   - Sua me dizia que voc era apaixonada por ele.
   Se voc soubesse...
   - S que ele nunca percebeu meu interesse - rebateu, empertigada.
   Por que teria percebido? Nunca tinham estado frente a frente, nem se falado, at a noite em que ele a salvara das atenes indesejveis de Hamel.
   Drusa inclinou a cabea de lado.
   - Vi o jeito como ele a olha. Meu Reggie me olhava assim quando estvamos namorando, como se mal pudesse esperar para me pegar num canto escuro e roubar um beijo.
   - No sei do que est falando - retrucou Linnet, embora a lembrana do beijo recente lhe queimasse as faces, os lbios ainda formigando.
   Drusa riu.
   - No tente me enganar, querida. Trabalho nesta casa desde que voc nasceu e a conheo at do avesso.
   O sorriso de Linnet apagou-se. Havia uni fato que Drusa desconhecia. E tambm Simon. Sentiu uma espcie de alvio. Se ele no se lembrava de nada, talvez nunca
tivesse que lhe confessar que o que haviam feito tivera conseqncias.
   Conseqncias. Um termo frio e inadequado para descrever algo ao mesmo tempo terrvel e maravilhoso que a marcara para sempre. Se ao menos tivesse sido mais forte...
   No pense mais nisso, pois acabar louca.
   - Foi um encontro casual. Talvez ele no volte.
   - Ah, volta, sim. - Drusa sorriu. - Agora, j para a cama. No quer estar com olheiras quando ele a procurar, quer?
   Linnet apenas meneou a cabea, mas subiu a escada e aprontou-se para dormir com o corao mais leve do que o sentira em anos.
   Simon estava vivo. Simon estava de volta.
   De repente, o futuro j no lhe parecia to desolador e solitrio. Vestia a camisola quando se lembrou de Thurstan. Como pudera ser to egosta a ponto de no
ter pensando nele antes? No caberia em si de alegria quando soubesse que Simon estava vivo. De manh cedinho, iria  catedral contar-lhe.
   Tomada a deciso, Linnet ajoelhou-se ao lado da cama, fez o sinal da cruz e rezou ao Deus em que quase deixara de acreditar quando ouvira a notcia da morte de
Simon. Aps implorar perdo pela falta, agradeceu fervorosamente ao Senhor por ter poupado Simon e acrescentou um apelo para que o retorno do filho reanimasse o
esprito de Thurstan.
   Por ltimo, orou pelo bem-estar do beb que ela e Simon haviam gerado naquela noite, tanto tempo atrs.
   O beb do qual abrira mo.
   Linnet estremeceu, trespassada pela dor. A saudade imensa arrancava-lhe gemidos. Se ao menos pudesse abraar a filhinha s por um segundo! Mas nem sequer sabia
onde ela estava. Thurstan lhe garantira que o beb no s fora acolhido com amor no lar que lhe encontrara, como no carregaria a mancha da ilegitimidade. S esta
ltima bno j teria bastado para dar-lhe coragem de entreg-la para adoo. No entanto, saber que a filha estava melhor longe no aplacava a dor em seu corao.
   Nem a culpa.

   Walter de Folke permaneceu de p quando irmo Anselme ajoelhou-se ao lado do corpo do bispo Thurstan. Em volta, os frades de Durleigh rezavam pela alma do falecido
bispo. O latim fervoroso misturava-se aos soluos de irmo Oliver e ao choro brando de lady
   Odeline. Encolhida numa cadeira junto ao fogo, ela era assistida pelo filho. Formavam uma dupla chocante, a bela mulher de olhos vermelhos e o rapaz bonito porm
rabugento. Lady Odeline j chorara copiosamente, ora lamentando o passamento do irmo, ora temendo o prprio destino incerto agora que ele se fora. Jevan no externava
emoo, frio como uma esttua.
   - E pensar que enquanto espervamos embaixo, nosso amado irmo levava um tombo e morria - murmurou Crispin.
   Amado irmo? Walter mordeu a lngua, ciente de que o arquidicono sempre desprezara Thurstan. De sua parte, admirara a inteligncia aguda de Lyndhurst, chegando
a invejar sua genial capacidade de acumular riqueza e poder. Agora, haveria luta entre ele e Crispin pela sucesso  rica diocese construda por Thurstan. Acreditava
ter ligeira vantagem, pois era conhecido do arcebispo e servira a Sua Graa com mais eficincia.
   -  mesmo - replicou, por fim. - Sua Graa ficar muito triste quando souber que seu grande amigo sucumbiu  tal doena.
   - No foi a febre que o levou - rosnou o corpulento irmo Anselme, ainda ajoelhado junto ao fretro, os olhos mergulhados em tristeza.
   Walter concordou.
   - A doena o fez cair e bater a cabea na mesa.
   - O corte na cabea parecia fundo demais para ter sido provocado por uma queda.
   - O que est dizendo? - questionou Crispin, to severo que fez cessar tanto as rezas quanto o choro.
   - Que pode no ter sido acidente - opinou irmo Anselme.
   Walter fitou o monge nos olhos castanhos transtornados, tentando adivinhar suas suspeitas.
   - Ele foi golpeado? - O arquidicono deu meia-volta. - Irmo Oliver, disse que um cavaleiro procurou seu senhor? Um sujeito enlouquecido que...
   - Parece que era um cruzado - esclareceu Walter, calmo.
   Crispin fungou.
   - Estava muito nervoso. Talvez culpasse nosso bom bispo por envi-lo na Cruzada. Sabe que o bispo Thurstan coagiu alguns homens a ir.
   Walter inclinou a cabea, fascinado com, o jogo de emoes no rosto normalmente austero de Crispin. Desde o instante em que lady Odeline adentrara o salo gritando
que o irmo estava cado, o arquidicono mostrava-se corado, os olhos redondos irradiando um brilho incomum.
   - Irmo Oliver, o que me diz?
   Oliver ergueu o rosto, os olhos inchados meras fendas no rosto molhado.
   - De fato, vi o cavaleiro saindo do cmodo quando chegava para tratar de meu senhor.
   - Quem acha que era? - inquiriu Crispin.
   - Acho... que era Simon... Simon de Blackstone. - Oliver tentava controlar a gagueira. - Mas ainda falei com o bispo, estava vivo e bem quando o cavaleiro deixou
o palcio. - Seus olhos encheram-se de lgrimas outra vez. - Estava sentado bem... nesta cadeira... conversando com a senhora Linnet...
   Crispin enfureceu-se.
   - Aquela mulher esteve aqui?
   Encolhendo-se de medo, irmo Oliver olhou de soslaio para Walter antes de confirmar:
   - Esteve. Veio ver como estava...
   - A tem a assassina, irmo Walter - concluiu Crispin.
   - Por que ela faria mal ao nosso bispo?
   -  uma mulher m, tentava seduzir nosso bispo, para que quebrasse seus votos sagrados - argumentou Crispin, rancoroso. - Sem dvida, matou-o por frustrao,
sem
conseguir levar a cabo seus planos.
   Walter disfarou o desprezo. A teoria de Crispin no tinha o menor fundamento. Mostrava-se vido por encontrar o assassino de Thurstan s para cair nas graas
do arcebispo e assim ganhar Durleigh. Preparou-se para a batalha.
   - Eu a interrogarei, bem como a sir Simon - decidiu.
   - Voc?! protestou Crispin. - Com que direito interrogaria algum?
   - Dotado do poder a mim delegado pelo arcebispo. - Walter sorriu plcido ante a expresso furiosa de Crispin. - Sua Graa enviou-me aqui para ver como estava
seu
caro amigo e esperar um relato completo acerca deste triste evento quando eu voltar a York.
   Peguei-o, velho santarro!
   Irmo Anselme colocou-se entre os dois.
   - Creio que devemos nos aprofundar no caso, reverendo padre - disse a Crispin. - No mnimo, saber como foi que ele morreu.
   Crispin sentiu a cor fugir-lhe ao rosto.
   - Claro. Leve o corpo para a enfermaria e veja o que descobre.
   O monge aquiesceu.
   - Sugiro tambm que a sala seja trancada e que se ponha um guarda  porta, de modo que no seja interrompido o exame at a apurao dos fatos - completou Walter,
ganhando um olhar fulminante de Crispin.
   - Irmo Gerard far uma lista de todos que entraram no palcio esta noite - determinou o arquidicono. - Pela manh, falarei pessoalmente com cada um. - Com isso,
partiu rodopiando o grosseiro hbito cinza.
   Lady Odeline retirou-se em seguida, apoiando-se pesadamente no brao do filho, o rosto enterrado num leno de linho. Jevan mantinha-se to inexpressivo quanto
uma esttua, mas voltou-se da porta e esquadrinhou a sala com olhos vidos antes dessa com a me.
   Curioso, pensou Walter, afastando-se para que pudessem remover o corpo de Thurstan. Teria o rato esperana de herdar parte da fabulosa riqueza do tio? Nesse caso...
   Walter suspirou. Cus, parecia to maldoso quanto Crispin, apontando o dedo acusador para todos que via. Jevan jantava no salo com os outros quando recebeu a
notcia do passamento do tio. E lady Odelir no tinha motivos para desejar a morte do irmo. Sem o apoio de Thurstan, ela e a cria mal-humorada  viveriam ao relento.
   Mas o fato era que algum dentro daquelas paredes podia ter assassinado o bispo.


   CAPTULO 4

   Uma mulher gritou.
   Simon parou e se voltou. Meio cambaleante, segurando um odre de vinho, olhou para as lojas e casas ao longo da rua.
   Estavam todas vazias e s escuras, com os ocupantes na festa oferecida pelo bispo Thurstan para comemorar a partida dos cruzados de Durleigh. Os telhados iluminavam-se
com as luzes da praa do mercado, onde se davam as festividades. Como afastara-se tanto? No obstante, ainda distinguia o zumbido de vozes em cnticos e preces,
a gente de Durleigh despedindo-se de seus cavaleiros da Cruzada.
   O orgulho estufava-lhe o peito, mesmo embriagado. No dia seguinte, estaria partindo com eles... um cavaleiro a caminho da Terra Santa. Aos tropees, seguiu de
volta  festa.
   A mulher gritou de novo.
   - No! Por favor, no!
   - Volte j aqui! - rugiu uma voz masculina.
   Simon deu meia-volta e captou um vulto branco atravessando o beco, seguido de perto por uma forma escura e corpulenta. Maldito! Jogando fora o odre, sacou a espada
e foi atrs deles. Perseguiu-os por todo o beco e pela rua seguinte, movido pelos votos que fizera pouco antes.
   Defender a justia e proteger os oprimidos. O juramento ardia em seu corao, como uma febre expurgando os efeitos de um dia de bebedeira. Sentia-se forte  e
poderoso.
   Por fim, encontrou-os. O canalha prensava a jovem de branco contra uma parede.
   - Solte-a! - rugiu Simon.
   O homem virou-se, o rosto uma sombra plida na penumbra, e ergueu a espada para desviar o golpe de Simon. Ao atritou-se com ao ao encontro das lminas.
   Simon grunhiu de dor. Bebera demais. Defendia-se das investidas do oponente, mas seus movimentos lentos. Lento demais. Imaginava se a moa fugira, sem condies
de procur-la com o olhar. Ento, ocorreu um fato que .lhe enregelou as costas suadas.
   - Aqui! Bardolf e Richie, aqui! -gritou o assaltante. Com um grunhido, Simon redobrou os esforos, consciente de que jamais sobreviveria a um confronto com espadachins.
De repente, uma figura esguia desse da escurido e golpeou o homem na cabea. Enquanto ele se esparramava no cho, Simon sentiu-se do pelo brao.
   - Rpido, venha por aqui! - era uma mulher. Com a mo pequena, puxava-o para uma rua lateral. Estava to escuro que ele no nada alm do borro indistinto de
seu
vestido branco alguns passos depois, deparou-se com uma parede.
   -  um beco sem sada - sussurrou Simon.
   - No. Tem uma porta aqui.
   Ouviu-se um ranger de dobradias e fez-se uma cor4e ar com cheiro forte de palha e cavalos.
   - Um estbulo?
   - Sim. Podemos nos esconder aqui.
   - Cavaleiros no se escondem...
   - Por favor... No pode enfrent-los em to grande nmero.
   - Mas...
   - Estou com medo.
   Simon percebia o terror na voz dela e sentia seus tremores, embora no pudesse ver-lhe o nisto.
   - Est bem.
   O interior do estbulo era puro breu.
   -  mais seguro no sto - sussurrou a moa. - Tinha uma escada por aqui... Ah, achei. Deixe-me subir primeiro.
   Simon seguiu-a degraus acima, guiando-se pela barra suas saias. No topo da escada, adentrou o sto meio desequilibrado e acabou caindo em cima da moa sobre
a palha.
   - Obrigada - sussurrou ela, aliviada. - Se no tivesse aparecido... - Estremeceu.
   Simon puxou-a para mais perto. Era pequena e magra.
   - Devia ter fugido enquanto lutvamos.
   - No podia abandon-lo, no quando o outro vencia...
   - Ora, eu o teria derrotado com dois golpes, se no tivesse bebido metade da cerveja de Durleigh.
   - Eu sei. E to forte... - Ela apertou as mos contra o peito msculo. - Abrace-me - pediu.
   - Estou abraando.
   - Com mais fora. - Ela se colou a ele, os seios provocando-o atravs das camadas de roupas.
   - No deixarei que nada lhe acontea - murmurou Simon. Os cabelos dela eram perfumados, uma delicada e feminina fragrncia de rosas. Enterrando o rosto neles,
rolou pelo assoalho, prendendo-a com seu corpo. - Combinamos  perfeio.
   - Sempre soube que seria assim.
   Simon aquiesceu, a mente entorpecida pelo lcool e pelo desejo.
   - Preciso toc-la...
   Eram seios pequenos, firmes. O suspiro que ela deixou escapar durante a carcia tirou-o do controle. S pensava numa coisa: possu-la. Abrindo a braguilha, posicionou-se
sobre ela.
   - Simon... - sussurrou ela, puxando-o a seu encontro. Ele grunhiu e mergulhou no xtase mais perfeito que j experimentara. Quente, apertado e receptivo, o corpo
dela fechava-se em torno do dele...
   Batidas sonoras numa porta destroaram o sonho. Com um grunhido, Simon sentou-se na cama ofegante, o corpo rgido.
   - Abram! - A voz rude vinha de fora, de baixo de sua janela.
   Simon levou um segundo para perceber que no estava o palheiro com a amante perfeita, mas sozinho num quarto da hospedaria Royal Oak. Gemendo, caiu de novo sobre
o travesseiro e cobriu os olhos com o brao.
   O sonho voltou. Tivera-o pela primeira vez na noite que antecedera sua partida para a Terra Santa, despertando quente, suado e apenas meio vestido num sto de
estbulo. O sonho repetira-se tantas vezes desde ento que j o tinha todo gravado no corao. No entanto, jamais conseguira ver o rosto da mulher, nem concluir
se o encontro fora real ou mera fico de seu crebro encharcado de cerveja.
   Estranho que ele, sempre cauteloso com relao s mulheres, sonhasse ter feito amor com ela logo aps se conhecerem. Mais estranho ainda era ter passado todos
aqueles anos procurando uma mulher de carne e osso que combinasse to perfeitamente com ele quanto a amante do sonho.
   L embaixo, o homem irado dava murros na porta da estalagem.
   - Abram!
   Dobradias rangeram.
   - Que diabo se passa aqui? - ralhou Warin Selwyne, o dono do estabelecimento.
   - Procuro um cavaleiro. Simon de Blackstone, parece que se chama.
   - Quem acredita? E o que quer dele, Bardolf?
   - No  da sua conta. Minhas ordens so para encontr-lo e lev-lo para interrogatrio.
   Simon j pulava da cama, suspeitando que algo acontecera com Nicholas ou Guy. Ao chegar  estalagem, recebera um recado de Guy informando que estava a caminho
de Londres com lorde Edmund. No encontrara Nicholas, tampouco, mas uma das criadas lembrou-se de t-lo visto saindo com uma moa bonita.
   - Mas do que se trata? - questionava Warin.
   - Coisa do delegado. Vai dizer se ele est, ou terei que entrar e procurar eu mesmo?
   Simon abriu a janela e olhou para Warin em confronto com um homem de cabelos castanhos mal-ajambrado. Mais dois sujeitos corpulentos aguardavam pouco atrs.
   - Sou Simon de Blackstone - anunciou-se.
   Bardolf levantou a cabea, mostrando o rosto rude.
   - Tem que me acompanhar.
   - Por qu?
   - Interrogatrio acerca da morte do bispo Thurstan. E nem pense em fugir. Tenho homens vigiando a entrada.
   - Morte?! - exclamou Simon. - Ele est morto?

    escrivaninha do bispo Thurstan, o magro e austero arquidicono Crispin olhava de cima do nariz adunco para Simon, de p  sua frente. De cada lado do arquidicono
estavam irmo Oliver Deeks e o proco Walter de Folke, de York.
   "O arquidicono  j julgou-me culpado", concluiu Simon. O pavor sobrepondo-se ao choque de pouco antes.
   - Irmo Oliver disse que invadiu os aposentos do bispo esta noite - relatou Crispin. - Que tinha a tratar com, ele?
   Vigiado da porta pelo sub-delegado Bardolf, Simon esco1heu as palavras com cuidado.
   - S queria avis-lo de que seis de seus cruzados estavam de volta.
   Bardolf insinuara que havia algo suspeito na morte de Thurstan, mas negara maiores esclarecimentos.
   -  verdade que ele morreu? - indagou, incrdulo. O arquidicono desprezou a pergunta com um volver dos dedos cobertos de anis.
   Por que no marcou uma audincia?
   Simon sentiu um arrepio na nuca. Como rfo ilegtimo, cedo aprendera a pressentir o perigo, que aquele cmodo luxuoso exalava em profuso.
   Soube que o bispo se abatera com a notcia de nossa morte e estava ansioso para aliviar seu sofrimento.
   - Hum. - O arquidicono formou um tringulo com as mos macias e esguias. Tinha olhos castanhos argutos e jeito de quem apreciava o poder. Ele e o manipulador
Thurstan deviam ter-se atritado muito. - Quer dizer que veio diretamente para c, assim que chegou.
   - Isso mesmo.
   Simon passara trs anos obcecado por confrontar-se com Thurstan. No teria agentado esperar um segundo que fosse. Agora, jamais teria resposta para suas perguntas.
Thurstan estava morto e nem sabia como se sentia a respeito. Depois, findo o interrogatrio, refletiria.
   - Onde esto os outros cinco cavaleiros? - indagou proco.
   Um tipo presunoso, semelhante a um sapo prestes saltar, mantinha o olhar estreito sob a cabea calva reluzente  luz matinal que se derramava sobre a sala.
   - Trs voltaram para casa. Dois acompanharam-me Durleigh, mas foram cada um tratar de sua vida.
   Simon sentia muita falta deles, do aconselhamento sbio de Guy, da amizade e do brao forte de Nicholas.
   - O bispo gostou de v-lo? - indagou o arquidicono.
   Simon franziu o cenho. Chegara dominado pela raiva e o ressentimento. Pensando bem, Thurstan reagira com susto, no incio. Mas alegrara-se ao perceber que a 
frente um homem de carne e osso, no um esprito. Envergonhava-se de no ter sentido nenhum prazer em rever Thurstan.
   - Gostou.
   - Oliver afirma ter ouvido vozes alteradas.
   Com os ombros cados, o secretrio fitava o cho. Era baixo e atarracado, de rosto redondo e olhos avermelhados de tanto chorar. O hbito de l fina parecia bom
demais para um padre, contrastando com as vestes rsticas do arquidicono e a simples batina de linho do proco. No entanto, era a atitude reticente de Oliver que
mais lhe chamava a ateno.
   Teria o secretrio ouvido algo que no deveria? Talvez uma mulher declarando seu amor por Thurstan? Quem? A mulher cuja pista perdera na escurido,  noite?
   - O bispo gritou de surpresa. Pensou que eu fosse um esprito.
   Crispin estreitou o olhar.
   - Disfarado de demnio?
   Simon percebeu a armadilha e esquivou-se.
   - No. Se tivesse morrido na Cruzada, minha entrada no cu estaria garantida. Aps alguns segundos, o bispo deu-se conta de que eu estava mesmo vivo e pode ter
exclamado novamente.
   - Ele estava bem quando o deixou? - indagou o prior Walter.
   - Bem? - Simon sentiu uma pontada de remorso. O bispo, pois no podia pensar nele como pai, mostrara-se doente e frgil. - Parecia ter envelhecido desde a ltima
vez que o vi.
   - O bispo adoeceu quando soube que os cruzados haviam morrido - lembrou irmo Oliver. - No obstante, insistiu em prosseguir com suas atividades.
   Simon sabia o que era seguir avante mesmo doente, mas ignorou o indesejado sentimento de simpatia por Thurstan.
   - Como foi que ele morreu? - perguntou novamente, estranhando o interrogatrio.
   - Foi golpeado na cabea - informou o arquidicono.
   O proco Walter remexeu-se.
   - Irmo Anselme, nosso enfermeiro, est examinando o corpo do bispo e logo determinar a causa de sua morte.
   - Ordenei a irmo Anselme que prepare o corpo  para enterro imediato. - O arquidicono tinha nos olhos um brilho de advertncia. - E, at que o arcebispo nomeie
um novo bispo, estou no comando aqui.
   O proco abriu um sorriso fino e mortal como ao afiado.
   -  verdade, mas estou aqui como nncio de Sua Graa. Se chegar-se  concluso de que algum matou o bispo Thurstan, Sua Graa exigir que se prenda, julgue e
puna o culpado.
   -  por isso que estou interrogando este cavaleiro - rosnou Crispin.
   Tenso e apreensivo, Simon arrepiou-se. Felizmente, no revelara a ningum, nem mesmo a Linnet Especer, sua relao com Thurstan.
   - A que horas ele morreu? - indagou.
   - O corpo foi encontrado neste mesmo aposento, logo depois que o senhor deixou o palcio - relatou o arquidicono.
   Simon arrepiou-se de novo. Podia quase sentir uma corda no pescoo. Se descobrissem que passara os ltimos trs anos odiando Thurstan, passaria a ser visto como
o principal suspeito.
   - O bispo estava vivo quando o deixei.
   Crispin franziu o cenho.
   - Algum o viu sair?
   Cus, no sabia. Retirara-se furioso, a viso obscurecida por um vu de raiva.
   - Se irmo Oliver me viu entrar, talvez tenha me visto sair. - Olhou para o secretrio, o queixo enterrado no peito. - O bispo disse que estava esperando algum
e, de fato, ouvi uma mulher...
   - J sabemos. - O arquidicono no disfarava o desgosto. - Ordenei que lhe barrassem a entrada no palcio, mas irmo Oliver no me obedeceu.
   Irmo Oliver chorava.
   - No desobedeci... - defendeu-se, entre soluos.
   - No foi culpa de irmo Oliver - declarou uma voz branda  porta.
   Simon voltou-se e engoliu em seco.
   Era Linnet  soleira, bem mais arrumada, mas no menos desejvel do que na noite anterior. Tinha os cabelos presos e cobertos por uma touca branca. A capa cinza
deixava entrever um vestido vermelho-escuro. Concentrava o olhar desolado no arquidicono, lembrando uma cora diante de um caador armado.
   - Por que est ocupando a escrivaninha do bispo Thurstan, reverendo padre?
   O arquidicono levantou-se num pulo, os olhos flamejantes de dio.
   - Meretriz! Como ousa questionar-me? Vai dizer agora mesmo por que esteve aqui ontem  noite, desafiando minha vontade.
   Ela hesitou.
   - Vim ver como ele estava. - Olhou para a sala.
   - O que foi que aconteceu? Por que esto todos... - Arregalou os olhos. - Sir Simon, o que faz aqui?
   - Conhece-o? - indagou o proco.
   - Sim. - Linnet abrandou o olhar e sorriu trmula.
   Simon enterneceu-se. Seu primeiro instinto foi o de proteg-la do colrico arquidicono. Mas havia ali correntes perigosas que no conhecia. No queria ver-se
arrastado por elas.
   - Conhecemo-nos por acaso ontem  noite.
   Um dos padres que estava encolhido no outro lado do recinto avanou.
   - Ele a seguiu quando ela saiu.
   Ele a seguiu quando ela saiu. Simon assustou-se. Linnet fora a ltima visitante de Thurstan?
   O arquidicono ergueu o sobrolho, a boca curvada num sorriso sagaz.
   - Com que ento so cmplices?
   - Cmplices... - tartamudeou Simon, horrorizado com a imagem de Linnet que se formava em sua mente. Fora a ela que ouvira declarando amor ao bispo na noite anterior?
   - Cmplices no qu? - questionou Linnet. - Podem me dizer, por favor?
   - Na morte do bispo Thurstan - completou o arquidicono, rspido.
   - Ele.. ele est morto? - Linnet cambaleou, o olhar assustado.
   Simon correu a ampar-la antes que atingisse o cho. Erguendo-a nos braos, como na noite anterior, carregou-a at uma das cadeiras de espaldar alto defronte
 lareira. Um fogo alto crepitava na grelha, mas o calor no neutralizava o pavor em suas entranhas ao acomodar a jovem e ajoelhar-se a seu lado.
   - Linnet?
   Ela abriu os olhos.
   - Thurstan est morto? - Seu sussurro carregava-se de dor. Parecia to pequena e indefesa.
   Simon sentiu-se dividido entre a urgncia de confort-la e a necessidade de perguntar o que ela era para Thurstan. Se lhe demonstrasse carinho, pioraria ainda
mais a situao de ambos. Acocorado, confirmou.
   - Disseram-me que sim.
   - Fazia tempo que estava doente - comentou ela. - Mas acreditei que se recuperaria. Ainda mais agora que voc voltou. Por isso vim aqui logo cedo, para contar
a
ele que voc estava vivo.
   Mas ela sabia que ele era filho de Thurstan?  Simon sentiu o sangue gelar. Dada a situao delicada em que se achavam, no podia permitir que ela revelasse o
segredo.
   - Fique quieta - sussurrou. Por sobre o ombro, viu o arquidicono espreitando-os. - Um vinho a reanimaria.
   Crispin ergueu o sobrolho, ctico.
   - Parece que a meretriz o seduziu tambm, com seus ardis devassos.
   Tambm? Simon no gostou da insinuao. Estava cada vez mais apreensivo.
   - Mal nos conhecemos.
   - Mostra-se solcito para um estranho. - O arquidicono enfiou as mos nos bolsos do hbito, atento, malvolo como uma cobra ao encurralar dois camundongos.
   Simon levantou-se, destacando a altura sobre Crispin.
   - Cavaleiros so sempre corteses com mulheres.
   - Uma mulher como essa  capaz de escravizar um homem s com um olhar.
   Oh, disso Simon j sabia. Algum tempo em sua companhia na noite anterior e enamorara-se, chegara a imaginar que poderia ser a mulher a encarnar aquela de seu
sonho.
   Crispin olhou para Linnet.
   - Cansou-se do bispo e o matou para poder dispor deste jovem e belo cavaleiro?
   - Se eu o matei?! - Linnet empalideceu ainda mais.
   - Ele foi assassinado - esclareceu o arquidicono.
   - Com uma pancada.
   - No temos certeza - corrigiu irmo Oliver, compassivo. - Pode ter tido um colapso e batido a cabea.
   - Acham que eu o matei? - questionou Linnet, incrdula. - Mas ramos amigos.
   - Oh, creio que era mais do que uma amiga - replicou Crispin. - Voc era amante de Thurstan!
   - Amante? - Simon olhou de um para o outro, atnito.
   - No  verdade - sussurrou Linnet, angustiada.
   Simon desviou o olhar, incapaz de fit-la no rosto delicado, nos olhos lindos. Olhos mentirosos. E pensar que chegara perto de seduzir a amante do pai.
   - Era amante dele, sim! - afirmou o arquidicono, enojado. - Mas talvez ansiasse por um protetor mais jovem.
   - Nesse caso, no seria eu - garantiu Simon, com olhar glacial. - Cheguei a Durleigh ontem.
   - Acontece que irmo Gerard o viu segui-la ao sair do palacio.
   Simon deu de ombros.
   - Coincidncia. Estivemos aqui mais ou menos na mesma hora e a Deangate  o caminho mais curto para a cidade.
   - Aparentemente, esperou at que ela sasse para ento segui-la. - Irmo Gerard tinha as feies de um furo e as maneiras de um bajulador.
   Simon desprezou-o desde o incio.
   - Demorei-me no jardim por algum tempo aps deixar o bispo. O que no teria feito se fosse o assassino. - Lembrar seu servio a Deus no faria mal, tampouco.
-
As rosas atraram-me, pois senti falta de seu perfume durante a Cruzada no Oriente seco, desolado.
   O arquidicono abrandou um pouco a expresso.
   - A morte do bispo Thurstan  culpa minha - murmurou irmo Oliver. - Se tivesse estado com ele quando sofreu o ataque, no teria cado e batido a cabea...
   - Calma, irmo - recomendou o proco. - O que quer que tenha acontecido, foi vontade de Deus.
   Irmo Oliver suspirou e baixou a cabea. Crispin concordou.
   - Obrigado por lembrar-nos disso, irmo. O passamento do bispo Thurstan foi mesmo vontade de Deus.
   Simon suspirou aliviado, agradecendo mentalmente ao proco pelo raciocnio sensato.
   - Posso ir, ento?
   - Por ora sim, mas nem pense em sair de Durleigh at o caso estar encerrado. Vale o mesmo para lady Linnet - completou Crispin, lanando a ela um olhar fulminante.
   - No tenho nada a esconder. - Apesar da expresso atormentada, manteve a cabea erguida ao retirar-se regiamente da sala.
   O arquidicono observou-a com o rosto magro contrado de asco.  Simon quase teve pena dela, por conquistar a inimizade de um homem que, ao menos temporariamente,
exerceria muito poder em Durleigh. Ele tambm deveria lembrar-se desse fato, se quisesse permanecer um homem livre.
   - Vamos, irmos,  capela, rezar pela alma de nosso bispo. - Crispin ergueu a barra da batina com a mo e deixou o recinto, seguido pelos outros padres.
   O proco Walter ficou para trs, assim como dois homens musculosos que Simon concluiu serem soldados, Depois que os padres saram, Walter postou os guardas no
corredor, um  porta do quarto, o outro fora da sala de estar, com ordens para no deixar ningum passar. S ento voltou-se para Simon.
   - Devia ser ntimo do bispo Thurstan, para que sua primeira providncia em Durleigh fosse visit-lo.
   Simon hesitou, imaginando como lidar com aquele prelado careca de olhos argutos e intelecto ainda mais sagaz.
   - Mal nos conhecamos. - Era verdade. - Mas muitos dos homens da Rosa Negra tomaram a cruz em cumprimento a uma penitncia imposta pelo bispo. Achei que ele deveria
saber que alguns de ns sobreviveram.
   - Gesto nobre.
   - Parece que o arquidicono no se impressionou.
   Walter deu de ombros.
   - Crispin desaprovava tudo o que o bispo Thurstan dizia e fazia.
   - Cobia a diocese, no? - disparou Simon.
   - Apenas por considerar-se mais adequado ao cargo.
   - E o senhor? - questionou Simon, direto.
   Walter sorriu.
   - Eu no criticava Thurstan tanto quando Crispin, mas todo homem aspira  ascenso.
   - Boa resposta.
   - Franca. Eu admirava as realizaes de Thurstan aqui, ainda que desaprovasse seus mtodos. Quanto a tomar seu lugar... - Walter deu de ombros novamente. - Poucos
homens teriam a capacidade. Eu aceitaria a oportunidade de tentar, mas no o mataria por isso.
   Uma voz aguda soou no corredor.
   - No tem o direito de me barrar!
   Uma mulher invadiu a sala. No era jovem, mas era bonita. Embora fosse cedo, j tinha os cabelos loiros caprichosamente presos num coque  nuca, cobertos por
uma fina rede dourada. O vestido verde em modelo atual fora bem ajustado e realava as curvas de seu corpo esbelto.
   O guarda apareceu.
   - Meu senhor proco...
   - Est tudo bem - declarou Walter, rgido. - Lady Odeline, algum problema??
   A mulher fungou e aproximou-se do proco, seguida por um rapaz bem vestido de vinte e poucos anos.
   - Por que fomos proibidos de entrar nos aposentos de Thurstan?
   O fato de ela chamar Thurstan pelo nome chamou a ateno de Simon.
   - Ordens minhas, lady Odeline. Estamos investigando as circunstncias da morte do bispo.
   - Claro que foi acidente. - A mulher fitava o padre com olhos brilhantes pelas lgrimas. - Oh, o destino cruel tirou meu irmo de mim. Era a nica pessoa que
me
amava. A nica que compreendia minhas aflies...
   - Irmo? - Simon estava boquiaberto. Aquela era irm de Thurstan? Sua tia?
   - O que vamos fazer? - Odeline agarrou-se ao rapaz a seu lado. - Para onde iremos, meu filho e eu? No temos nada. Nem casa, nem dinheiro. Nada.
   Simon sentiu a compaixo por ela arrefecer. Era bvio que importava-se mais com o bem-estar do que com a perda do irmo. Ora, tanto egosmo no deveria surpreender.
Thurstan pensara primeiro em gozar seus prazeres, pndo de lado os votos sagrados e indiferente ao destino da criana que pudesse gerar.
   - Tenho certeza de que o bispo pensou em vocs - disse Walter.
   - No. - Lady Odeline soluava agora. - Ele sempre disse que seu dinheiro iria para a construo de uma capela onde seria sepultado. E para o mosteiro. No herdaremos
nada.
   O proco suspirou.
   - Jevan, leve sua me aos aposentos dela l em cima para que descanse.
   - No, quero ficar aqui e rezar por meu irmo.
   - Amanh, quando estiver encerrada a investigao sobre a morte dele, poder fazer viglia - consolou o proco.
   A raiva secou os olhos de Odeline e tingiu-lhe o rosto de vermelho.
   - Vai me negar isso? - protestou.
   Walter encarou-a com frieza.
   - Lamentavelmente. Nada pode ser tocado at que descubramos o que aconteceu.
   Simon olhou para Jevan, curioso quanto a sua postura naquelas circunstncias, e viu que o rapaz o observava. Era bem mais baixo do que ele, de compleio magra,
cabelo preto lustroso e tez plida. Seus olhos no passavam de fendas, cintilantes de dio. Ele sabe que sou filho de Thurstan, concluiu, a vergonha queimando-lhe
o pescoo e as faces.
   - Jevan! - gritou a mulher. - Vamos falar com o arquidicono. - Com isso, deixou a sala, com o filho.
   Walter suspirou.
   - Mimada e teimosa.  meia-irm mais nova de Thurstan. Superprotegida pela me e sempre metida em encrencas. Teve que deixar a corte por conta de um escndalo.
Se Thurstan no os tivesse acolhido aqui enquanto o rapaz estudava na escola da catedral, teriam ambos ficado sem teto.
   - Jevan est estudando para ser padre?
   - Sacristo. Thurstan temia que, sem disciplina e oficio, o rapaz acabasse como o pai. - Walter fez uma pausa. -O homem vivia bbado e morreu numa briga de rua.
- Indicou a porta. - Vamos ver se irmo Anselme j descobriu alguma coisa.
   - Acha que Thurstan foi assassinado?
   - No quero acreditar nisso, mas ele morreu com uma expresso de horror. - O proco estremeceu. - E irmo Anselme insistiu em examinar o corpo.
   Simon seguiu Walter at a porta, mas voltou-se para contemplar a sala. Estava tudo como na noite anterior, com exceo do sangue no canto da escrivaninha e da
mancha escura no tapete diante do mvel. O que acontecera ali depois que se retirara?
   Era surpreendente que se importasse com isso. Por mais de trs anos, atormentara-se com o desejo de ver Thurstan de Lyndhurst pagar por seus crimes. Agora, porm...
   Ao arrependimento misturava-se a sede de vingana.
   Jamais teria as respostas que buscava. O nome de sua me. O motivo pelo qual Thurstan o ignorara.
   Ao mesmo tempo, se no mantivesse em segredo aquela relao de parentesco, poderia ser acusado do assassinato do bispo.


   CAPTULO 5

   Linnet entrou silenciosamente na enfermaria, uma sala comprida e escura cujo teto era sustentado por macias colunas de pedra.
   - Irmo Anselme? Est aqui?
   O irmo curandeiro saiu de trs de um biombo no fundo da enfermaria.
   - Linnet! - Correu entre as fileiras de leitos desocupados. - No devia estar aqui.
   - Eu sei. - Linnet queria atirar-se para ele, mas em vez disso cruzou os braos. - Oh, irmo Anselme, o arquidicono pensa que matei o bispo Thurstan...
   - Calma, calma... - Anselme colocou o brao em torno dela, conduziu-a a um banco e sentou-se a seu lado. - Por que ele diria uma coisa dessas?
   - Porque me odeia e precisa de algum a quem culpar, acho. - Ela enxugou o rosto e fitou o rosto angelical do monge curandeiro que se tornara um querido amigo.
- E verdade? Thurstan morreu mesmo?
   - . - Lgrimas inundaram os grandes olhos castanhos dele.
   - Tinha esperana de que fosse s um desejo do arquidicono. Ele vivia desaprovando os mtodos de Thurstan.
   Anselme concordou.
   - Crispin mandou prend-la?
   - No. Oh, irmo, eu vim trazer ao bispo a boa notcia de que Simon de Blackstone est vivo.
   Irmo Anselme era um dos poucos que sabiam a verdade sobre a origem de Simon.
   - Segundo irmo Oliver, Simon visitou Thurstan ontem  noite. Sendo assim, ao menos, antes de deixar esta vida, Thurstan teve a satisfao de saber que Simon
estava
vivo.
   Linnet cerrou os punhos.
   - Crispin queria Thurstan morto para poder dirigir Durleigh como quiser.
   Anselme levantou-se e comeou a andar em crculos.
   - Calma, filha, mea suas palavras.
   - Quer dizer que ele no morreu por acidente?
   - No, no foi acidente.
   Linnet estremeceu.
   - O que descobriu?
   O bom irmo parou e olhou-a.
   -  melhor voc no pensar nisso.
   Linnet sentiu um n na garganta, mas aprendera, com a morte de seus pais e quando Simon fora declarado morto, que o sofrimento no trazia de volta os entes amados.
   - Preciso saber como isso aconteceu.
   Irmo Anselme aquiesceu e olhou para o teto, como se pedisse orientao divina, e ento fez o sinal da cruz.
   - H indcios de assassinato. - Aps dar uma olhada pelo quarto vazio, reaproximou-se de Linnet falando mais baixo. - Tive pouco tempo para examin-lo, pois precisei
antes vencer minha dor e rezar por sua alma. H um ferimento na cabea, decorrente da batida na mesa, mas no foi isso que o matou. Encontrei evidencias de que ele
estava sendo envenenado.
   Linnet gemeu, como se lhe apunhalassem o corao. Oh, santa Maria, eu esperava estar enganada...
   - Sabia disso?
   Linnet engoliu em seco, mas o n na garganta persistia. Nem o clice de vinho que o irmo lhe trouxe s pressas diminuiu a secura em sua boca e na conscincia.
   - Nos ltimos dias, ele enfraqueceu tanto que devassei os livros de meu bisav, numa busca desesperada por algum tnico, alguma poo. - Tomou mais um gole de
vinho. - Encontrei um registro a respeito de um homem que definhava em decorrncia de uma doena misteriosa. Era um senhor de idade, rico, casado com uma mulher
jovem. Os filhos do primeiro casamento desconfiaram de assassinato e chamaram meu bisav para examinar o corpo antes que fosse enterrado. Ele descobriu que o homem
tinha sido envenenado ao longo do tempo com acnito. A esposa dele foi acusada e acabou confessando. Os sintomas de Thurstan eram parecidos.
   - Acnito... - Anselme sentou-se ao lado dela. - Provoca a morte de maneira lenta e dolorosa, mas isso explicaria a prolongada doena de Thurstan.
   Linnet mordiscou o lbio. Detestava mentir a Anselme, mas no podia revelar sua suspeita de que Thurstan tornara-se dependente da substncia e acabara se envenenando.
O suicdio era um pecado extremo, que impediria Thurstan de ser enterrado em solo sagrado.
   - Vim aqui ontem  noite para contar a Thurstan o que tinha descoberto, mas ele estava nervoso e me mandou embora. Agora, est morto.
   Anselme suspirou.
   - Sim, e sentiremos muito sua falta. Acontece que no foi acnito que encontrei no...
   - Irmo Anselme, o que foi que apurou? - inquiriu Walter, adentrando a enfermaria acompanhado de Simon.
   Anselme levantou-se.
   - Apurei alguns fatos, senhor proco. - Olhou receoso para Simon.
   - Pode falar diante dele sem receio - tranqilizou Walter. - Este  sir Simon de Blackstone.
   - Ah. - Anselme inclinou a cabea. - Linnet disse que havia retornado milagrosamente. Estou feliz que tenha tido alguns minutos finais com o bispo. Ele ficou
muito
abalado com a notcia de sua morte.
   Simon grunhiu.
   - Como foi que ele morreu?
   Anselme enrijeceu-se.
   - Presumo que esteja falando de nosso amado bispo?
   Simon grunhiu de novo.
   - Perdoe minha brusquido, irmo, mas  que sou suspeito de assassinar um homem que mal conhecia e estou ansioso para limpar meu nome e poder seguir meu caminho.
   Ele estava de partida? Linnet suprimiu um gemido.
   - Mas acaba de chegar em casa - replicou Anselme.
   - Foi um erro voltar. - Simon lanou a Linnet um olhar fulminante. - No h nada aqui para mim. Ela estremeceu. Thurstan era meu amigo, nada mais. Mas talvez
fosse
melhor que aquela histria terminasse antes de comear. Se Simon a considerava capaz de assassinato, sentiria ainda mais averso se descobrisse a respeito do beb.
   - Irmo Crispin tinha dado instrues para que o bispo fosse preparado para enterro imediato - informou Walter. - Mas eu o convenci de que precisvamos saber
do
que foi que Thurstan morreu.
   Anselme anuiu.
   - Felizmente, pois, alm do golpe na cabea, encontrei sinais de que Thurstan ingeriu veneno.
   - Veneno?! - exclamaram Walter e Simon juntos.
   - Beladona - revelou irmo Anselme.
   - Beladona?! - exclamou Linnet, surpresa.
   - Como foi administrado e de quanto tempo teria precisado para surtir efeito fatal? - indagou Walter.
   - No posso afirmar at ter examinado o bispo mais minuciosamente - declarou Anselme. - Pode ter sido misturada ao vinho,  aguardente e  gua no quarto dele.
   Beladona, no acnito. Linnet sentiu as pernas bambas, aliviada. Thurstan no envenenara a si mesmo, afinal.
   - Santo Deus! - sussurrou Walter, levando as mos ao pescoo. - Bebi vinho com ele ontem.
   - Se contivesse beladona, j estaria sabendo, irmo proco - afirmou Anselme.
   Walter engolia em seco, convulsivo.
   - Vou eu mesmo buscar as garrafas para que as examine.
   Anselme suspirou.
   - No posso acreditar que algum o mataria...
   - Homens como ele fazem inimigos - murmurou Simon. - No vou falar mal dos mortos, irmo, mas toda a cidade j tinha sentido a mo pesada de Thurstan. Nada se
fazia sem a autorizao dele. Regia como um monarca, aproveitando para enriquecer.
   - Ele usava o poder para o bem! - gritou Linnet, revoltada com as ofensas de Simon ao homem que o gerara. E seu melhor amigo. No fosse pelo bispo, teria se arruinado,
e sua filhinha seria uma bastarda.


   Simon encarou-a.
   - Sua defesa dele no me surpreende... mileide.
   O dio de Simon a feria to profundamente que nem pde responder. E sabia que a voz dele no seria a nica a erguer-se contra ela. Tudo o que queria era voltar
para sua loja, enfiar-se na cama e ficar l at o pesadelo acabar.
   - Acho melhor ir embora.
   A porta escancarou-se e dois homens invadiram a enfermaria, as esporas atritando-se contra o cho de pedra.
   - Irmo Anselme, est a? - indagou uma voz conhecida.
   Hamel Roxby.
   Quando imaginava que o dia no poderia piorar mais, Linnet gemeu, rogando para que um buraco se abrisse no cho e a engolisse.

   Hamel Roxby.
   Instintivamente, Simon pousou a mo na espada ao ver o homem se aproximar.
   Hamel j era sub-delegado quando Simon partira na Cruzada, um homem justo e esclarecido que abusava do poder de sua posio de modo sutil. Pena que ningum tivesse
posto fim a sua carreira. Na aparncia, Hamel mudara pouco, o rosto magro com nariz comprido assemelhando-o a um falco. Ainda no reparara em Simon, escondido atrs
de um pilar, mas, em sua tmpora direita, beirando o sobrolho, permanecia a cicatriz do corte que ele lhe fizera com a espada num duelo muito tempo antes, quando
contavam dezesseis anos. Tratava-se de uma rivalidade antiga, amarga. Simon no tolerava fanfarres, enquanto Hamel odiava todos que o enfrentavam.
   - Soube que o bispo morreu - comentou o sub-delegado, alegre.
   Simon enfureceu-se. Uma coisa era ele desprezar o homem que lhe dera vida, outra bem diferente era Hamel alegrar-se com sua morte.
   - Lady Linnet. - O rosto do sub-delegado iluminou-se com um brilho profano, um caador espreitando presa fcil. - E verdade? Seu bispo morreu?
   Ela estremeceu.
   - .
   - Bem, bem... - Ignorando os padres, Hamel foi na direo de Linnet com toda a descontrao de um fanfarro nato.
   Simon colocou-se no caminho de Roxby.
   - Hamel.
   O sub-delegado arregalou os olhos negros, surpreso, e ento estreitou-os.
   - Simon de Blackstone. Soube que voltou dos mortos.
   Simon sorriu.
   - De fato, estou vivo e de volta a Durleigh.
   - Vivo por enquanto. - Hamel fez meno de sacar a espada.
   Irmo Anselme correu a apart-los.
   - Calma. Nada de briga na casa de Deus. Por que veio aqui, delegado?
   Hamel era delegado agora?, perguntou-se Simon.
   - Passei a noite caando lobos e s agora soube que o bispo foi assassinado. Vim investigar.
   - Obrigado pela preocupao, delegado - disse o proco Walter. - Mas irmo Anselme j est examinando o bispo.
   Hamel olhou feio para o padre gordo.
   - Quem  voc?
   - Walter de Folke, proco de York, em Durleigh a servio do bispo. Pretendo investigar o caso e apresentar um relatrio completo a Sua Graa.
   - Se houve um assassinato,  meu dever...
   - O bispo Thurstan era padre e morreu em terras da igreja - argumentou Walter, severo. - Sua morte  assunto da igreja.
   Hamel estreitou o olhar.
   - No se o culpado for algum de Durleigh - rosnou o delegado. - Muita gente se ressentia da intromisso do bispo em seus negcios. Apresentar essa pessoa  justia
 trabalho meu, portanto, mantenham-me informado.
   - Acontece que ainda no foi confirmado como delegado de Durleigh - lembrou o proco Walter.
   Hamel grunhiu, o olhar menos flamejante.
   - Logo serei. O delegado Turnebull treinou-me pessoalmente, e meu pai foi sub-delegado dele. O arquidicono Crispin est satisfeito com meu desempenho.
   - Talvez ele no seja nosso prximo bispo - considerou Walter. - Mas no vamos prend-lo mais. Bom dia, delegado.
   Hamel franziu a testa.
   - Mande me avisar quando descobrir como o bispo morreu. - Girando nos calcanhares, retirou-se, as esporas atritando-se contra o cho de pedra. E irritando os
nervos
de Simon.
   Assim que a porta se fechou, Linnet sentou-se no banco e irmo Anselme suspirou aliviado.
   - Parabns proco Walter - murmurou Simon. Sempre achara os padres de uma passividade perturbadora. Era bom encontrar um que defendia sua crena, ainda que diante
de algum como Hamel.
   - Foi um prazer. Lembro-me que Thurstan dizia que         Hamel Roxby no era nem metade do homem que o pai foi. Thurstan e lorde Edmund hesitavam em nome-lo
delegado, mas no tinham argumentos para dispens-lo.
   - Hamel  um espertalho que adora o poder - opinou Simon. Ante a palidez de Linnet, sentiu um indesejado impulso de confort-la, mas virou o rosto. - Tambm
gostaria
de saber o que descobriu, irmo Anselme.
   - Claro, mas  trabalho para vrios dias e...
   - O tempo  crucial - advertiu Walter. - Em tantos anos de servio ao arcebispo, lamentavelmente tive que conduzir outras investigaes semelhantes. Quanto mais
tempo passa, mais difcil torna-se descobrir o assassino. Fatos importantes so esquecidos, pistas se apagam.
   Irmo Anselme concordou.
   - Trabalharei o mais rpido que puder.
   - timo. - Walter enfiou as mos gordas nos bolsos. - E peo-lhe que relate seus descobertas somente a mim. Agora, vou me certificar de que os aposentos do bispo
esto bem guardados e voltar com aquelas garrafas. - Saiu apressado.
   Linnet levantou-se.
   - Acho melhor voltar para a loja.
   - No quero que volte sozinha com Hamel espreitando por a - protestou Anselme. - Simon, poderia acompanh-la?
   No. No confiava em si mesmo sozinho com Linnet, temeroso de que seu desprezo por ela explodisse.
   - No  necessrio. Estarei bem. - Linnet encaminhou-se  porta de cabea baixa e ombros cados.
   Simon tentou ignor-la.
   - Talvez possa ajud-lo com seu trabalho, irmo.
   - No  tarefa fcil, para algum da famlia...
   Simon grunhiu.
   - Ser que fui a ltima pessoa de Durleigh a saber que o bispo teve um filho bastardo?
   - Ningum mais sabe, alm de mim e Linnet.
   - Pouco importa. Ele nunca foi meu pai.
   - Foi, mais do que imagina. - O monge suspirou.
   - Mas no temos tempo para discutir agora. Preciso descobrir do que ele morreu. Pode me ajudar acompanhando Linnet de volta  loja dela.
   - Tenho certeza de que ela conhece o caminho.
   - Assim como Hamel Roxby.
   - O que quer dizer com isso?
   - Que nosso delegado interessa-se por Linnet.
   Simon ignorou o sinal de alerta.
   - Ela no  da minha conta.
   - Nisso tambm est errado, filho - criticou Anselme. - Ela no aprecia as investidas de Hamel.
   O sinal de alerta intensificou-se.
   - No me importo.
   - Est mentindo para mim e para si mesmo - admoestou o monge, irritado. - Mas no estou com tempo nem pacincia para discutir. Lnnet j sofreu muito em sua curta
vida. Se no posso apelar para a bondade em seu corao, fao-lhe uma proposta. Mantenha Linnet a salvo e partilharei com voc tudo o que descobrir sobre a morte
do bispo.
   - Est certo quanto ao veneno? Irmo Anselme confirmou, srio.
   -  No sei exatamente do que ele morreu, mas h indcios de veneno, sim.
   Simon sentiu um n na garganta. No tinha libi, s sua palavra. A palavra de um homem que odiara o bispo Thurstan durante quatro anos.
   - Est bem. Cuidarei para que ela chegue a sua loja em segurana.
   - timo. - O monge deu-lhe um tapa no ombro. - Fique l com ela. Eu os procurarei assim que terminar aqui. Antes do final da tarde, com certeza.
   - Mas faltam horas. O que  que eu vou ficar fazendo com ela l naquela lojinha?
   - Quer dizer que j conhece o lugar?
   Simon grunhiu. Deus, se no mordesse a lngua, iria se condenar sozinho.
   - Nunca vi um boticrio grande.
   - Ah, bom. - Anselme sorriu. -  mais esperto do que ouvi falar. Se algum questionar por que a acompanha, diga que preciso de alfazema para embeber a mortalha
do bispo.
   Simon aliviou-se por deixar o astuto monge com sua tarefa repulsiva. Saindo da enfermaria, foi parar de novo no jardim de rosas. Verdes e luxuriantes, as plantas
dispunham-se em canteiros bem cuidados. Quem quer que se ocupasse delas, tinha jeito para isso. Junto ao porto principal, encontrou-se com irmo Gerard.
   - Linnet Especer passou por aqui? - indagou Simon.
   O cara de furo parou, enfiou as mos nas mangas do hbito e lanou-lhe um olhar fulminante, imitao perfeita do arquidicono.
   - Perseguindo-a novamente, senhor cavaleiro? Irmo Anselme mandou-me pegar com ela um pouco de alfazema.
   - No devia associar-se quela assassina.
   - Por que ela mataria o bispo?
   - Mulheres no precisam de motivos. Trata-se de criaturas dissimuladas, frias.
   Simon cerrou os punhos. Sua vontade era dar um muro naquela cara de fuinha, mas perder a cabea s pioraria sua situao.
   - Terei em mente sua advertncia - declarou, com os dentes cerrados, e transps os portes. Ao longo da Deangate, tinha a expresso to carrancuda que as pessoas
apressavam-se em sair de seu caminho.
   A rua no estava muito cheia e Simon era mais alto do que a maioria dos transeuntes, mas ele no conseguia localizar a cabea loira de Linnet  frente. Teria
Hamel agarrado-a? Apavorado, apertou o passo e logo percorria a Colliergate, perseguido pelo cheiro de madeira queimada e pelos gritos dos carvoeiros. Em cada esquina,
parava e olhava para os dois lados,  procura de algum beco ou atalho que Linnet poderia ter tomado.
   Na Hosier Lane, viu algo que o fez estacar.
   Hamel prensava algum contra a parede de uma taverna. No se via o rosto da vtima, s parte dos cabelos loiros.
   A cena atiou a memria de Simon, uma sensao vaga, onrica, de ter estado ali antes.
   Ridculo.
   Sem perder mais tempo, lanou-se pela rua obscura, vencendo a distncia em poucos passos.
   - Lady Linnet?
   Hamel virou a cabea, os olhos meras fendas.
   - O que est fazendo aqui?
   - Procurando a boticria.
   - Arranje outra. Esta aqui est ocupada.
   Por cima do brao de Hamel, Simon olhou para Linnet. A nica cor em seu rosto branco, chocado, eram os olhos, grandes poas cor de gengibre, aterrorizados, suplicantes.
Apesar de ela ter tentado engan-lo, no poderia abandon-la ali.
   - Temo que nenhuma outra sirva. Irmo Anselme mandou-me comprar alfazema na loja dela.
   - Compre noutro lugar!
   - Ele foi bem especfico, tem que ser na loja da senhora Linnet - insistiu Simon, notando que um homem saa da taverna. Era o comerciante de l, um dos cidados
mais prsperos de Durleigh.
   Edric Woolmonger arregalou os olhos no rosto gordo.
   - Delegado?! - Ao ver Simon, empalideceu. - Simon de Blackstone?! Mas no estava morto?
   - Parece que no, mestre Woolmonger. - Aliviado, Simon viu Hamel afastar-se de Linnet. - Estou feliz que se lembre de mim.
   - Claro que me lembro. Por duas vezes acompanhou meus carregamentos de l para embarque em Tynemouth, sem perder uma pea. Agradeo a Deus por poup-lo. - Edric
fez o sinal da cruz. - Eu o convidaria para jantar, para ouvir suas aventuras, mas... - Apagou o sorriso. - Tenho que ir  catedral rezar por nosso amado bispo.
- Inclinou a cabea. - Voltar a servir lorde Edmund, agora que voltou?
   - No sei. O lorde encontra-se fora no momento.
   - Bem,  bom v-lo vivo, de qualquer forma. - Edric voltou-se para Hamel. - Conseguiu pegar o lobo ontem  noite?
   Hamel olhava furioso para Simon.
   - No.
   - Bem, tem que peg-lo antes que devore todo o meu rebanho - resmungou Edric. - Acompanhe-me e no caminho discutiremos estratgias para pegar esse lobo.
   Hamel lanou um ltimo olhar lascivo para Linnet e afastou-se com o comerciante.
   Linnet gemeu, a cabea baixa, os olhos fechados.
   - Obrigada - sussurrou.
   - Irmo Anselme pediu-me para acompanh-la - explicou Simon, frio.
   Ela ergueu o rosto, o olhar atormentado.
   - Quis recusar. Estou feliz que no o tenha feito.
   Ele tambm. Ela parecia to frgil, to vulnervel. Sua vontade era ergu-la nos braos e carreg-la.
   - Prometi a ele que a acompanharia at sua loja.
   - Uma promessa cumprida a contragosto, eu sei. Gostaria de ser corajosa o bastante para recusar sua escolta relutante. - Linnet olhou para a rua na direo que
Hamel tomara. - Mas no sou.
   Simon tambm gostaria. Pois, apesar de tudo o que descobrira naquela manh, ela ainda o atraa.

   - Como vamos encontrar a escritura se no podemos entrar no quarto de Thurstan para procur-la? - questionou Jevan  me pela dcima vez desde que se haviam recolhido
aos aposentos dela.
   - Temos que esperar. - Odeline andava de um lado para outro defronte  lareira apagada, chutando as saias em raiva impotente.
   - Estou cansado de esperar - lamuriou-se Jevan.
   - Que azar! Por que Simon de Blackstone tinha de aparecer vivo? Em poucas semanas, Thurstan teria morrido e Blackstone Heath viria para minhas mos.
   Odeline le Coyte parou e voltou-se para o filho nico. Era to parecido com ela, pensou, o corao repleto de amor. Herdara sua beleza, o raciocnio rpido e
a ambio desmedida partilhada por todos os Lyndhurst. Do pai, Jevan herdara um pssimo gnio, infelizmente. Esforara-se ao mximo para ensinar o filho a controlar
seus ataques de nervos, mas ele sempre queria mais do que j tinha e explodia quando no realizava o desejo imediatamente.
   - Como pode saber que a morte dele estava to prxima?
   - Estava escrito na cara dele, para todos lerem.
   Odeline estremeceu. No era uma assassina. O empurrozinho que dera em Thurstan no fora suficiente para mat-lo. Ele ainda estava vivo, com o rosto e os membros
relaxados, como se dormisse, quando sara correndo para pedir ajuda. Ao voltar com o proco e o arquidicono, porm...
   Deus, o irmo contorcendo-se todo, a angstia em suas feies, que cena terrvel! Iria persegui-la por toda a existncia. Mas no era a responsvel. Ele devia
ter sofrido algum outro mal.
   - Temos que encontrar a maldita escritura - lamuriava-se Jevan.
   Odeline ps de lado o sentimento de culpa.
   - Tenha s um pouco mais de pacincia, Jevan. Provavelmente, os guardas deixaro os aposentos de Thurstan ao cair da noite. Depois que todos dormirem, descerei
l e encontrarei a escritura.
   - Eu devia t-lo feito entreg-la a mim primeiro.
   - O que quer dizer?
   Jevan lanou-lhe um estranho olhar calculado e voltou-se para a janela.
   - Antes de concordar em freqentar a escola. - A fala afetada e o porte arrogante eram idnticos aos do pai.
   Odeline arrepiou-se. Jevan no era como o pai. De jeito nenhum.
   - Estava jantando quando Thurstan morreu? - indagou, branda.
   Jevan voltou-se sorridente.
   - Conforme um bom nmero de bons irmos atestar. - Adotou um sorriso feroz. - Quero Blackstone Heath.
   - Prometo que a ter. - No importava o que tivesse que fazer.

   De algum modo, Linnet conseguiu chegar  loja, mas no saberia dizer que caminho haviam tomado ou por quem haviam passado. O que restava de suas energias dedicara
a colocar um p diante do outro.
   No obstante, mantinha-se estranhamente consciente do homem a seu lado.
   Era a segunda vez que Simon a salvava de Hamel. S que ele no se lembrava da primeira. Felizmente, pois, caso contrrio, ele a julgaria uma libertina, do tipo
que se relacionava com homens que mal conhecia.
   - Oh, no, parece que tem clientes  espera.
   Linnet ergueu o rosto, surpresa ao ver-se j na esquina da Spicier's Lane. De fato, uma pequena multido acotovelava-se diante de sua loja. O medo percorreu-lhe
a espinha.
   - Espero que no haja nada errado - comentou, seguindo em frente.
   - Espere. - Simon postou-se  frente dela, como fizera na enfermaria, a mo no cabo da espada. - Fique atrs de mim. - Atravessando a rua, foi se aproximando
devagar
da loja.
   Linnet reparou que Aiken suspendera as persianas das vitrines. Atrs da prancha de madeira que servia de balco, ocupava-se em vender produtos. De p na rua,
Drusa conversava com duas mulheres.
   - E sempre to movimentado assim? - indagou Simon.
   - No. No imagino por que...
   - L est ela, Linnet! - exclamou algum.
   Mais de dez, os clientes voltaram-se. Eram todos conhecidos e olhavam-na com expresses que variavam de simpatia a curiosidade.
   - O que se passa aqui? - inquiriu Simon.
   - So s curiosos - explicou Linnet. Queriam saber como ela enfrentava a tenso pela morte de Thurstan.
   - Foi a mesma coisa quando papai faleceu.
   No, no fora bem assim. Naquela ocasio, as pessoas haviam demonstrado solidariedade. No momento, pareciam mais curiosas e, algumas, crticas.
   Simon fungou, desaprovando.
   - Eu as mandarei embora.
   Era tentador, mas Linnet recusou.
   - Isso s pioraria a situao. E melhor eu entrar logo e ajudar Aiken.
   A multido partiu-se, abrindo caminho para Linnet. Vrias das mulheres choravam e murmuravam palavras de consolo.
   -  verdade que o miservel morreu? - indagou uma voz queixosa.
   Linnet engoliu em seco e deu meia-volta. Era a velha Nelda.
   O povo a chamava de louca. Morava  beira do rio, entre feitios e poes. Prendia os cabelos grisalhos com tanta fora que sua pele esticava-se como couro velho.
Fitava Linnet com olhos amarelados, to concentrados quanto os de um gato diante de um rato encurralado.
   - Sim, o bispo Thurstan faleceu - sussurrou Linnet.
   - Mas ele morreu dormindo? - A saliva espumava ~ nos cantos dos lbios finos da velha Nelda. Ao redor, a multido assistia em silncio.
   - Claro que no! - irritou-se Linnet. Sobressaltou-se ao sentir um toque no ombro. Era Simon.
   - Pare de importun-la, velha - rosnou ele. - V embora.
   Nelda sorriu maldosa, revelando tocos de dentes pretos.
   - Onde h fumaa, h fogo. Dizem que ela era amante dele. Dizem que teve um filho bastardo dele quando ficou no convento de Blackstone, h alguns anos...
   Linnet estremeceu. Ou Simon a sacudiu ao retirar a mo de sobre seu ombro. De repente, sentia-se fria e sozinha.
   - V embora! - ordenou Simon, severo.
   - Irei, mas ningum pode segurar minha lngua. - Nelda ergueu as sobrancelhas grossas para Linnet. Agora que Thurstan morreu, nada me far calar.
   Com isso, foi-se, os sujos ps descalos aparecendo sob a barra das saias esfarrapadas.
   Simon murmurou uma imprecao e dirigiu-se aos demais espectadores.
   - Se vieram comprar, faam-no. Se no, vo tratar de suas vidas e deixem lady Linnet em paz. - Tomou o brao dela com surpreendente gentileza. Tambm gentil foi
seu tom ao sussurrar-lhe: - Entre, afaste-se destas pessoas.
   Drusa os encontrou  porta e levou Linnet direto  cozinha.
   - Pobrezinha, sente-se aqui. Vou buscar um pouco de vinho.
   Linnet caiu sentada no banco. Seu corao doa, a cabea latejava.
   - Voc est bem? - indagou Simon.
   Linnet abriu um olho. Ele estava to prximo que ela notou o que lhe passara despercebido antes, as olheiras fundas, as emoes em seus olhos, um misto de choque,
dor e... medo.
   - Eu j devia ter aprendido a ignorar as provocaes.
   - Mas isso j tinha acontecido antes?
   - Nelda vive difamando o bispo. No comeo do ano, foi expulsa de Durleigh por mascatear purgantes e abortivos no mercado.
   - Ou seja, tem motivos para odi-lo. - Mas  verdade o que ela diz sobre voc e o bispo?, indagava, com os olhos.
   - E para espalhar as mentiras. - Linnet sentou-se e esfregou os olhos ardentes. - No ligo para mim, mas manchar o nome de um homem to bom, um bispo...
   - Ela no  a nica que acredita que voc era amante dele.
   Linnet suspirou.
   - O bispo Thurstan dizia que o povo no  capaz de acreditar que um homem, mesmo um homem de Deus, e uma mulher possam ser amigos. O falatrio a nosso respeito
comeou antes de eu ir para o convento.
   - Por que foi para o convento?
   Linnet fitou as prprias mos, cruzadas sobre o colo, temerosa de que ele adivinhasse mais do que ela queria que ele soubesse.
   - Para aprender curas com as irms. O bispo Thurstan arranjou tudo. Catherjne de Lyndhurst, irm dele,  a abadessa. - Notou que Simon prendia a respirao.
   -  mesmo irma dele, no meia-irm, como Odeline.
   - Entendo. - Simon fitou-a atento. - E quanto ao beb?
   Linnet cerrou tanto os punhos que as unhas se enterraram em suas mos. Virgem Maria, como sobreviveria  provao? Mas era preciso.
   - Boato - murmurou. - Tudo mentira.
   Simon no disse nada.
   O silncio prolongou-se e os envolveu, at que Linnet no suportou mais.
   - Obrigada por me salvar e me acompanhar at em casa.
   Ele se acomodou  mesa de frente para ela.
   - Eu disse a irmo Anselme que esperaria por ele aqui.
   - No  preciso - assegurou ela.
   - Ele nos informar do que Thurstan morreu.
   Linnet expressou surpresa.
   - Pensei que no se importasse.
   - Estou na lista de suspeitos do arquidicono. Se a morte de Thurstan no foi natural, nem acidental...
   - Ele estava vivo quando o deixei.
   - O que ocorreu logo depois que eu o deixei. - Simon inclinou-se para a frente. - Mas s temos nossa palavra e, caso tenha sido usado um veneno de efeito lento,
podemos ser acusados.
   - Que motivo um de ns teria para mat-lo?
   Simon suspirou.
   - Nenhum, de acordo com o que j se sabe, mas pode ter certeza de que Crispin e Hamel faro de tudo para descobrir algum. E melhor que no saibam que estive em
sua loja ontem  noite.
   - Que importncia isso teria? - questionou Linnet.
   - Daria a impresso de que forjamos libis um para o outro. Se no nos conhecamos, no h por que mentirmos. Caso contrrio...
   Linnet sentiu a boca seca. Quantos em Durleigh saberiam que ela e Simon j tinham sido amantes?


   CAPTULO 6

   No queria gostar dela.
   Mal-humorado, Simon encostou o ombro na parede dos fundos da loja de Linnet, tentando ignorar seu fascnio crescente por ela e a admirao pelo que ela criara
ali dentro.
   A loja era pequena, porm organizada. Prateleiras nas paredes exibiam cremes e poes em potes de cermica, entremeados com ramalhetes de flores desidratadas.
Flores em cntaros de barro alegravam a mesa no meio do estabelecimento, ao lado de tigelas de madeira com gros de pimenta vermelha, preta e verde. O efeito era
agradvel aos olhos e ao olfato.
   Aiken mantinha-se ocupado junto ao balco, semelhante a um largo peitoril, atravs do qual vendia ervas comuns como slvia e alecrim a clientes na rua.
   Simon passara toda a manh ali, observando Linnet exercer um oficio no qual sem dvida sobressaa-se. Num fluxo contnuo, mulheres l apareciam em busca de tratamento
para tudo, desde febre at pele seca. No era de admirar que o pequeno boticrio apresentasse tanto movimento. Linnet analisava cada problema, por mais trivial que
fosse, como se Lhe importasse pessoalmente. Sua preocupao era evidente na voz meiga, ao fazer perguntas, e no sorriso, ao encontrar a soluo. S as olheiras e
a expresso tensa denunciavam o drama pelo qual passava.
   Simon perturbava-se por reparar em todos esses detalhes. Perturbava-se ainda mais por compadecer-se de Linnet. No queria gostar dela. Contrafeito com tais sentimentos,
mostrava-se mal-humorado.
   A mulher que Linnet estava atendendo olhou para ele, engoliu em seco e afobou-se com as moedas na bolsa.
   - Esquea a canela. Levo da prxima vez.
   - Pego num instante - insistiu Linnet.
   A mulher olhou de novo temerosa para Simon, meneou a cabea e saiu apressada com as compras junto ao peito.
   Linnet contornou a mesa e confrontou-se com o cavaleiro.
   - Se no demonstrar mais simpatia, vai espantar meus clientes - protestou, ofegante.
   - Devia estar descansando.
   Ela suspirou, os olhos desesperados.
   - Mesmo que me deitasse, no conseguiria dormir. Se no tivesse o trabalho com que ocupar minha mente; enlouqueceria pensando no que aconteceu.
   - Tambm no tenho tido pensamentos animadores.
   - E o que se supe, vendo sua cara feia. - Linnet sorriu. - Pensei que estivesse furioso comigo.
   Simon deu de ombros, incerto quanto ao que sentia.
   Ela sugeriu:
   - Que tal levar essa braveza toda para outro lugar? Mesmo que Hamel aparecesse aqui, eu estaria segura entre meus clientes.
   - Duvido que essas donas de casa sejam capazes de deter o delegado.
   Linnet estremeceu e virou o rosto, mas no antes que Simon lesse o medo em seus olhos.
   - Ficarei bem.
   - Do mesmo jeito que teria ficado l perto da taverna na Hoser Lane se eu no tivesse interferido? No, ficarei at irmo Anselme chegar.
   Linnet olhou-o pesarosa e agradecida ao mesmo tempo.
   - Tinha me esquecido de que ele era o motivo de sua vinda.
   Simon tambm. E o fato o perturbava.
   - No quero lev-la  runa - declarou, tenso. - Vou para a cozinha. Qualquer problema,  s chamar que virei correndo.
   - Eu sei. Sempre vem.
   - Sempre?
   Mas Linnet j se voltara para atender outro cliente. Na cozinha, Simon encontrou Drusa esfregando o cho.
   - Ela o expulsou de l, no foi?
   - Foi. Disse que eu no sirvo para o comrcio.
   Sentou-se  mesa em que haviam jantado na noite anterior. Cus, era como se aquelas horas felizes tivessem acontecido sculos antes! De onde estava, podia ver
todo o laboratrio e a loja l na frente.
   - O senhor fica mesmo assustador quando est mal-humorado. - Drusa serviu-lhe uma caneca de cerveja e sentou-se a sua frente. - Est chateado porque o bispo morreu?
   - Ele no era nada para mim - replicou Simon, brusco.
   - O bispo Thurstan afetava a vida de todos em Durleigh. - Drusa bebericou sua cerveja.
   Simon no discordou.
   - E Linnet?
   A criada olhou-o por sobre a borda da caneca.
   - Se quer saber se ela era amante dele, a resposta  no. S quem no a conhece acredita nessas calnias.
   - Eu... no a conheo. - Ele tomou um grande gole de cerveja, o frio acalmando-lhe a garganta contrada. - Ela j  velha para no estar casada.
   - Vinte anos no  uma idade to avanada. Dedica-se muito ao aprendizado do oficio. - ela comentou que passou um tempo com as irms no convento de Blackstone.
   Incomodava-o o fato de Linnet ter estudado no convento em que ele nascera. Existiriam registros de seu nascimento? Com o nome de sua me, talvez? No se lembrava
do lugar. Suas recordaes mais antigas eram de uma manso e um casal de idade. Disseram-lhe que era o filho bastardo de uma criada e de um primo distante de lorde
Edmund. O fato de lorde Edmund t-lo educado e feito cavaleiro sustentou a histria.
   Mentira, tudo mentira.
   Acima de tudo, Simon odiava a mentira. Queria saber quem era sua me, se ela estava viva ou morta e, mais importante, que tipo de pessoa era, ou fora.
   - Sentimos falta de Linnet naquela poca - prosseguia Drusa. - Mas as irms ensinaram-lhe muita coisa. No existe boticria mais capaz em toda a Northumbria.
Tenho
medo que esses boatos vis arrunem o negcio e a reputao que ela custou tanto a criar. H na associao aqueles que se ressentem de seu sucesso. Homens invejosos.
   No s homens, pensou Simon, lembrando-se das acusaes malvadas da velha Nelda.
   - Por que ela no se casou com um outro boticrio? Um marido no mesmo oficio protegeria os interesses dela.
   - Tambm ficaria com todo o lucro do trabalho duro dela - desdenhou Drusa. - E uma moa independente, nossa Linnet. Alm disso, no existe um homem de quem ela
goste o bastante para suport-lo.
   Simon sorriu, divertido com as palavras da criada. A julgar pela reao de Linnet a seus avanos na noite anterior, ela gostava dele.
   - Alm disso, o corao dela ainda no cicatrizou...
   Simon deixou de sorrir.
   - O qu?
   - J amou algum certa vez - revelou Drusa. - Um cruzado da Rosa Negra, parece. Ficou doente quando eles partiram, e depois, com a notcia de que tinham morrido.
   Quem seria ele? Duzentos homens haviam partido de Durleigh na Cruzada. Jovens fazendeiros, lutadores de torneio cansados, ambiciosos terceiros e quartos filhos
vidos por fazer fortuna. Qual deles conquistara o corao de Linnet e ento partira para a morte? Incomodava-o a idia de que ela sofria por algum outro homem.
   - Acontece que, como ela no aceitava nenhum pretendente, o povo comeou a desconfiar de que j tinha algum - explicou Drusa. - Quando Hamel Roxby passou a atorment-la
e o bispo o advertiu...
   - O povo tirou a concluso errada. - Errada mesmo?
    por am-lo que me preocupo, Thurstan.
   Palavras de Linnet. Se haviam de fato sido amantes, ela talvez no tivesse contado  fiel criada.
   - Fechei para o almoo. - Linnet entrou na cozinha seguida por Aiken, que parecia esgotado.
   - Que manh! - queixou-se o aprendiz. - Minhas pernas e ps esto doendo.
   - E minhas costas... - Linnet arqueou o corpo ao atravessar o cmodo, aparentemente alheia  tentao que eram seus seios retesando-se contra o corpete do vestido.
   Simon desviou o olhar rpido, mas no antes que Drusa o surpreendesse admirando a patroa. Enrubescido, ele se levantou num pulo, oferecendo o lugar a Linnet.
   Sorrindo, ela se sentou, seu perfume de rosas ativando-lhe os sentidos.
   - Estou morrendo de fome - lamuriou-se Aiken. - Que tem hoje para comer?
   - Est sempre faminto. - Drusa correu  lareira. - Canja de galinha. - Ao abrir a tampa do caldeiro, um aroma delicioso impregnou a cozinha. - Tem po e torta
de carne, tambm. Fiz um pouco mais do que o normal, para satisfazer a fome de sir Simon e a do jovem Aiken.
   Simon franziu o cenho.
   - J jantei aqui ontem  noite. Permitam-me pagar pela refeio.
   - Ns lhe devemos, por salvar lady Linnet duas vezes.
   - Fiquei feliz em poder ajudar.
   - E ficamos felizes em servir-lhe o almoo - retrucou Linnet.
   - Obrigado. - Simon sentou-se, mas no relaxou. Era s erguer o rosto para seus olhos se deliciarem com a viso de Linnet. Apenas contemplar-lhe o belo rosto
o
perturbava sobremaneira.
   - Depois do almoo, irei at a hospedaria pegar mais cerveja - ofereceu-se Aiken.
   Linnet suspirou.
   - Tilly est sempre ocupada a esta hora do dia...
   - Eu sei. - O rapaz enxugou um gota de cerveja com o dedo. - Mas ao menos posso v-la.
   Linnet compreendia a agonia do aprendiz. Durante anos, alimentara sonhos com imagens de Simon. Todo segundo e quarto sbados de cada ms, ia ao campo de Stonebow
ver Simon e os outros cavaleiros de lorde Edmund treinando os homens da cidade no uso da espada e do arco, para o caso de Durleigh ser atacada.
   - Veja se no atrapalha - ralhou Drusa. - No quero que a senhora Elinore reclame de voc estar tirando Tilly do trabalho.
   - No precisa se preocupar - tranqilizou Aiken. - Ela mal me enxerga. Principalmente quando o delegado Hamel est por perto...
   Linnet sobressaltou-se.
   - No sabia que ele freqentava a hospedaria. - Espreitando-a em seu prprio quintal! Atitude intolervel, e assustadora...
   -  um abusado esse Hamel. Vive atrs de comida e cerveja grtis.
   Simon aceitou a tigela ofertada pela criada.
   - Fiquei surpreso ao saber que era o delegado.
   -  delegado temporrio desde janeiro - contou Linnet -, quando o delegado Turnebull foi assassinado durante a caada aos bandoleiros que infestavam as estradas
ao sul.
   - Se forem os mesmos que atacaram a mim e meus amigos, no vo mais causar problemas... a no ser no inferno.
   - Os cavaleiros os mataram?! - espantou-se Aiken, engolindo uma colherada de sopa.
   - Todos, menos um.
   Linnet tocou o brao de Simon.
   - No se sinta culpado, eram gente ruim, que assaltou e matou muitos mercadores. Aps a morte de Allan Turnebull, ficaram ainda mais ousados. Poucos atrevem-se
a viajar por essas estradas sem escolta armada.
   - Hamel no faz nada para captur-los?
   Linnet expressou desdm.
   - Diz que tenta.
   - Passa a maior parte do tempo em bravatas pela cidade, querendo se exibir - comentou Aiken. - Tem uma casa perto do mercado muito freqentada por mulheres, dizem
- completou, invejoso.
   - Bem, os bandoleiros no vo mais aterrorizar ningum - assegurou Simon. - S lamento ter deixado um escapar, ferido, mas vivo. Acho que o reconheci, da catedral
de Durleigh.
   - Um padre fora-da-lei?! - espantou-se Drusa.
   Aiken riu.
   - No sabia que aprendiam a lutar.
   Simon franziu o cenho. Talvez o bandoleiro fosse um estudante, no um padre. No conseguia lembrar-se de quando exatamente vira aquele rosto.
   - Eu o reconhecerei se nossos caminhos se cruzarem novamente.
   Aiken pousou a colher e inclinou-se para a frente.
   - E a batalha?
   - Foi curta e nada admirvel, pois os ladres no passavam de covardes - resumiu Simon. - Pensando bem,  estranho... Dizem que passaram o inverno todo roubando,
no entanto, eram tipos magros, esfarrapados, mal armados.
   - Quero ser cavaleiro! - exclamou Aiken, de repente. Linnet suspirou, mas mordeu a lngua. Foi recompensada por um olhar de soslaio de Simon. O sorriso do cavaleiro
aqueceu-a dos ps  cabea.
   -  uma vida dura e no to agradvel quanto cantam as baladas - advertiu Simon. - A menos que tenha sua prpria terra, tem que ficar  disposio dos outros.
   - Mesmo assim, no h nada mais elegante do que um homem em cota de malha.
   Linnet quase podia ouvir Tilly fazendo a afirmao.
   Simon contraiu os lbios.
   - Talvez amanh eu o deixe experimentar a minha, para voc ver como fica.
   - Verdade? - Aiken corou de emoo. - Posso chamar Tilly?
   - Insolente! - ralhou Drusa. - Acabe de jantar e deixe sir Simon comer em paz. Tilly, veja se pode...
   O resto da refeio transcorreu num silncio agradvel, que Drusa interrompia de vez em quando, oferecendo mais uma poro disso ou daquilo. Aiken repetiu os
pratos, claro, e s ento foi para a hospedaria. Drusa o acompanhou, com a desculpa de tomar ar e ver o que Elinore pretendia preparar para o jantar.
   Linnet percebeu, de repente, que estava sozinha com Simon. A cozinha parecia encolher-se, o ar carregado de possibilidades. Nervosa, recolheu as tigelas e levou-as
 pia.
   - Lamento que Aiken tenha se mostrado inconveniente. A verdade  que no deseja ser boticrio.
   - Pena. - Simon aproximou-se dela por trs. - Ele no tem compleio fsica para ser soldado. - Roou o brao no dela.
   Linnet paralisou-se, as tigelas ainda na mo. Sentia o sangue quente e a pele formigante.
   - As perguntas dele no me aborrecem - garantiu Simon. - A maioria dos rapazes da idade dele so fascinados por lutas e sangue.
   Palavras comuns. Concentre-se nelas. No o deixe perceber que a proximidade faz seu corao se acelerar.
   - Mostra-se bom com ele. - Pousando as tigelas, Linnet enxugou as mos num pano de prato. - No tem sido fcil, depois que papai morreu. - Com as mos trmulas
e a voz falha, lutava para controlar-se.
   - Aiken no aprecia receber ordens de uma mulher poucos anos mais velha do que ele.
   - Por que est to nervosa? - questionou Simon.
   - Por.. por nada. - Linnet voltou-se, j sem fala. Simon fitou-a fundo nos olhos.
   - Est escondendo algo. Vrios fatos.
   - No sei do que est falando.
   Ele estreitou os olhos, mais verdes do que cinzentos, agora.
   - Ontem  noite, eu a ouvi declarar a Thurstan que o amava.
   Linnet suspirou audivelmente, aliviada.
   - E amava. - Lgrimas brotaram em seus olhos, causando ardncia. - Era um amigo muito querido, e sentirei sua falta todos os dias de minha vida.
   - Era um mentiroso, um farsante.
   Linnet engoliu em seco, imaginando o que podia ter acontecido.
   - Ele lhe contou a verdade?
   - Deve referir-se ao fato de eu ser filho dele. - Simon estava ainda mais srio. - No. Quem me contou foi um padre que partiu conosco na Cruzada. Esperei trs
anos para confrontar-me com seu "amigo querido", para ouvir dos lbios dele que...
   - Voc o odiava - concluiu Linnet.
   - Por causa dele, toda a minha vida foi uma mentira. No sou filho do primo de lorde Edmund, como me disseram, mas o bastardo de um padre egosta e manipulador
que quebrou seu voto de castidade com alguma pobre criada.
   - Ele no era egosta. Era bom e gentil.
   - Ele quebrou seu pacto com Deus, violou minha me e nem sequer teve a decncia de me assumir.
   - Estou certa de que teve seus motivos.
   - Claro, proteger a reputao dele - grunhiu Simon.
   E a sua, completou Linnet, consciente de que o cavaleiro no estava disposto a ouvir nenhum elogio ao pai. A mgoa e o ressentimento o consumiam.
   - Quando se encontraram ontem  noite, disse-lhe o quanto o desprezava?
   - Eu disse a ele que sabia a verdade e exigi saber de minha me. Mas ele nada revelou.
   Provavelmente, estava em choque. Pensvamos que estivesse morto. Ele ficou to abalado quando recebeu a notcia! Teve um colapso e...
   - Provavelmente, temeu que eu arruinasse sua reputao.
   - Est errado a respeito do bispo. Ele o amava.
   - Tanto que me ignorou. - Simon deu meia-volta.
   Enfurecida, Linnet o segurou pelo brao e enfrentou de queixo erguido o olhar furioso do cavaleiro.
   - Idiota! Nem imagina como ele se sentia realmente!
   O restante das palavras zangadas morreu-lhe na garganta. Ao vislumbrar a dor sob o dio dele, desistiu de admoest-lo. O silncio tomou conta, mais pesado a cada
instante. Estava bem consciente da proximidade entre ambos, do calor do brao msculo atravessando a manga de l, da fora dos msculos contraindo-se sob a palma
de sua mo.
   Simon estreitou um pouco o olhar, a expresso passando da fria para algo ainda mais perigoso. Uma voracidade material que lembrava o beijo que haviam partilhado.
   Uma batida na porta dos fundos quebrou a magia do momento. Irmo Anselme enfiou a cabea pelo vo.
   - Cheguei em m hora?
   - No. - Linnet soltou o brao de Simon, consciente de que escapara por pouco da armadilha em que cara na noite anterior.
   Simon recuou um passo, soturno.
   - Descobriu alguma coisa, irmo?
   - Seus criados esto por aqui?
   A expresso reservada e a voz baixa de irmo Anselme provocaram um calafrio.
   Alguma coisa grave acontecera.
   - Foram  hospedaria, mas no sei quanto tempo vo demorar.
   - Vamos para o jardim, ento - sugeriu o monge. - Passei o dia todo na enfermaria.
   Linnet abriu caminho at o lado de fora, passando pelo portozinho que dava no jardim formado pelo pai de sua me. Tinha quase o mesmo tamanho da loja e cercava-se
de um alto muro de pedras que seu pai erguera para conter os porcos e galinhas que viviam soltos nos quintais. Um estreito caminho de cascalho separava os canteiros
circulares, com uma sorva no centro.
   Anselme curvou-se para pegar um ramo de manjerico. Aproximando-o do nariz, inspirou profundamente.
   Simon remexia-se impaciente.
   - Do que foi que Thurstan morreu?
   Anselme suspirou e deixou cair a erva.
   - No sei exatamente - declarou, a voz denunciando cansao.
   - Mas disse que no desistiria enquanto no descobrisse - protestou Linnet.
   - Oh, exame revelou tudo o que era possvel. Apesar disso, no tenho certeza do que aconteceu. Foram trs ocorrncias e qualquer uma delas pode ter-lhe tirado
a vida. - Anselme comeou a andar em crculos. - Conforme voc suspeitava, Linnet, ele estava sendo envenenado com acnito.
   - Acnito? - Simon franziu o cenho. - Pensei que fosse beladona.
   - J vou chegar l - retrucou Anselme. - Encontrei indcios de acnito na aguardente herbrea que ele tomava antes de se recolher.
   Linnet sentiu uma contrao no estmago. Anselme desconfiava de que Thurstan envenenara a si prprio? Sentou-se desolada na banqueta em que passara tantas horas
felizes com suas plantas.
   - Foi o acnito que o matou? - indagou Simon.
   - Enfraqueceu-o e acabaria matando-o - explicou Anselme. - Mas ele bateu a cabea.
   - Oliver acredita que foi na quina da escrivaninha.
   - E possvel, mas o corte  profundo. Como se ele tivesse sido empurrado, de modo que bateu com mais fora.
   - E foi isso que o matou? - indagou Linnet, esperanosa.
   - Talvez. O problema  que encontrei uma outra evidncia. Beladona, que ele foi obrigado a ingerir.
   Linnet estremeceu.
   - Obrigado?
   - Exatamente. - Anselme uniu a ponta dos dedos, o cenho franzido. - Agora, entendem por que a causa da morte dele permanece um mistrio.
   Simon aquiesceu.
   - Qualquer dessas trs possibilidades pode t-lo matado. Se bem que o acnito teria levado mais tempo...
   - Algum queria que o bispo Thurstan tivesse uma morte lenta e dolorosa - concluiu Anselme. - Ao mesmo tempo, outra pessoa o ataca, talvez num acesso de fria.
   Estaria Simon furioso o bastante para agredir o pai? Linnet olhou detidamente para o cavaleiro.
   Simon contemplava o jardim, o cenho franzido, a expresso compenetrada. Nada restava do homem que estivera em sua cozinha minutos antes, o rosto corado de raiva,
os olhos flamejantes de dio pelo homem que o gerara. Nem do cavaleiro que a beijara to apaixonadamente na noite anterior.
   Simon dirigiu-se ao monge.
   - E a beladona?
   - Tenho uma teoria complexa. Talvez o assassino do acnito tenha ficado impaciente e recorrido  beladona.
   - Podem tambm no ter relao alguma entre si - considerou Linnet.
   - O que acha o arquidicono? - perguntou Simon.
   - Ainda no lhe falei do acnito. At agora, s ns trs e o proco sabemos.
   Linnet torcia as mos no colo. Tinha na loja registros de venda de acnito ao bispo Thurstan. Se fossem descobertos, imediatamente seria julgada culpada. Deveria
fraudar os registros?
   - Eu no poderia ter administrado o acnito - defendeu-se Simon. - S cheguei ontem.
   - Com efeito. - Anselme suspirou. - Temo que o arquidicono j esteja espalhando a teoria de que voc e Linnet agiram juntos.
   Linnet engoliu em seco, horrorizada com o fato de Crispin ter adivinhado parte da verdade. Se se tornasse a pblico que ela e Simon foram amantes, que ela dera
 luz uma filha dele, para a qual Thurstan providenciara uma famlia...
   -  mentira! - indignou-se Simon.
   - Calma, meu filho - urgiu Anselme. - O proco e eu no acreditamos nisso. O arquidicono est ansioso para se mostrar  altura de envergar o barrete do bispo
solucionando o caso rapidamente. Vocs dois so os suspeitos mais provveis. Foram os ltimos a ver o bispo com vida.
   - E lady Odeline? - lembrou Simon, rspido.
   - Afirma que o irmo j estava cado quando o encontrou - disse o monge. - Alm disso, tinha mais motivos para quer-lo vivo do que morto. J Linnet  uma boticria
que conhece a fundo ervas e venenos. E voc  um cavaleiro, Simon, um homem treinado para resolver os problemas de maneira violenta, bem como o filho que Thurstan
jamais assumiu.
   - Crispin sabe disso? - indagou Simon.
   - No, mas se descobrir...
   - Seremos presos e enforcados em seguida. - Simon suspirou e passou a mo pela testa. - Um homem como Thurstan devia ter muitos inimigos.
   - Ningum gostava dele - concordou Anselme. - Mas ele tambm no brigava abertamente.
   - Irmo Oliver comentou que Thurstan tinha tido um dia difcil - lembrou Linnet. - Talvez tivesse discutido com algum mais cedo, e essa pessoa voltou para confrontar-se
com ele.
   - Boa teoria - considerou Anselme. - O proco Walter vai interrogar todos os que moram dentro das paredes da catedral para saber se viram ou ouviram algo. Se
estivesse
vivo, Allan Turnebull falaria com as pessoas que costumavam visitar o bispo. Tratando-se de Hamel Roxby, porm, receio que estrague tudo com sua rudeza e arrogncia.
   - Caso se mostrasse disposto - replicou Simon, desgostoso. - Hamel adoraria me ver enforcado por esse ou qualquer outro crime.
   Linnet sentiu o sangue gelar ao considerar o dio maligno do arquidicono e a falta de escripulos de Hamel.
   - O que vamos fazer?
   Surpreendendo-a, Simon postou-se o lado dela.
   - Podemos ajudar a encontrar o assassino. D-me uma lista com os nomes dos que tinham desavenas com o bispo e descobrirei o culpado.
   - No duvido, s que o arquidicono no vai gostar nada dessa iniciativa. - Anselme foi at o canteiro de manjerico e voltou. - Vou pedir a opinio do proco
Walter. Se ele permitir, pegarei com irmo Oliver uma lista das pessoas que estiveram com Thurstan ontem.
   - Obrigado, irmo.
   - Entrarei em contato amanh. Apenas uma advertncia, sir Simon: para o povo de Durleigh,  um forasteiro. Talvez comentem ainda mais se o virem com Linnet. Mas
eu ficaria mais tranqilo se ela no ficasse sozinha at o caso estar esclarecido.
   Simon anuiu e olhou para a jovem boticria.
   - Creio, ento, que somos parceiros nesta terrvel empreitada.
   Que Deus nos ajude, rogou Linnet.

   - Mas o que  que eles esto falando? - rugiu Jevan, colrico.
   Apertando os olhos contra o sol, Rob FitzHugh observava da janela do primeiro andar da hospedaria Royal Oak para o trio no jardim do boticrio.
   - No d para saber.
   O boticrio ficava a uns trezentos metros de distncia, do outro lado de um grande terreno cheio de mato. Apesar do ponto de vista privilegiado, s conseguia
ver o topo das cabeas por sobre o muro de pedra que cercava o jardim.
   - Tenho que descobrir o que Ele est planejando!
   De que jeito? Ante a expresso feroz de Jevan, Rob mordeu a lngua. Nunca vira algum to enfurecido. Jevan rosnava como um co raivoso, os olhos flamejantes,
os dentes cerrados.
   - Posso me esgueirar at l quando escurecer e enterrar meu punhal entre as costelas dele - sugeriu Rob, calmo.
   O sorriso de Jevan era to maligno quanto seu olhar.
   - Idia tentadora, mas a ser executada com planejamento. Por ora, quero que faa um relatrio das idas e vindas de Simon.
   - Hamel j colocou Ellis de guarda.
   - Que perspicaz...
   Rob deu de ombros, fazendo uma careta ao repuxarem os pontos que a velha Nelda lhe costurara no ombro ferido.
   - Devo isto a Simon de Blackstone. A velha Nelda disse que no vou poder usar meu brao por um bom tempo. Se  que um dia voltarei a usar...
   - Ele vai pagar por isso, mas ter que ser do meu jeito, entendeu?
   Rob suspirou.
   - Vou vigi-lo de perto, pode acreditar.


   CAPITULO 7

   Algum os observava. A sensao provocava arrepios em Simon. Desviando a ateno de Linnet e Anselme, ele esquadrinhou o jardim. Mesmo as ervas mais altas mal
esconderiam algo maior do que um gato.
   - Pedirei a irmo Oliver uma lista com os nomes dos visitantes de Thurstan - finalizava o monge. - Deverei t-la no meio da tarde, na enfermaria.
   - Obrigado, irmo.
   Simon olhou para o terreno baldio nos fundos da hospedaria, detendo-se nas janelas dos quartos. No pequeno sto sob as telhas, detectou um movimento.
   Um rosto plido no quadrado escuro. Logo desapareceu, furtivamente, como se a pessoa houvesse recuado ao perceber que fora descoberta.
   Seria a criada Tilly pegando alguma coisa no depsito? Ou algum vigia plantado por Hamel?
   Simon convidou Linnet e o monge a precederem-no para fora do jardim.
   - Ns o acompanharemos at a porta.
   Antes de entrar na cozinha, voltou-se mais uma vez, atento  hospedaria.
   De novo. Um rosto na janela do sto. Simon entrou na cozinha, trancou a porta e correu ao encontro de Linnet na loja, despedindo-se de Anselme. Havia pouco movimento
na rua, duas mulheres com cestos cheios, um homem vendendo tortas, uma carroa puxada por um jumento. Na calada oposta, um mendigo sentava-se de pernas cruzadas
diante de uma loja de especiarias concorrente. Ao menos, supunha-se que fosse um mendigo.
   - Obrigada por nos trazer as informaes - agradecia Linnet. - Espero que no desperte a ira do arquidicono por nossa causa.
   - Ele anda ocupado pondo ordem na diocese - replicou Anselme, triste. Olhou para Simon. - Tomem cuidado, vocs dois.
   - Pode deixar. - Simon fechou a porta e trancou-a.
   Linnet parecia plida no corredor mal iluminado.
   - Qual o problema?
   Simon hesitou. No era de seu feitio assustar uma dama, mas Linnet era determinada. At demais, na verdade, e no vacilaria em aventurar-se sozinha, expondo-se
a perigos.
   - Estamos sendo vigiados.
   Ela arregalou os olhos.
   - Hamel!
   - Acho que o mendigo no outro lado da rua  um homem de Hamel. No  magro o bastante, e suas botas no tm furos na sola. - No comentaria sobre a movimentao
suspeita na hospedaria at confirm-la. - Preciso ir ao castelo falar com uma pessoa.
   Seria estranho no contar com Nicholas, Guy e os outros naquele momento. Esperava que o chefe da guarda do castelo Wolfsmount lhe cedesse alguns homens para proteger
o boticrio, para o caso de Hamel tentar invadir o estabelecimento.
   Mas o que faria com Linnet? Imediatamente, pensou em Warin Selwyne. Haviam tomado uma cerveja juntos na noite anterior, quando o estalajadeiro lhe parecera honesto
e franco. Warin no emprestaria ao delegado um quarto de cuja janela poderia espionar Linnet. S podia tratar-se da criada Tilly, vida por mexericos.
   - Quero que me espere na hospedaria com Elinore.
   Linnet cerrou os dentes.
   - Ficarei bem aqui.
   - Hamel pode estar s esperando eu sair para entrar e interrog-la.
   Ela estremeceu e amoleceu os ombros.
   - Est bem.
   Simon sentiu um impulso forte de abra-la, confort-la. Controlando-se, acompanhou-a at os fundos.
   - Vai se sentir segura com os Selwyne?
   - Claro que sim. - Linnet olhou-o aflita. - No  perigoso voc ir sozinho?
   Simon disfarou um sorriso.
   - No se preocupe.
   Atravessaram o terreno baldio e logo viram-se na cozinha da estalagem. Elinore e Drusa fatiavam cebolas.
   - O que aconteceu? - indagou a hospedeira, largando a faca.
   - Nada. - Simon fechou a porta. - Estou a caminho do castelo Wolfsmount, para contar aos velhos companheiros que voltei dos mortos, e achei que seria mais seguro
deixar Linnet aqui.
   Elinore deixou de sorrir.
   - Mas no  s isso...
   Linnet fitou Simon desolada e suspirou.
   - No. Parece que Hamel colocou um espio diante da loja.
   - Fez bem em traz-la para c - aprovou Elinore.
   - Hamel no tentar nada com meu Warin, no se quiser mesmo ser o delegado. Warin  conselheiro municipal.
   - Ele me contou, ontem  noite. - Simon sorriu para Linnet. - Volto em uma hora. Mas vou entrar e avisar Warin que voc est aqui.
   - No  preciso - declarou Linnet.
   - , sim.
   Fitaram-se nos olhos por um segundo, e Simon compadeceu-se ante o turbilho de emoes que avassalava a jovem boticria. No importava o que ele sentia em relao
a Thurstan, ela perdera um amigo e era suspeita de assassinato. Devia estar se sentindo s e amedrontada. Aos poucos, dava-se conta de que no era s seu instinto
inato por proteger que o assustava. Gostava de Linnet.
   Cus, como era idiota!
   Desgostoso, Simon atravessou a porta que dava na sala da hospedaria, mas deu meia-volta ao lembrar-se de algo.
   - Elinore, gostaria de ficar de olho no boticrio. Posso me mudar do meu quarto para o sto? De l, tem-se uma vista melhor dos fundos.
   - Oh, receio que esteja ocupado.
   - Por quem?
   - Por Jevan le Coyte, o sobrinho do bispo. Ele estuda para ser sacristo, mas no suporta os padres com suas regras rgidas. - Elinore deu uma piscadela. - Sabe
do que estou falando.
   - Sei. - Simon no se surpreenderia se o sobrinho de Thurstan ignorasse as regras da igreja  sua convenincia, a exemplo do bispo morto. - Um rapaz to bem-apessoado
deve fazer sucsso com as moas.
   - A me no desgruda dele - comentou Linnet.
   - Parece que passeiam juntos todos os dias junto ao rio.
   - Sabia que Olf fugiu? - indagou Elinore.
   -  filho da velha Nelda - explicou Linnet. - Thurstan o contratou para cuidar dos jardins.
   - Por que o bispo contrataria o filho de uma mulher que o odiava?
   - Por pena - esclareceu Linnet. - No podia fazer vista grossa aos abortos que a velha Nelda realizava nos fundos de sua loja, principalmente depois que uma das
pacientes quase morrera. O arquidicono Crispin queria que a enforcassem. Thurstan poupou-lhe a vida, mas expulsou-a da cidade.
   Simon franziu o cenho. O ato piedoso no combinava com o bispo, conhecido por sua ganncia e falta de escrpulos.
   - Volto o mais rpido que puder.
   Com um sinal de cabea para Linnet, atravessou o corredor curto e escuro que ligava a cozinha  sala da hospedaria, que tomava toda a frente do prdio.
   No meio do corredor, havia uma porta que dava para fora. Do lado oposto ficava a escada que conduzia aos quartos. Elinore comentara que aquela porta permanecia
trancada  noite, para segurana dos hspedes. Pensou em subir e ver se Jevan estava em seu quarto, mas achou melhor no precipitar os acontecimentos e prosseguiu
para a sala.
   A sala da hospedaria media cerca de seis por doze metros, tinha as paredes caiadas de branco e o cho de pedra j bem gasto. A luz entrava pelas quatro janelas
que davam para a rua e o fogo crepitava na imensa lareira junto  parede comum  cozinha. O movimento era fraco quela hora do dia. Apenas trs das doze mesas estavam
ocupadas. No bar do outro lado da sala, dois homens conversavam com Warin.
   -  Vejam quem chegou! - exclamou o hospedeiro. Os dois homens voltaram-se. Simon pousou a mo na espada, mas ento os reconheceu e sorriu.
   - Gaspare. Piers.
   Gaspare le Vrise atravessou a sala a passos largos e envolveu Simon num forte abrao.
   - Que bom v-lo vivo, meu amigo!
   - Acho que no vou durar muito - brincou Simon, dando uma piscadela para Piers. Alto e mais magro do que o amigo do peito, o moreno Piers du Bonheur desmanchou-se
num sorriso.
   -  uma alegria rev-lo, meu amigo! - Simon desvencilhou-se do brao pesado de Gaspare e sorriu para os dois cavaleiros que serviram com ele na guarda do castelo
Wolfsmount.
   -  bom estar de volta.
   - Quem mais voltou? - quis saber Piers.
   - Ningum que tenha servido conosco no castelo - lamentou Simon. - Mas devem conhecer Hugh de Halewell e Nicholas de Hendry.
   No falou de Guy. No sabia o que lorde Edmund faria com o filho que jamais soubera ter gerado.
   - Vamos tomar uma cerveja! - Gaspare deu-lhe um tapa nas costas. - Queremos saber tudo o que lhe aconteceu l na Terra Santa...
   - Contaria com prazer, apesar das poucas glrias na lamentvel misso, mas estou com pressa.
   - O que aconteceu? - indagou Piers. Simon olhou ao redor e conduziu os amigos  mesa mais isolada. Quando Warin chegou com trs canecas de cerveja, pediu-lhe
que
se juntasse ao grupo. Os taverneiros costumavam estar a par do que se passava na cidade.
   - Trouxe problemas do Oriente? - perguntou Gaspare.
   Simon negou.
   - J sabem que o bispo morreu?
   Os homens confirmaram. Todos os trs, a quem Simon respeitava, pareciam sinceramente pesarosos.
   - William FitzAllen enviou um mensageiro atrs de lorde Edmund para inteir-lo da tragdia - comentou Piers. - Mas talvez o lorde no comparea ao funeral. Tem
negcios importantes em Calais.
   Boa desculpa, pensou Simon. Considerando a desavena que sempre existira entre os dois poderosos, imaginava se lorde Edmund lamentaria de fato a morte do bispo.
   - William FitzAllen ainda  mestre dos cavalos em Wolfsmount?
   - No, agora  chefe da guarda. - Gaspare riu.
   - Anda mais convencido do que um rei. Simon suspirou.
   - Tinha esperana de recrutar temporariamente alguns homens da tropa do castelo, mas William no vai querer me ajudar.
   - Ele nunca se esqueceu de que o sobrepujou no torneio de Natal h cinco anos - confirmou Gaspare.
   - Para que precisa dos homens? - indagou Piers.
   - Para montar guarda em um lugar. - Embora no houvesse ningum por perto, Simon inclinou-se para os companheiros e os fez jurar segredo antes de lhes contar
que
Thurstan podia ter sido assassinado.
   - Irmo Anselme ainda no sabe do que foi que ele morreu, mas Crispin Norville est desconfiado de mim e de Linnet Especer, a boticria, pois fomos as duas ltimas
pessoas a ver o bispo com vida.
   Gaspare franziu o cenho.
   - Mas isso  ridculo! Por que um dos dois iria querer matar o bispo?
   - Por motivo algum - reforou Simon, aliviado por ningum ali saber de seu tormento pessoal. - Mas o arquidicono parece ansioso em se afirmar solucionando o
crime
sem delongas.
   Gaspare emitiu um rosnado.
   - Idiota santarro! Para ele, tudo que no seja reza  pecado. Se ele se tornar bispo, a vida aqui ficar insuportvel.
   - Thurstan dirigia a diocese como um tirano - lembrou Simon. - At lorde Edmund queixava-se dos excessos do bispo.
   - Com efeito, Thurstan tinha idias radicais, mas que Deus Lhe conceda a paz. - Warin fez o sinal da cruz. - Nunca conheci homem mais determinado, e com isso
a
maioria dos cidados concordar. Foi graas a sua fora de vontade e capacidade de viso que Durleigh cresceu tanto. Alm,  claro, da eficiente tropa de lorde Edmund.
   - Lorde Edmund concordaria - garantiu Piers. - Desaprovava os mtodos do bispo, achava-o arbitrrio, intrometido e muito mais, mas fora o trabalho conjunto dos
dois que tornara Durleigh to prspera.
   Quanto a isso, nem Simon podia discutir. A cidade crescera consideravelmente nos quatro anos em que estivera afastado.
   - Bem, quer o arquidicono se torne bispo, quer no, meu problema imediato  limpar meu nome. O proco Walter est encarregado da investigao pela igreja, mas
Hamel Roxby tambm anda atrs de pistas.
   - No existia uma rixa entre vocs dois? - recordou Piers.
   Simon confirmou.
   - Ele no gostou nada de me ver de volta.
   - E andou cercando Linnet - completou Warin.
   - Parece que ela era amante do bispo - murmurou Simon.
   - Boatos sem fundamento espalhados pelo arquidicono - assegurou Warin, irritado. - Ela  muito amiga de minha mulher e garanto que s havia amizade entre Linnet
e Thurstan.
   Simon gostaria de ter tanta certeza disso. Queria acreditar em Linnet, mas sentia que ela lhe mentia.
   - Acham que FitzAllen me emprestaria alguns homens?
   - S se no soubesse que seriam para voc - replicou Gaspare.
   - Estamos com poucos homens no momento - acrescentou Piers. - Quatro cavaleiros e cinqenta soldados acompanharam lorde Edmund a Londres. Ontem, lady Isabella
requisitou mais vinte homens para acompanh-la e a sir Guy atrs do pai.
   Simon suspirou. Guy deixara um bilhete informando que estava a caminho de Londres com a enteada de lorde Edmund. No poderia contar com ele, mas esperava que
Nicholas parasse um pouco de namorar e voltasse  hospedaria.
   - Posso lhe emprestar meus dois soldados. - Piers indicou o par a uma mesa junto  porta. - So fortes e espertos.
   Pareciam lutadores veteranos, de ombros largos, rostos maltratados e olhos atentos.
   - Obrigado, meu amigo. Pagarei as refeies deles,  claro, mais duas moedas a cada um por cada dia que me servirem.
   Ao deixar a hospedaria com os dois novos guardas, Simon ergueu o olhar e viu o rosto de Jevan le Coyte na janela do sto. quase acenou ao primo. Primo. Jevan
e Odeline saberiam do parentesco com ele? Claro que no, concluiu. Thurstan com certeza escondera da famlia o seu pecado.

   De p, no laboratrio, Linnet olhava com uma ruga na testa atravs da porta para os dois soldados que devoravam a sopa de carneiro  mesa de sua cozinha.
   - Isto  ridculo!
   - Concordo - lamentou Simon. - Jamais devia ter-lhes oferecido duas moedas por dia mais as refeies.
   - Falo de mant-los aqui - esclareceu Linnet. - Onde  que vo dormir?
   - No cho, um encostado na porta dos fundos, o outro na da frente. Warin emprestou sacos de dormir.
   - Vo atravancar o caminho o tempo todo.
   - Um vigiar a loja, o outro, o jardim.
   - Vo espantar meus clientes.
   Simon sorriu.
   - Talvez at atraiam mais moas...
   -  to autoritrio quanto o bispo Thurstan - protestou Linnet. - Dando ordens o tempo todo.
   Simon enrijeceu-se.
   - No sou nada parecido com ele.
   Oh, , sim! Aps tantos anos analisando Simon, como teria deixado de notar que seus olhos, mais verdes do que cinzentos, tinham o mesmo formato dos de Thurstan?
O queixo quadrado e arrogante tambm era idntico. Sem falar no ar autoritrio.
   - Agora que coloquei Jasper e Miles para ficar de olho em voc, posso ir ao encontro de irmo Anselme - concluiu Simon, satisfeito.
   Maldito. Tinha a mesma compulso de Thurstan para proteger aqueles que considerava mais fracos. Pois no era nenhuma fracote!
   - Tambm vou, com ou sem voce.
   Confirmando a deciso, Linnet pegou sua capa, chamou o aprendiz Aiken para trancar a porta e seguiu para a rua, com Simon resmungando em seus calcanhares.
   O mendigo continuava sentado na calada oposta. Sobressaltou-se ao v-los deixar a loja. Linnet captou o brilho nos olhos flamejantes cravados no rosto sujo.
   - J o vi com Hamel - sussurrou a Simon, seguindo pela rua.
   Simon anuiu e tomou-lhe o brao gentilmente ao acompanh-la.
   A sensao da palma da mo grande em seu cotovelo provocava-lhe arrepios. Tinha a boca seca e o corao aos pulos. Tentou manter em mente que o cavaleiro apenas
mostrava-se corts. No obstante, reparando nos outros casais passeando de brao dado ao crepsculo vespertino, era impossvel no desejar que ela e Simon estivessem
namorando.
   - Por aqui, rpido. - Simon a conduziu a uma rua dominada por ferreiros. O ar pesava com o cheiro de metal incandescente e a fumaa do fogo que os homens usavam
para verg-lo a sua vontade.
   - Pensei que esta rua levasse ao porto do castelo - comentou Simon, irritado ao pensar que errara.
   - E leva - informou Linnet. - Durleigh cresceu tanto que muitos quintais vazios nos fundos dos prdios encheram-se de casas e lojas. Conheo um atalho por aqui...
   - Ao lado de uma padaria havia um beco... - Aqui.
   Simon olhou por sobre o ombro antes de tomar o caminho estreito.
   - Que lugar barulhento - resmungou.
   O beco estava enlameado devido s chuvas recentes, ladeado por precrios barracos de madeira apoiados uns nos outros. Das fendas nas paredes escapavam choro de
crianas e odor de comida estragada.
   Linnet tapou o nariz e passou correndo. S voltou a respirar quando chegaram a Spurrier Gate. Os fabricantes de esporas j haviam fechado suas oficinas, mas vrios
aglomeravam-se na taverna da esquina. Sujos, atarracados, bebiam cerveja e contavam histrias sentados em bancos, alguns ainda com o avental de couro.
   - No costumo andar por estes becos, mas quando preciso dou graas por ter na~cido quem e o que sou.
   Simon aquiesceu enquanto desciam a rua.
   - Vi cenas piores no Oriente, pobreza, doenas, desesperana, mas encontrar isso em casa  muito pior. - Apertou a mo no brao dela. - No devia andar por estes
caminhos. A gente que mora aqui a mataria s para trocar suas roupas por comida.
   - Se quiserem comida, basta irem at o albergue. Sopa e po nunca faltam l, e so de graa.
   - Quem faz essa caridade?
   Linnet olhou-o de soslaio, querendo ver sua reao.
   - O bispo Thurstan convenceu os comerciantes a pagar a reforma do prdio e a reposio constante dos estoques de alimentos.
   Simon no disfarou a admirao.
   - Mas como foi que ele conseguiu isso?
   - No sei. Parece que alguns comerciantes reclamaram um pouco, sabe como so apegados ao dinheiro...
   - Teria algum deles guardado rancor contra o bispo por causa disso?
   - Talvez, mas o albergue est aberto h dois anos, j...
   Sem aviso, Simon tirou Linnet da rua, encostou-a na porta de uma loja fechada e postou-se de costas para ela, a mo no cabo da espada.
   - O mendigo nos seguiu? - indagou Linnet.
   - Acho que o despistamos, mas vamos esperar um pouco aqui para termos certeza, antes de prosseguir.
   - Est bem.
   Linnet admirou as costas largas do cavaleiro, os ombros musculosos sob o tecido da tnica. Parecia um rochedo, slido, invencvel. No entanto, sabia que a fachada
de guerreiro escondia uma alma solitria, ferida. Ele crescera sem o afeto por que todas as criaturas anseiam. Sentiu uma vontade imensa de abra-lo, oferecendo-lhe
o blsamo de seu amor, a verdadeira cura. Quase podia lembrar-se de como era ser abraada por ele, ver o homem frio e contido render-se  paixo. Por ela.
   - Linnet?
   Ele olhou por sobre o ombro. As emoes turbulentas dela deviam estar transparecendo, pois o olhar dele mudou. Ante a voracidade masculina, Linnet sentiu a boca
seca e o corao na garganta. Todo o seu corpo aquecia-se com um fogo conhecido, reavivando a sensao de estar nos braos de Simon e unir-se a ele da forma mais
ntima que duas pessoas podiam conhecer.
   -  melhor irmos - decidiu ele.
   Pesarosa, Linnet o seguiu.
   Os portes da catedral estavam fechados, mas o porteiro de planto os abriu prontamente.
   - Irmo Anselme est a sua espera e me mandou lev-los direto ao herbrio.
   - Conheo o caminho - declarou Linnet, dispensando o porteiro.
   Aliviada por no ter que entrar na enfermaria, Linnet conduziu Simon at os fundos do prdio, at a pequena construo de pedra no jardim de ervas. A tranqilidade
e o familiar aroma das ervas a envolveram, acalmando seus nervos em frangalhos.
   -  to repousante aqui que at nos esquecemos que existe mal no mundo - comentou Simon.
   - Como seus pensamentos se parecem com os meus...
   Ele abrandou um pouco a seriedade no rosto anguloso.
   - E isso acontece com incrvel regularidade.
   -  mesmo. - Linnet sorriu, enternecida com o carinho do cavaleiro.
   Ambos ficaram srios quando irmo Anselme abriu a porta.
   - Ah, at que enfim chegaram!
   - Lamento que tenha tido que esperar.
   Entraram na construo. A princpio, parecia uma sala pequena toda atravancada, com prateleiras ao longo das paredes e ervas pendendo das vigas. Mas era um aposento
impecavelmente limpo, bem como a mesa de trabalho no centro da sala.
   - No, vocs foram pontuais. - Anselme olhou para irmo Oliver, sentado numa banqueta perto da Lareira de canto. - E que estamos todos um pouco tensos.
   Irmo Oliver ergueu o rosto banhado de lgrimas.
   - No posso acreditar que ele tenha partido.
   - Sim, eu sei. - Anselme pousou a mo no ombro do clrigo. - E nosso dever pegar o assassino. Preparou a lista com os nomes de quem esteve com ele naquele dia?
   Oliver aquiesceu e tirou da manga um pergaminho enrolado.
   - Trouxe tambm as anotaes dele sobre as visitas. Anselme levou os documentos at a mesa de trabalho, desenrolou-os e prendeu as pontas com potinhos. Todos
achegaram-se
para ler o contedo das listas.
   - Ele recebeu todas estas pessoas num dia? - estranhou Simon.
   - Recebeu - confirmou Oliver. - Tinha muitos compromissos.
   - Mas o meu nome e o de lady Linnet no esto aqui. Oliver fungou.
   - Vocs no marcaram audincia.
   - Mais algum apareceu de surpresa naquele dia?
   - Lady Odeline chegou ao meio-dia e almoou com ele.
   - Hum...
   Oliver contraiu os lbios.
   - Ela no seguia o bom exemplo de nosso bispo e da condessa Catherine. Envolveu-se num escndalo aps o outro. Fugiu com um mandrio bbado que perdeu toda a
fortuna
dela no jogo e morreu quando Jevan era pequeno. Teve casos com homens casados. - Volveu os olhos ao teto. - O ltimo namoro foi com o tio do rei, pelo qual acabou
sendo expulsa da corte em desgraa. Se o bispo Thurstan no tivesse tido piedade da irm, ela e o filho teriam morrido de fome.
   Simon anuiu.
   - Ela parecia preocupada com o futuro.
   - No  para menos - resmungou Oliver. - O novo bispo no a admitir no palcio, nem pagar os estudos de Jevan.
   - No tinha motivos para desejar a morte do irmo, ento - concluiu Simon. - Ele esteve com mais algum que no consta nesta lista?
   Oliver franziu o cenho.
   - Passou uma hora no jardim com Olf.
   - Soube que o jardineiro sumiu - adiantou-se Simon.
   -  um ignorante e assustou-se com o interrogatrio de irmo Crispin - explicou Anselme. - Jamais faria mal a Thurstan.
   Simon olhou para o homem mais velho.
   - Soube que a me dele tinha desavenas com o bispo. Pode ter usado Olf para mat-lo.
   Oliver fungou.
   - Olf nunca teve permisso para entrar no palcio. O porteiro de planto o teria impedido.
   - Entendo.
   Mas Simon ainda considerava a velha Nelda suspeita. Guiando-se pela lista de Oliver, perguntou qual era o assunto que cada visitante viera tratar com o bispo.
Pegando pena e tinta, anotou observaes ao lado dos nomes.
   To prtico e eficiente, pensou Linnet, admirando o raciocnio lgico e rpido do cavaleiro, embora sua falta de emoo a perturbasse. Queria tanto fazer Simon
enxergar como estava equivocado com relao ao pai! Por qu, no sabia. Talvez por ser testemunha do amor de Thurstan pelo filho ilegtimo.
   - Obrigado, irmos. - Simon ps a lista de lado.
   - O que conseguiram apurar junto aos padres, estudantes e leigos?
   - No descobri nada - replicou Walter.
   Simon fitou o proco, tentando ler atravs de seus olhos.
   - Algum que morasse dentro das paredes da catedral teria tido fcil acesso  aguardente do bispo. Talvez um padre rancoroso, ou invejoso de seu posto...
   Como Crispin. Ou o prprio proco. A idia era arrepiante.
   - No consigo imaginar um padre cometendo assassinato - declarou Walter. - Quase todos estavam jantando na hora do ataque.
   Simon encarou-o friamente, mas sem deixar transparecer no rosto bem treinado as suas desconfianas.
   - Se descobrirem algo, mandem me chamar na hospedaria Royal Oak. Pela manh, visitarei as pessoas que estiveram com o bispo.
   - Ns visitaremos - corrigiu Linnet, o queixo erguido.
   Mulheres independentes!, irritou-se Simon. Mas no era essa caracterstica que destacava Linnet das outras? Olhando-a nos olhos, encantou-se com a letal combinao
de beleza, fora e honra que era Linnet Especer.
   Sentindo o corao aos pulos, o cavaleiro enfrentou o encantamento com mais determinao do que se estivesse diante de um oponente armado, pois as armas de uma
mulher eram mais perigosas do que ao. No ~e apaixonaria, jurou a si mesmo, pois paixo e loucura andavam de mos dadas.


   CAPTULO 8

   - No consegui encontrar o dirio - informou Odeline.
   Jevan olhou-a consternado.
   - Prometeu.
   - Eu sei. Desci l e procurei assim que os guardas do proco se foram.
   Odeline andava para l e para c defronte  lareira em seu quarto, no segundo andar do palcio. No era to requintado quanto aquele que ocupara na corte, mas
l fora a amante do tio do rei. Ali, era apenas a irm do bispo. Um estorvo, que Thurstan mal suportava. Deus, como odiava estar naquela situao!
   Est tudo acabado agora. Ele nunca mais a far sentir-se pequena e indigna, pensou, concentrada nas brasas que brilhavam e retorciam-se, como figuras torturadas
pela dor. Almas condenadas ao inferno. Sua alma, pagando pelo pecado de assassinato.
   No, fora um acidente. No o matara. O irmo estava vivo quando o deixara. Tivera um ataque e...
   - Talvez esteja com irmo Walter.
   - O qu? - Arrancada aos devaneios aflitos, Odeline voltou-se para o filho. - Vi, do topo da escada, quando os homens dele saram s com as garrafas e clices
de Thurstan.
   O que menos desejava era desentender-se com o astuto proco.
   Jevan arregalou os olhos.
   - Para qu? Do que suspeitam? Odeline sentiu um calafrio na espinha.
   - No se sabe se Thurstan foi atacado ou se caiu acidentalmente e bateu a cabea.
   - Acham que foi assassinado?
   - No se sabe se foi assassinato - replicou Odeline, indesejosa de confiar seu segredos mesmo ao filho. - A senhora Linnet foi a ltima pessoa a ver Thurstan
com
vida. Se a suspeita recair sobre algum, ser sobre ela. - No sobre mim. Ningum desconfiava da despojada irm do bispo.
   Jevan aquiesceu, mas manteve o olhar duro. Mostrava-se aflito e desesperado desde que foram expulsos da corte. Era culpa dela terem sido privados da vida de diverso
e privilgios que ambos adoravam. E, se uma mancha na alma era o preo para acertar a vida do filho, ela o pagaria.
   - Sei que ele escondeu a escritura no dirio - rosnou Jevan. - Se no a encontrarmos antes da leitura do testamento de Thurstan, Blackstone Heath ir para a igreja.
   - Fale mais baixo! - advertiu Odeline, sacudindo-o pelos ombros. Surpreendeu-se ao sentir msculos sob a pele e, triste, convenceu-se de que seu menino j era
quase um homem, de certa forma. - Ningum pode saber que lucraramos com a morte de seu tio.
   - Vamos encontr-la.
   - E se no encontrarmos? - Jevan desvencilhou-se e olhou-a furioso. - E se ele a entregou a Simon?
   Odeline engoliu em seco.
   No tinha pensado nisso...
   Com o cenho franzido, vasculhou a memria. Thurstan ficara chocado com a volta de Simon. Ouvira seu grito de surpresa ao descer a escada e reconhecer o cavaleiro
atravs da porta entreaberta. No se falou na escritura enquanto ela se manteve por perto, paralisada de horror diante da criatura ressurgida dos mortos. Quando
Oliver despontara no outro extremo do corredor, fora obrigada a se esconder na escada, para no ser flagrada espionando. Teria Thurstan entregado a escritura a Simon
nesse nterim?
   - Simon deve ter-se hospedado em algum lugar da cidade - considerou Jevan.
   - No podemos vasculhar o quarto dele. Vamos pedir a Hamel que o faa.
   - Hamel. - Jevan deu as costas  me, desgostoso.
   - No sei corno pode associar-se a esse rufio.
   - E um homem poderoso por aqui - argumentou Odeline.
   Alm disso, o delegado a desejava. Massageava-lhe o ego ter o controle sobre algum quando era nada, menos que nada, na casa de Thurstan. Ora, corria em suas
veias o sangue dos Lyndhurst, carregado de paixo, e Hamel lhe satisfazia as necessidades com muita eficincia e discrio.., por enquanto. Assim que se instalasse
como castel em Blackstone Heath, romperia o relacionamento com Hamel e arranjaria outro amante. Um homem que fosse rico e poderoso. Ento, teria roupas, jias e,
o mais importante, uma casa em seu nome. Nunca mais teria que implorar caridade.
   Enfurecia-se ao recordar como Thurstan a olhara de nariz empinado ao conceder-lhe as migalhas de sua rica mesa. O cretino atrevera-se a desdenh-la, ele, que
pecara contra Deus ao gerar um filho bastardo!
   Mas Thurstan estava morto agora.
   Odeline acalmou-se ao lembrar-se do irmo estendido no cho sobre o tapete.
   Os poderosos tambm morriam...
   - Temos que encontrar a escritura - rosnou Jevan.
   - Blackstone Heath  minha e eu a quero. Eu a mereo!
   - Sim, voc a merece. E a ter, meu filho.
   Pagara um preo alto demais para perder tudo agora.

   "Tinha a pele macia e cheirosa como ptalas de rosa. Seus lbios doces de vinho revelavam um desejo ainda mais inebriante ao se apartarem sob os dele.
   To quente, to receptiva... Entregue aos beijos, ele baixou a guarda. Com ela, no precisava acautelar-se, nem prevenir-se contra a traio. Ela o amava profundamente,
incondicionalmente. Jamais o deixaria, jamais o magoaria.
   - Eu te amo, eu te amo... - sussurrava, e abriu os olhos, embora estivesse escuro demais para v-la.
   Linnet o fitava."

   Acordando sobressaltado, Simon ouvia as batidas frenticas do prprio corao e a respirao entrecortada no quarto silencioso. Estava sozinho. Fora apenas um
sonho. Por um segundo, no soube dizer onde estava. Ento, reconheceu as paredes rsticas de seu quarto na hospedaria.
   Cus, alm de atormentar seus dias, Linnet tinha que invadir seus sonhos, tambm? Cobriu os olhos com o brao, mas no se livrou da imagem do rosto dela, to
prximo que poderia ler-lhe a alma. No entanto, era seu calor inato que o atraa. Ela brilhava como uma lanterna, iluminada de dentro para fora. Ao passo que ele
era to frio!
   No, devia estar louco! Louco de desejo por uma mulher que podia no ter sido amante de Thurstan, mas escondia algum segredo. Via-se isso em seus olhos sombreados
por fantasmas.
   Sabendo que no conseguiria mais dormir, Simon saiu da cama e foi at a janela. Faltavam algumas horas para o amanhecer, o ar que expirava condensava-se frio,
gelado. O luar derramava-se sobre os telhados de ardsia de Durleigh, colina abaixo. Com o olhar, percorreu o terreno baldio entre a hospedaria e o boticrio. Apesar
do silncio absoluto, observou as sombras em torno do prdio tentando detectar alguma movimentao. No quisera deixar Linnet sozinha, nem com Jasper bem armado
 porta da frente e Miles na cozinha.
   Linnet tambm mostrara-se apreensiva.
   - Voc... no vai ficar?
   - No. Voc ficaria com m reputao, se eu dormisse aqui.
   Ela sorriu pesarosa.
   - Receio que j esteja um tanto manchada.
   Ele quisera abra-la, aliviar a preocupao em seu rosto. Por isso mesmo, convencera-se de que era melhor no pernoitar no boticrio. Simplesmente, no confiava
em si mesmo sozinho com a moa.
   No obstante, ela invadia seu sonho especial.
   Esfregando o rosto, Simon voltou-se da janela antes que fraquejasse e fosse certificar-se de que estava tudo bem na loja. Acendeu a vela, sentou-se  mesinha
que emprestara de Elinore e comeou a copiar numa folha de pergaminho a lista compilada por Oliver. Tambm acrescentou as anotaes que fizera anteriormente, deixando
espao para mais.
   Dez nomes, provavelmente mais do que conseguiria investigar num nico dia, mas estava desesperado para encerrar aquele assunto e seguir seu caminho. Descartou
duas pessoas: o padre e a freira do convento de Blackstone. Segundo Oliver, ambos haviam partido de Durleigh antes do meio-dia, levando consigo a filha de um comerciante
local.
   - Ela est prestes a fazer os votos? - indagara.
   Oliver negara, olhara para o proco e meneara a cabea.
   - Quer ser iluminista.
   O tom com que o monge falara Lhe despertara a curiosidade. Ter a filha escolhida para aprender um oficio no era motivo para assassinato. Contudo, se tivesse
tempo, procuraria o pai da moa, Clarence Billeter, um metalrgico brutamontes, se bem se lembrava.
   Uma batida na porta fez Simon pular da cadeira e atravessar o quarto com a mo sobre a espada.
   - Quem ?
   - Aiken - disse uma voz abafada. -  que lady Linnet resolveu sair sozinha e Miles achou por bem avis-lo.
   Que criatura teimosa!
   Simon calou as botas, pegou a capa e a espada e abriu a porta. Furioso, saiu da hospedaria e atravessou o quintal, chegando ao boticrio no instante em que Linnet
abria a porta dos fundos.
   - Simon! - exclamou ela, levando a mo ao pescoo.
   - Aonde pensa que vai?
   - Queria iniciar bem cedo as visitas...
   - Sem mim?
   - Bem... - Linnet olhou por sobre o ombro para a platia curiosa, os dois soldados do castelos e seus prprios criados traidores. - No tinham o direito de contar!
   Miles franziu o cenho.
   - Prometi a sir Simon que tomaria conta de mileide.
   - Pelo que estamos ambos gratos. - Zangado, Simon encarou Linnet, disposto a faz-la entender quem estava no comando daquela empreitada. - Iremos juntos, aps
o desjejum, depois que decidirmos quem vamos visitar primeiro.
   Ela ergueu o queixo..
   - J tomei o desjejum.
   - Mas eu, no. Drusa...
   - Tem po fresco, queijo e cerveja na mesa - informou a criada, aliviada.
   Linnet agitava-se, contrariada.
   - Pois ento tome o seu desjejum, sir Simon, e depois me encontre no...
   Simon segurou-a pelo brao quando ela tentou ultrapass-lo.
   - Seria muito trabalho trazer-me um prato e caneca aqui, Drusa? - pediu, com os dentes cerrados. - Linnet e eu temos alguns assuntos a acertar. Em particular.
   Os espectadores dispersaram-se como folhas ao vento.
   - Solte meu brao - ordenou Linnet.
   Simon controlou o impulso de ensinar-lhe uma lio.
   - Soltarei, depois que me disser quem  a pessoa que no quer que eu veja.
   Ela arregalou os olhos.
   - No... no  nada disso.
   - Algum amante seu? - sugeriu ele, assustado com a pontada de cime.
   - No tenho nenhum amante.
   - Por que saa furtivamente, ento?
   Linnet estremeceu e fechou os olhos.
   - No  nada disso, eu s...
   Drusa voltou com uma bandeja coberta, seguida por Aiken, que trazia um jarro de cermica. Fizeram questo de arrumar a refeio numa das extremidades do banco
de pedra.
   - Obrigado - murmurou Simon. - Ns mesmos nos servimos. - Soltando o brao de Linnet, curvou-se.
   - Mileide...
   Linnet suspirou e caminhou at o banco como uma prisioneira condenada  masmorra.
   Simon sentou-se e encheu duas canecas com cerveja.
   - Pensei que confiasse em mim.
   Ela ergueu o rosto abruptamente, os olhos parecendo poos profundos de compaixo.
   - Oh, eu confio. S que ... embaraoso.
   - O qu?
   - Trata-se de Hana Billeter - sussurrou Linnet.
   - A moa que foi estudar para ser iluminista?
   - . - Ela cruzou os dedos no colo. - Hana est grvida. E solteira.
   Um bastardo. A velha provocao subia como bile a sua garganta.
   - Por isso, mandaram-na para o convento.
   - Como fizeram com sua me. - Linnet confirmou. - O bispo Thurstan arranjou tudo.
   - Estou certo de que ele tinha prtica nisso...
   De repente, Simon cogitou se teria uma penca de irmos e irms em algum lugar por ali.
   - H outras - admitiu Linnet. - Oh, mas no foi ele quem as engravidou, eu garanto - acrescentou, aflita. - Algumas moas da diocese vem-se encrencadas e precisam
de ajuda.
   - O que acontece com os bebs?
   Linnet baixou o rosto, mas no antes que Simon a visse empalidecer, os olhos perdendo o brilho.
   - Vo para bons lares, para ser criados por casais que perderam seus filhos por doena ou que no podem ger-los.
   Simon compadeceu-se dos inocentes. A menos que tivessem muita sorte, cresceriam como ele, sem amor.
   - Mestre Billeter era contra. Chegou a pagar a velha Nelda para abortar a criana de Hana, mas a me, Jean, confessou-se ao bispo, que tratou de salvar o beb.
   - Ele violou o segredo do confessionrio?
   - Fez o que tinha de ser feito para salvar a vida de uma criana.
   - E encher os bolsos, ao mesmo tempo - murmurou Simon. - Aposto como o casal caridoso pagar regiamente pelo beb.
   - Como pode dizer isso?
   - Foi assim que lorde Edmund me adotou. Um garoto sadio para treinar, mais um cavaleiro para servir na casa dos Meresden.
   Linnet assustou-se.
   - Abusaram de voc l?
   Simon meneou a cabea.
   - Fui punido por transgresses, mas nada que os protegidos no tenham sofrido tambm.  -  Como esperar que algum criado por me e pai afetuosos entendesse o
que
era no ter famlia, ningum que se importasse realmente consigo? - No abusaram de mim - assegurou, conciso. - Mas no fui desejado, tampouco.
   Linnet levantou-se devagar e tentou toc-lo.
   - Oh, Simon...
   Ele recuou.
   - Poupe sua piedade.
   - No  piedade. S...
   - Desviamo-nos da questo principal. - Simon tomou toda a cerveja de sua caneca, mas continuou com um gosto amargo na boca. - Acha que os Billeter guardaram rancor
do bispo?
   - Mestre Clarence, sim, com certeza. E um brutamontes com temperamento to descontrolado quanto suas forjas. J a senhora Jean  frgil, delicada. E de surpreender
que tenha enfrentado o marido, pelo que deve ter sido punida.
   - Um homem que espanca a mulher por ela amar a filha  bem capaz de cometer assassinato.
   - Posso imagin-lo golpeando o bispo. Mas usando veneno... - Linnet discordou. - Duvido que consiga distinguir beladona, ou acnito, de slvia.
   - Hum. - Simon sentou-se e convidou-a a fazer o mesmo. O raciocnio de Linnet fazia sentido, entretanto, ela continuava plida e agitada, como se escondesse algo.
- Por que queria ir l sozinha?
   - Ia falar com a senhora Jean em particular e descobrir onde Clarence esteve ontem.
   - Imaginou que o metalrgico destemperado poderia agredi-la se a flagrasse cochichando pelos cantos com a mulher dele?
   Linnet assustou-se.
   - No... no imaginei.
   Simon suspirou, condescendente.
   - Alm disso, no temos por que desconfiar que ele tenha estado na catedral ontem. De qualquer forma, perguntarei a irmo Oliver se algum o viu por l.
   - Por onde vamos comear, ento?
   - Seria melhor voc ficar aqui, em segurana...
   - Irei, com voc ou sem voc! - Linnet cruzou os braos, moldando o corpete de l aos seios, mas nem essa tentao chamava mais a ateno do que o brilho desafiador
em seus olhos. - Precisa de mim.
   No imagina quanto. Linnet parecia mesmo inocente no que se referia aos homens. No jogava com palavras, nem tentava seduzir. Falava com o corao.
   - Conheo a maioria das pessoas na lista de Oliver, se no pessoalmente, pela reputao.
   Simon suspirou, cedendo ao inevitvel. Era melhor ter Linnet a seu lado, de modo que pudesse proteg-la, do que andando sozinha pela cidade, presa fcil para
Hamel ou ladres.
   - Est bem. Falaremos primeiro com o coveiro.
   Ela gemeu.
   - Mudou de idia? - animou-se Simon.
   - No. - Linnet ergueu uma sobrancelha. - Tem sempre que se vingar?
   - Tenho. - Ele sorriu irnico. - Meus conhecidos, e principalmente meus inimigos, sabem que Simon de Blackstone nunca se esquece de um deslize. A luz nos olhos
de Linnet apagou-se como uma vela abafada.
   - Vou me lembrar disso.

   Encontraram o coveiro Martin no cemitrio atrs da igreja de St. Mary, no fundo de um buraco do tamanho de um caixo.
   -  o coveiro Martin? - indagou Simon.
   O homem olhou para cima, protegendo o rosto sujo com a mo mais suja ainda.
   - Quem quer saber?
   - Simon de Blackstone, cavaleiro da Rosa Negra.
   -  um dos que voltaram dos mortos? - O coveiro abriu um sorriso desdentado. - Pssimo para o meu negcio - brincou, rindo.
   Simon sorriu.
   - Mas bom para mim. Pode sair da um minuto para conversarmos?
   - Tenho que cavar minha cota ou no recebo.
   Simon tirou uma moeda da bolsa  cintura, atirou-a para o alto e pegou-a na queda.
   - Pelo tempo que despender.
   -  justo.
   O coveiro saiu de dentro do buraco. Era um homem rude, de compleio robusta, com braos e ombros musculosos. Seria um assassino?
   - Sabia que o bispo morreu? - indagou Simon.
   - Sabia. - O coveiro riu. - Acha que ele gostaria que eu desenterrasse os ossos dele daqui a um ano para vender?
   Linnet engoliu em seco e apoiou-se em Simon.
   Ele a envolveu com o brao.
   - Que espcie de conversa  essa?
   - No  por isso que esto aqui? Algum se lembrou que o coveiro esteve no palcio ontem e poderia ter golpeado o bispo na cabea.
   - E golpeou? - questionou Simon.
   - Claro que no. Ossos. Foi a respeito disso o nosso encontro. O magricela descobriu o que o bispo andava fazendo e convocou a ns dois para dar explicaes.
Ameaou
me excomungar. - O coveiro fungou. - Como se eu ligasse...
   Simon perdeu a pacincia.
   - Do que  que voc est falando? - inquiriu.
   O coveiro baixou a cabea.
   - Vai custar mais duas moedas.
   - Desde que eu acredite que est dizendo a verdade.
   - No h por que mentir agora. - O coveiro sentou-se num monte de terra. - Dois anos atrs, foi quando aconteceu. Fui ganhar um dinheirinho extra arrancando as
macieiras mortas no pomar da igreja e acabei descobrindo um tmulo. Dez corpos, enterrados todos juntos.
   - Santa Maria! - Linnet fez o sinal da cruz. - Quem eram?
   - No sei. No havia lpides, eram s ossos embrulhados em trapos. Fazia algum tempo que estavam l. Contei ao padre Stephens, responsvel pela igreja de St.
Mary
na poca, e ele ficou furioso. Mandou-me tapar o buraco de novo e no revelar a ningum o que tinha visto.
   - Ele sabia de quem se tratava? - indagou Linnet, horrorizada.
   - Sabia. No achei certo, mas no contei a ningum... exceto a meu confessor.
   - O bispo Thurstan - adivinhou Simon.
   O coveiro confirmou.
   - Ele ficou uma fera, ainda mais quando soube que os dez eram moradores da beira do rio que haviam morrido numa enchente seis anos antes. O padre Stephens devia
t-los enterrado em solo consagrado,  custa da igreja de St. Mary.
   - S que ele ficou com o dinheiro.
   - Isso mesmo, mas o bispo Thurstan o castigou. Era vingativo, para um padre. Mandou o padre Stephens para uma igrejinha miservel l na fronteira com a Esccia.
Foi morto num ataque ao vilarejo, parece, no ano seguinte.
   - Quanto aos corpos dos flagelados...
   - O bispo disse que a igreja ficaria mal se contssemos povo o que aconteceu. Como a maioria dos mortos no tinha familia que se importasse... - Os olhos do coveiro
brilharam de divertimento. - Ele vendeu.
   Simon franziu o cenho.
   - Vendeu?
   - Vendeu como ossos sagrados, a relicrios e assemelhados.
   Linnet ficou sem fala de to chocada.
   - Blasfmia! - protestou Simon. - Sacrilgio. Como um bispo pde fazer uma coisa dessas?
   - No fez mal a ningum - defendeu o coveiro.
   - O bispo usou o dinheiro para montar o albergue. Disse que era conveniente que os ossos dos coitados comprassem cobertores para os miserveis vivos. Alm disso,
todo mundo sabe que esses ossos vendidos como relquias so de animais, no de santos.
   - Comentou que o magricela descobriu tudo isso  - lembrou Simon.
   - E, o arquidicono Crispin. De algum modo, ficou sabendo da histria dos ossos e se enfureceu. Pensei que fosse levar aquele pessoal empolado dele at o bispo...
Ei, acha que ele o matou depois que sa de l?
   - Idia interessante - opinou Simon.
   Considerou bastante a hiptese a caminho das oficinas metlrgicas. Logicamente, concordava com Walter que Nelda e Clarence eram os maiores suspeitos, mas sentia
que ainda havia fatos obscuros. Um religioso teria tido acesso mais fcil s bebidas de Thurstan, e o arquidicono Crispin tinha dois motivos para querer o bispo
morto: dio e esperana de ganho pessoal.

   - Chegamos. - Linnet bateu na porta de uma bela casa de pedra e madeira.
   Uma criada mida atendeu, correu para dentro e voltou com a informao de que a patroa os atenderia.
   Defronte  lareira de um pequeno cmodo de canto, a senhora Jean caprichava numa costura. Fitou os visitantes com cautela. Em seu rosto magro e plido destacava-se
um enorme hematoma. O olho esquerdo estava to inchado que mal se abria.
   - Sinto muito sobre o bispo - murmurou, sentindo o lbio cortado.
   Ante as evidncias de violncia domstica, Linnet controlou-se com dificuldade e apresentou Simon. Ento, ambos sentaram-se e aceitaram a cerveja que a criada
lhes oferecera.
   - Hana foi mesmo para o convento? - indagou Linnet, solidria.
   - Foi. Ontem.
   Simon girava a caneca entre as mos. Sua vontade era estrangular o brutamontes Clarence.
   - Ouvimos dizer que seu marido no gostou.
   - No, nem um pouco. - Jean suspirou. - Ele queria que Hana se casasse com Maurice Larson, mas ela se apaixonou pelo filho mais novo de Gib Farmer, Alain. Mesmo
depois que ela engravidou, Clarence achou que conseguiria realizar seus planos livrando-se da criana. - Trmula, fitou as prprias mos. - Felizmente, o bispo o
deteve, pois era o nico capaz de fazer isso.
   - De qualquer forma, ela vai entregar o beb para ser criado por estranhos - completou Simon.
   Linnet retraiu-se. Simon nem imaginava o quanto seu desprezo a feria. As vezes, quase se esquecia do passado e acreditava que podiam ter um futuro juntos. Mas
se ele descobrisse...
   - Muita coisa pode acontecer em seis meses - lembrou Jean. - Hana e Alain podem se casar e fugir... depois que a perna quebrada dele sarar. - Suspirou.
   - Esse  o mtodo de Clarence. Teria matado o rapaz  de pancadas se o pai dele no tivesse ouvido os gritos e corrido em seu socorro.
   - Acredita que Clarence pode ter decidido punir o bispo, tambm? - indagou Simon.
   - Pode, depois que me deu a lio. - A mulher tocou de leve no rosto machucado. - S que antes chamou dois amigos e foi para a fazenda de Gib atrs de Alain.
   - A que horas foi isso?
   - No fim da tarde de ontem.
   - E a que horas ele voltou?
   - A noite j caa. - Jean sorriu desolada. - Vai precisar de algum tempo para se recuperar da surra que Gib e os filhos deram nele. Eu o fiz tomar um clice de
vinho e deitar-se. Continua l na cama, com a cara moda voltada para a parede, grunhindo a ponto de acordar os mortos. - Adotou uma expresso malvola. - Sei que
no  cristo regozijar-se com a dor alheia...
   - Tenho certeza de que Deus abriria uma exceo no caso de Clarence - declarou Simon.
   Linnet compartilhava o sentimento. No entanto, ao deixarem a casa do metalrgico, imaginou se Simon seria capaz de perdoar seus pecados. A necessidade de que
ele compreendesse era como uma dor crnica, pesando em seu corao.

   Hamel endireitou-se quando Tilly saiu pela porta lateral da hospedaria.
   - Vasculhou o quarto dele?
   - Vasculhei, mas no encontrei nenhum livro.
   Hamel franziu o cenho. Havia trs possibilidades. Simon escondera o dirio, ou o levara consigo, ou o entregara a outra pessoa. A Linnet, talvez.
   A criada o tocou no brao.
   - Falta mais de uma hora para o almoo. Podemos no sentar e...
   - Tenho um trabalho a fazer - resmungou Hamel. Ellis, o camarada que colocara de vigia diante do boticrio, perdera Simon e Linnetde vista outra vez.
   Por onde andariam aqueles dois? O que estariam planejando? Impossvel invadir a loja e procurar o dirio que Odeline queria porque dois soldados guardavam o local.
Outra obra de Simon. Maldito. Por que no permanecera entre os mortos?
   Naturalmente, havia como corrigir esse equvoco...
   Hamel chegou a sorrir, mas o prazer desapareceu  lembrana do confronto por vir. Prometera a Odeline encontrar-lhe o dirio do bispo, e ela ficaria furiosa quando
soubesse que falhara. Queria o dirio por razes sentimentais, alegara ela. Estranhara, pois ela nunca demonstrara afeto pelo irmo avarento. Se bem que a morte
fazia as pessoas repensarem seus sentimentos...
   Alm disso, o pedido de Odeline dava-lhe uma desculpa para perseguir Simon. Naquele exato momento, Bardolf e dois de seus melhores policiais vasculhavam as ruas
com ordens de prender o cavaleiro para prestar esclarecimentos.
   Poucos suspeitos j haviam sobrevivido a seus interrogatrios. Sorridente, deixou a hospedaria.

   CAPTULO 9

   Nuvens adensavam-se obscurecendo o sol quando saram da casa do comerciante de tecidos. Bem adequado, pensou Simon, olhando de soslaio para Linnet. Ela exibia
uma expresso to sombria quanto o clima. Ele mesmo no estava muito animado. Aps meio dia conversando com as pessoas que tinham estado com o bispo na noite anterior,
no se viam mais prximos de elucidar a morte dele.
   Boa parte dos entrevistados reconhecia que o bispo Thurstan era um homem que apreciava o poder. Alguns cidados chegavam a afirmar ter sido manipulados por ele
no sentido de fazer algo contra sua natureza. Mas ningum demonstrava medo ou animosidade. Os motivos pelos quais haviam procurado Thurstan conferiam com as informaes
fornecidas por Oliver. Constatara-se uma pequena divergncia apenas no caso da delegao de quatro comerciantes encarregada da construo de uma capela em homenagem
ao bispo.
   - Ele no aprovou os esboos da esttua dele que lhe mostrei - queixara-se o mestre pedreiro. - Disse que era grandiosa demais, que queria algo mais simples.
S
que o bispo no era nada modesto.
   - Mas o que ficou decidido? - indagara Simon, atento s mos fortes e msculos protuberantes do pedreiro.
   - Ah, vou eliminar alguns detalhes decorativos. No quero ofender o bispo... caso ele esteja aos ps de Deus.
   No dia anterior, Simon teria sorrido de tal sugesto, mas teria sido antes de passar aquele dia tomando conhecimento das boas aes de Thurstan. No que se tratasse
de um santo. Bem ao contrrio, considerando que nunca hesitara em distorcer as leis a sua convenincia. Mas o fato era que muita gente em Durleigh aprovava a gesto
de Thurstan. Mulheres que ele salvara de abusos. Pobres que ganharam alimentos, abrigo, trabalho e, mais importante, um futuro.
   Simon no acreditava que os fins justificavam os meios, contudo, tinha que admitir que Thurstan realizara mais com seus mtodos heterodoxos do que teria podido
aderindo  crtica. Isso o absolvia? No, mas sou melhor do que ele?, cogitou, pensando na fortuna em resgates que trouxera consigo do Oriente. Se bem que nunca
procurara homens ricos para seqestrar, como alguns de seus companheiros cruzados. Durante as batalhas, era matar ou morrer. Combinando sorte e habilidade, prevalecera.
Quando os oponentes depunham as armas e imploravam acolhida, concedia-lhes.
   No era como o bispo. Com certeza, no. Mas o sangue latejante em suas tmporas o condenava. O sangue de Thurstan.
   - Parece que terminamos - murmurou Linnet.
   Simon anuiu, afastando os pensamentos obscuros. Faltava a velha Nelda, mas falaria com ela sozinho. No queria expor Linnet aos comentrios desagradveis da mulher.
   As ruas estavam mais movimentadas agora, com criadas comprando os alimentos para o dia, vendedores apregoando seus produtos, balconistas de vestido marrom e trabalhadores
sujos e suados. Simon puxou Linnet pelo brao e,  entrada da Shambles, a rua dos aougueiros, parou.
   Dali j se sentia o cheiro de sangue. No matavam os animais ali, exceto as galinhas e os patos, contudo, um ar de morte pairava no local, denso como a nuvem
de moscas pretas zunindo sobre suas cabeas.
   Simon voltou-se.
   - O que foi? - indagou Linnet. - O caminho mais curto para casa  por aqui.
   - Vamos por outro.
   Ela contemplou a rua de barracas ao ar livre, enfeitadas com carcaas ensangentadas. e concordou.
   - Obrigada - murmurou, enquanto seguiam para outra rua. - E muita gentileza sua pensar em minha sensibilidade quando no gosta muito de mim.
   - O qu?
   - No acredita que Thurstan tenha sido s meu amigo.
   - Acredito... agora.
   Linnet encheu-se de esperana.
   - O que foi que mudou?
   - Agora a conheo. Antes, no conhecia. - Simon apertou-se contra ela ao passarem por uma carroa de carvo.
   A essncia que era s de Simon preencheu-lhe os sentidos, abrindo as comportas das lembranas daquela noite longnqua. Oh, voc me conhece muito bem, corrigiu,
o sangue fervente.
   - Voc  honrada demais para se comportar de maneira to vergonhosa.
   Assolada pelo sentimento de culpa, Linnet tropeou e teria cado se Simon no a segurasse pelo brao. Por sobre o ombro, fitou-o no belo rosto spero e olhos
ansiosos.
   - Voc est bem?
   No, no estava. Era um embuste, uma fraude.
   - Simon, eu...
   Ele notou algo  frente.
   - Oh, no...,  Bardolf!
   Ela girou a cabea e avistou o subdelegado a uma certa distncia, na calada oposta da rua. Caminhava devagar, averiguando cada loja, encarando os transeuntes.
   - Parece estar procurando algum.
   - Ns. - Soltando-a, Simon levou a mo ao cabo da espada.
   Temerosa de ser presa ou morta, Linnet procurou uma rota de fuga.
   - Por aqui! - Puxando Simon, entrou por uma porta numa sala escura, de teto baixo.
   Simon deteve-se  soleira,  procura de um esconderijo para Linnet enquanto se encarregava de Bardolf. O recinto, com quatro tinas de madeira, cheirava pior do
que o matadouro. As mulheres que l trabalhavam espantaram-se. Eram jovens e tinham a barra da saia presa  cintura, com as pernas  mostra, enquanto pisoavam o
tecido mergulhado nas tinas.
   -  o pisoeiro de que lhe falei - explicou Linnet.
   - Produzem os melhores tecidos do distrito.
   Simon piscou, meio tonto. Sua primeira reao fora lutar. Mas sozinho, com Linnet para proteger, talvez no fosse a melhor estratgia. Ao mesmo tempo, atravessar
aquela oficina poderia chamar a ateno.
   - Entendo.
   Com olhar eloqente, Linnet o conduziu mais para o fundo da oficina apertada e mal-cheirosa.
   - O tecido de l crua  esfregado com greda de pisoeiro, uma mistura de areia e urina, depois  lavado e amaciado no piso.
   - Fascinante - murmurou Simon.
   - Nem tanto.
   Ele se inclinou e sussurrou:
   - Falo de seu raciocnio rpido.
   - Temi que Bardolf o atacasse.
   A preocupao dela teria lhe ferido o orgulho se no tivesse lhe tocado o corao.
   - Eu o teria vencido.
   - Sei que  muito destro com a espada. Costumava v-lo treinar com seus companheiros, mas se ele estivesse acompanhado de mais homens...
   - Costumava me ver? - questionou Simon, recordando o relato de Drusa. - Ou a todos?
   Linnet enrubesceu.
   - Bem...
   Um homem de meia-idade entrou pela porta dos fundos.
   - Lady Linnet! O que a traz aqui? Algum est doente?
   - No, mestre pisoeiro - tranqilizou ela, grata pela interrupo oportuna. - Trouxe sir Simon para conhecer seus produtos. E um dos cavaleiros da Rosa Negra.
   O pisoeiro abriu um sorriso no rosto redondo.
   - Bem-vindo!
   Simon anuiu.
   - Seu tecido  to bom quanto Linnet afirmou. - Apreensivo, olhou para a porta da frente.
   Linnet tambm se afligia. Se Bardolf espiasse l dentro, com certeza os veria. Precisavam ir mais para o fundo da oficina.
   - Estamos indo bem - comentava o pisoeiro, a mo sobre o abdome protuberante. - Mas quem sabe at quando vo os bons tempos? - advertiu, sbrio. - O bispo Thurstan
fechava acordos de comrcio favorveis. O prximo bispo pode no se mostrar to eficiente...
   - Sentiremos muita falta dele - murmurou Linnet.
   - Com certeza. O bispo Thurstan no foi originalmente destinado  igreja, como sabem - lembrou o pisoeiro. - Educou-se para ser corteso, Thurstan de Lyndhurst,
que sua alma descanse em paz. Foi para o filho mais velho que o pai comprou a diocese de Durleigh, s que Richard morreu e Thurstan tomou-lhe o lugar. Ele teria
se sado igualmente bem na corte.
   Era novidade para Simon que o bispo no tivesse sentido vocao para o sacerdcio, mas no se surpreendia, tampouco. O fato no o eximia de haver gerado um filho
e o abandonado.
   - Estou certo de que o arquidicono preferiria que Thurstan tivesse ido para a corte.
   O pisoeiro concordou.
   - Diferentes como o dia da noite, aqueles dois. O bispo tinha uma viso flexvel quanto ao certo e o errado. Para ele, importava o resultado. O arquidicono,
por outro lado,  rgido como uma lana. Para Crispin, uma coisa  branca ou preta. Parece que no se davam nada bem...
   - E. - Simon olhou ansioso para a porta frontal.

   - Poderia mostrar a sir Simon os tecidos prontos? - indagou Linnet, desembaraada.
   - Com prazer. - O pisoeiro mostrou o caminho at a porta dos fundos, que dava num quintal com cho de cascalho encerrado de trs lados por altos muros de pedra.
Fileiras de estruturas de madeira verticais preenchiam todo o espao.
   - Estendemos o tecido para secar nestas armaes aqui, bem esticado, preso pelas beiradas nos ganchos. - O pisoeiro estendeu a mo rechonchuda para as estruturas.
- Depois que seca, aparamos o plo.
   Conduzindo-os por entre o labirinto de armaes, mostrou-lhes mesas compridas cobertas de tecidos. Meia dzia de mulheres curvavam-se manejando grandes tesouras.
   Com um grunhido, Simon esquadrinhou o ptio confinado, procurando uma sada. Esticou o pescoo para ver alm das estruturas de madeira. Devia haver uma porta,
mas onde? Estaria Bardolf com a inteno de prend-los, ou apenas seguindo-os? De qualquer forma, tinham que fugir.
   - Estamos em dbito para consigo, mestre Fuller. - Linnet sorriu para Simon. -  melhor irmos, para procurar aquelas luvas de que precisa.
   - Luvas?! - exclamou Simon. - Precisamos e...
   - O luveiro Gil no fica aqui perto? - cortou Linnet, dirigindo-se ao pisoeiro.
   - Fica. Se sarem por meu porto dos fundos, no precisar dar toda a volta.
   O pisoeiro fez-lhes sinal e contornou a ltima fileira de armaes, at uma porta de carvalho. Com a chave que tinha no anel  cintura, abriu-a.
   Simon saiu primeiro e deu uma boa olhada no terreno coberto de mato. Certo de que no havia ningum por perto, chamou Linnet.
   - Muito obrigado, mestre Fuller.
   O pisoeiro curvou-se, fechou a porta e trancou-a.
   Linnet cambaleou onde estava.
   - Virgem Maria...
   Simon amparou-a, tocado por sua delicadeza, sentindo as batidas frenticas de seu corao. Parecia a coisa mais natural do mundo abra-la, mas o costumeiro impulso
de proteger criaturas pequenas e vulnerveis enfraqueceu-se  Lembrana da doura daqueles lbios. O desejo o sacudia, e precisou de todo o controle para recordar
onde estavam e por que.
   - Foi uma representao genial.
   - Pensei em correr... mas achei que o pisoeiro nos tomaria por ladres e faria um escndalo.
   - Atraindo Bardolf. - Simon abraou-a com mais fora, enterrando o rosto na cabeleira cheirosa. O delicado perfume de rosas o envolveu. Sentia o corao balouante,
o corpo todo em expectativa. Lutou contra o desejo de apert-la, de modo que seus corpos se amoldassem mais perfeitamente. - E esperta e corajosa - elogiou, rouco.
   - No me sinto muito corajosa agora - confessou Linnet, trmula. - Acha que Bardolf tem ordens para nos prender?
   - Talvez Hamel queira garantir que no escapemos a justia.
   - Justia. - Linnet estremeceu de novo. - Jamais teramos justia de Hamel.
   - Nem do arquidicono Crispin Norville - completou Simon.
   Linnet estreitou o olhar.
   - Acho que  ele o assassino.
   Simon olhou ao redor para o terreno baldio.
   - No.
   - Tem tanto medo de Crispin quanto qualquer pessoa - opinou Linnet, desvencilhando-se
   A passos largos, atravessou o terreno e saiu  rua tomada por barracas repletas de cintos e bolsas de couro.
   Simon alcanou-a  altura do vendedor de botas e tirou-a da rua.
   - Esqueceu-se de Bardolf?
   Ela arregalou os olhos.
   - Mas Crispin...
   - Depois. - Simon tambm desconfiava do arquidicono. No entanto, se o admitisse, quem podia saber a atitude que Linnet tomaria.
   - No acredita em mim? - protestou ela. Estou preocupado em salvar sua vida. No temos nenhuma prova contra Crspin e, se sair por a acusando-o, pode ver-se
mais
encrencada do que j est.
   - Estou certa - teimou Linnet.
   - Nem mais uma palavra at estarmos a ss. - Simon dedicou-lhe ento o olhar severo com que mantinha na linha os soldados mais resistentes.
   Ela ergueu o queixo e sustentou o olhar.
   - Vou provar que ele  culpado, com ou sem a sua ajuda.
   Simon apavorou-se. Ela estava decidida. Segurou-a pelos ombros com um pouco mais de fora, louco para carrega-la nos braos at um lugar seguro.
   - Vai ficar de boca calada, ou a amarrarei e amordaarei - advertiu, em desespero.
   Linnet estremeceu ento, uma reao quase imperceptvel que ele, no obstante, sentiu atravs do corpo. Praguejando, apertou-a contra o peito, segurando-a com
as duas mos.
   - Simon, o que est fazendo? - questionou ela, a voz abafada contra sua tnica.
   - Gostaria de saber.
   Linnet o virava do avesso, fazia com que quase aflorassem os sentimentos que guardava com tanto cuidado. Sentia-se esfolado e, curiosamente, vivo, quando estava
com ela. No tinha certeza se gostava da sensao, mas no podia ignor-la, tampouco. A exemplo de um homem viciado em lcool, precisava sempre de mais um gole.
Um dia, em breve, esvaziaria a garrafa toda.
   Como se percebesse seu humor instvel, Linnet o abraou na cintura, apertando-o.
   - Desculpe-me se o deixei zangado.
   - No estou zangado - assegurou ele, brando. - Apenas temo por voc.
   - Oh, Simon... - Linnet levantou o rosto, os lbios j entreabertos para o beijo por que ambos ansiavam.
   Simon gemeu. O desejo o avassalava, selvagem, feroz. Mas precisava controlar-se.
   - No aqui - murmurou, o corpo todo ardendo em protesto. - Vamos embora.
   Sem se comover com a mgoa dela, ele a puxou pela mo ao longo da ponte. A tenso entre eles continuou forte at alcanarem a outra margem do rio que cortava
a cidade. Linnet o acompanhava obediente. Obediente demais. Mas prosseguiram at alcanar a rua estreita cheia de lojas e tavernas junto ao rio. A essa altura, Linnet
j andava titubeante. Preocupado, Simon parou na primeira taverna de aspecto limpo. Aps correr os olhos pelo estabelecimento, localizou uma porta lateral e conduziu
Linnet a uma mesa prxima da sada alternativa. Se Bardolf aparecesse, teriam por onde escapar.
   Aps acomodar Linnet numa banqueta, Simon sentou-se de costas para a parede, de modo a ter uma viso ampla da entrada principal. J passara da hora do almoo,
mas a garonete, uma gordinha simptica, prometeu-lhes po, queijo e carne fria.
   - Desculpe-me por acus-lo de ter medo de Crispin Norville - murmurou Linnet, assim que a moa se afastou.
   Simon sorriu.
   - De certa forma, tenho medo.., medo do que ele possa fazer a voc.
   - Ele no pode fazer nada. Sou inocente. Ele  o culpado.
   - No tem provas.
   - Eu sei, mas tenho...
   - Um pressentimento? - desdenhou Simon.
   - No... Algo um pouco mais consistente. - Ela se inclinou para a frente, os olhos cintilantes. - Lembrei-me de algo sobre a aguardente herbrea.
   Simon animou-se.
   - Foi Crispin quem a deu a Thurstan?
   - No. O prprio Thurstan a comprou, de um mercador italiano, e abriu o tonel durante uma visita minha. Tomamos um clice nos aposentos dele. - Linnet hesitou,
tolamente enrubescida. - Foi quando Crispin invadiu o recinto e nos acusou de comportamento inadequado. - Tocou a mo de Simon. - Mas juro que estvamos s conversando.
   - J disse que acredito em voc.
   O  rosto de Linnet expressava pura angstia. Ou seriam as sombras lanadas pelas tochas contra a parede?
   - Crispin disse que a aguardente era uma poo de bruxa, com a qual eu estaria tentando escravizar a alma de Thurstan.
   - E, de repente, a aguardente aparece envenenada.
   - Exatamente. Coincidncia demais, na minha opinio.
   Sirnon suspirou e esfregou a mo no rosto.
   -  uma evidncia fraca pela qual se acusar um padre de assassinato.
   Linnet franziu o cenho.
   - Como pode se manter to frio e calmo numa situao como esta?
   Simon recostou-se, o pensamento distante.
   -  meu jeito, pelo que dizem. Segundo alguns, tenho gelo nas veias.
   Linnet olhou-o provocativa.
   - J o beijei, e sei que tem o sangue quente como fogo...
   O cavaleiro enrubesceu.
   - Linnet!
   Ela ergueu as sobrancelhas.
   -  claro que seus companheiros no conhecem esse lado seu.
   - No.
   Ele sorriu, ento, parecendo mais jovem e descontrado. Era o homem que teria se tornado, se tivesse crescido com amor e carinho.
   - Simon... - Linnet interrompeu-se, pois chegou a criada com uma travessa de comida, duas canecas e um jarro de cerveja. Quando ficaram a ss novamente, j voltara
a se concentrar no drama que enfrentavam. - Voc deve a Thurstan encontrar o assassino dele.
   O brilho nos olhos dele se apagou.
   - No devo nada a ele, mas reconheo que, pelas conversas que tivemos hoje com tantas pessoas, vi um lado de Thurstan que eu desconhecia.
   Linnet suspirou. Tanto sofrimento e, aparentemente, nenhuma maneira de alivi-lo.
   - Pelo menos isso. Se Thurstan tivesse vivido o bastante para explicar...
   - No h desculpa para o que ele fez - murmurou Simon, o olhar vazio. Era como se o ocultasse atrs de janelas cerradas. - Vamos almoar logo e sair daqui. -
Com
isso, concentrou-se em devorar po e queijo.
   Fitando o topo da cabeleira negra e lustrosa do cavaleiro, Linnet amaldioou a prpria lngua. Com suas palavras mal escolhidas, destrura a intimidade surgida
nos ltimos dias. Como pudera ser to descuidada?
   Thurstan comentara que Simon escondia cicatrizes profundas com aquele ar reservado. Pensei ter feito bem em torn-lo cavaleiro, como meus irmos mais velhos.
Tarde demais, dei-me conta de que ele herdara a natureza amvel da me e sofria com aquela vida fria e dura.
   De fato, tal educao o obrigara a tornar-se auto-confiante, a contar apenas consigo mesmo. Ao descobrir que sua vida construda a to duras penas no passava
de uma grande mentira, passara a demonstrar ainda mais reticncia em confiar nos outros. No obstante, viera a confiar numa jovem boticria desconhecida, a importar-se
com ela. Vira, nos olhos dela, a ternura mesclada ao desejo. Sentira a excitao de seu corpo ao abra-la. J era ruim no merecer o respeito que ele lhe concedera,
mas cutucar-lhe as feridas...
   - Perdo - pediu, cautelosa. - Mame dizia que eu tinha o pssimo hbito de falar o que era melhor no ser dito. - Erguendo a caneca, aproximou-a da dele. -Vamos
fazer as pazes? - sugeriu, com um sorriso desolado.
   Simon tocou a caneca na dela, o olhar fixo em sua boca, nos lbios carnudos, nos cantos erguidos. Era uma boca feita para o sorriso.. e para a paixo. Tratava-se
de uma mulher de sentimentos intensos e emoes abertas. Invejava-lhe a capacidade de viver em sua prpria pele, pois a dele nunca lhe parecera bem ajustada. Passara
a vida lutando para se aperfeioar, para se afirmar. Por algum motivo, a despeito de todas as realizaes, nunca se satisfazia.
   - Gostaria que fssemos amigos, Simon.
   A vozinha rouca deslizou pela espinha dele como mel quente, sugerindo possibilidades que no ousava explorar. Mas queria. Cus, sonhava com Linnet, at acordado!
Em fantasia, beijava-a, explorava-lhe as curvas tentadoras sob o vestido simples. Oh, a luxria! Necessidade compreensvel, considerando que vivia como monge desde
que deixara Acre. No entanto, Linnet era diferente de todas as mulheres que j conhecera. Ela o aterrorizava. No queria precisar dela.
   -  melhor no nos envolvermos.
   Linnet refletiu por um instante e ento aquiesceu.
   - Tem razo. Mais do que imagina.
   Simon desejou perguntar o que ela quisera dizer com isso, mas desistiu.
   - Acabe de almoar. Temos muito a fazer antes que anoitea.
   Continuaram a refeio em silncio. Toda vez que erguia o olhar, Simon via Linnet concentrada em seu prato. Lamentava o fim da camaradagem partilhada at pouco
antes. Mas fora melhor esclarecer logo a situao. Gostava dela e no queria mago-la, quando chegasse sua hora de deixar Durleigh. No sabia nem qual seria seu
destino. Talvez voltasse para casa com Nicholas e, de l, fosse visitar outros cavaleiros, para ver como estavam passando.
   Linnet suspirou e afastou o prato.
   - Terminei. - Na verdade, comera bem pouco.
   Simon levantou-se e tirou algumas moedas da bolsa.
   - Fao questo de pagar a minha parte - declarou Linnet, levantando-se tambm.
   - No, eu lhe devo o jantar de ontem. - Ele se preocupou ao v-la desanimada. - Vou deix-la em casa para depois procurar irmo Anselme na catedral.
   Ela se reanimou.
   - Para falar do arquidicono?
   - Linnet, Crispin  padre - lembrou Simon, acompanhando-a  sada da taverna.
   - Talvez tenha desejado salvar a igreja de Thurstan.
   - Vale o mesmo para irmo Walter - opinou Simon.
   - Ele tambm cobia Durleigh e, como brao direito do arcebispo, tem mais chance de conseguir o posto.
   Linnet pensou e discordou.
   - No acredito nisso.
   - Porque gosta de Walter, mas no de Crispin.
   - Crispin  o culpado - afirmou Linnet. - Sinto muito.
   - Calma. - Segurando-a pelos ombros, Simon encostou a testa na dela. - O que  que eu fao com voc?
   - Ajude-me a encontrar o assassino de Thurstan.
   - Pensei que era isso o que estava fazendo.
   - Sim. - Linnet o fitou e acariciou no rosto. Para ele, foi como ser atingido por um raio. - No sei o que teria feito sem voc hoje.
   O olhar meigo deixava-o constrangido, porque ele queria lhe oferecer mais, mesmo sabendo que no podia.
   - Bem,  melhor voltarmos  loja antes que escurea - desconversou.
   Ela sorriu, compreensiva.
   - Est bem.
   Com a sensao de que perdera uma batalha importante, Simon espiou a rua. A tarde findava, alongando as sombras dos prdios sobre o cais. Havia pouca gente a
p. Os dois barcos atracados j tinham sido descarregados e agora balouavam melanclicos nas guas encapeladas. No havia nem sinal de Bardolf.
   - O caminho est livre. - Ele segurou Linnet pelo brao e tomaram o rumo sul, atravessando a ponte outra vez.
   - J tinha visto a nova ponte?
   Simon foi mais para a beirada do cais e olhou correnteza acima. O rio estava alto naquela poca do ano, mais cheio pelas fortes chuvas da primavera. A bela ponte
de pedra sobre ~i qual passavam substitura a velha, de madeira.
   -  mesmo uma estrutura impressionante.
   - Foi construda com o dinheiro do pedgio no rio. Normalmente, enchia os cofres da diocese, mas Thurstan decidiu investir metade da renda na ponte, com o municpio
bancando o custo restante.
   - Proposta justa - opinou Simon, voltando-se ligeiramente.
   De soslaio, percebeu um movimento atrs deles. Era um homem de olhar selvagem, zangado. Apesar da barba por fazer, reconheceu-o de imediato.
   O bandoleiro que emboscara a ele e seus companheiros perto de York!
   - Que... - Simon voltou-se rpido, sacando a espada, mas o homem j investia com um punhal.
   - No! - Linnet agarrou o brao do assaltante. Ele se desvencilhou dela com uma imprecao, empurrando-a para trs.
   Horrorizado, Simon viu Linnet ultrapassar a mureta de pedra e cair no rio turbulento.

   - Abenoe-me, padre, pois pequei...
   Crispin Norville mal sentia o frio que se desprendia do cho de pedra da capela e atravessava seu hbito rstico, enregelando-lhe o corpo magro. Seu corao j
era uma pedra de gelo, pesando-lhe na alma.
   - Eu no queria que ele morresse... Apertava as contas do tero com tanta fora que seus dedos doam. No entanto, apreciava a dor.
   - J sabe disso, pois contei-lhe que irmo Thurstan no era puro, e colocou em meu caminho o conhaque estrangeiro e o acnito. Mostrou-me como salvar Durleigh
das manobras malignas do bispo.
   Acariciou as contas de madeira.
   - Eu no o matei - consolou-se. Era culpa sua que Thurstan no tivesse tido foras para rechaar o agressor?
   Com um tremor, Crspin fechou os olhos, arrasado pela lembrana das feies agoniadas de Thurstan. Nem a um inimigo se desejava uma morte assim.
   - A mulher  a culpada.
   Provaria a culpa de Linnet e faria com que fosse punida. S a morte dela poderia eliminar a mancha em sua alma imortal.


   CAPTULO 9

   As guas geladas fechavam-se impetuosas sobre a cabea de Linnet, obstruindo-lhe o nariz e a boca, encerrando-a numa penumbra sombria. Por um instante, ela permitiu
passiva que a correnteza a sugasse. Ento, a ardncia nos pulmes arrancou-a do choque.
   Lutando contra a fora da corredeira, lutou para alcanar a luz na superfcie. Por fim, libertou-se, ofegante, determinada a manter a cabea fora da gua. A margem
do rio estava a uns vinte metros, mas a distncia aumentava. O pai ensinara-lhe os rudimentos da natao, mas o peso do vestido e da capa encharcados puxava-a para
baixo. Jamais conseguiria ir to longe.
   - Linnet! Agente firme!
   Ela se voltou e viu Simon cortando as guas turbulentas em sua direo.
   - Volte! - gritou, temerosa de que ele se afogasse tambm.
   Mas as palavras terminaram em gorgolejo quando voltou a afundar. Algum lhe agarrou os cabelos e puxou-a para a superfcie. Tossindo, inspirou o ar em grandes
golfadas.
   - Calma, j a peguei! - Simon a segurava pela cintura, extenuando os msculos rijos contra o rio encapelado.
   - Minhas roupas... vo nos puxar para baixo... - advertiu Linnet, sem flego. - Solte-me...
   Instintivamente, porm, agarrava-se  tnica do cavaleiro. Sentia o corao dele aos pulos, suas pernas geis trabalhando para mant-los  tona.
   - Vou tir-la daqui. Fique calma. - Sempre lutando contra a correnteza, Simon arrancou o broche que prendia a capa de Linnet. As guas imediatamente engoliram
o traje pesado e s a fora dele impediu que Linnet fosse sugada tambm. - Vamos congelar se no sairmos logo daqui. Agarre-se a minha tnica e tente mover as pernas.
   Ele a virou de modo que ficasse junto s suas costas e comeou a nadar na direo da margem.
   Linnet ordenava s pernas que se movessem, mas estavam entorpecidas e no respondiam. O flagelo pareceu durar horas. A gua estava gelada e a correnteza forte
arrastava-os rio abaixo. Sentia que Simon se esgotava, mas usava as ltimas reservas de energia do corpo para conduzir ambos  segurana.
   No vamos conseguir, concluiu Linnet, desesperada. Ele vai morrer por minha causa. E decidiu que no seria a responsvel pela morte de Simon. Trmula, soltou-lhe
a tnica.
   - No! - Com uma imprecao, ele se voltou e agarrou-lhe a mo no mesmo instante em que o soltou.
   - Ns vamos conseguir!
   Segurando-a firme pela cintura, Simon voltou a nadar rumo  margem, batendo as pernas freneticamente.
   - Peguem a corda! - gritou algum, atirando algo na gua bem na frente deles.
   Simon agarrou a corda e enrolou a ponta em seu antebrao.
   - Puxem! - gritou a voz.
   Linnet contemplou a margem, tomada por pessoas engajadas na tarefa de libert-los das garras geladas do rio. Homens, mulheres e at crianas ajudavam a pux-los.
   Por fim, viram-se em terra firme. Deitada de bruos Linnet tossia e ofegava, sem ar.
   - Linnet! - Simon virou-a para cima e estreitou-a contra si. - Deus, pensei que fosse perd-la... Por que tentou soltar-se de mim?
   Porque o amo. Chocada e esgotada demais para falar, Linnet abandonou-se nos braos dele.
   - Linnet, voc est bem? - Simon afastou-se para poder fit-la. Com mos trmulas, tirou-lhe os cabelos molhados do rosto. Os olhos dela destacavam-se contra
a pele branca, assombrados pelo medo que ele tambm ainda sentia nas entranhas. Mas estava viva. Parecia-lhe to mais preciosa agora, e tambm mais delicada e mais
vulnervel. - Por que fez aquilo?
   - Para no pux-lo comigo...
   - Linnet - sussurrou ele, fechando os olhos. - Eu quase a perdi.
   - Mas no perdeu. Voc me salvou. - Ela ergueu a mo e o afagou no rosto. - Devo-lhe minha vida.
   Simon fitou-a, os olhos cheios de emoes to ardentes e conflitantes que ela perdeu o flego.
   - Linnet, nunca pensei...
   - Vamos! - interrompeu uma voz desconhecida.
   - Vocs tm que entrar e se secar antes que peguem a febre.
   Sem desgrudar-se de Linnet, Simon levantou o rosto, a expresso neutra. Era um padre.
   - Obrigado pelo resgate providencial, irmo...
   - Irmo John Gibson, o esmoler.
   Linnet desejou dar um pontap no religioso pela interrupo. O que Simon quase lhe declarara? Que a amava? Oh, de qualquer forma, no merecia o amor de Simon,
ainda que ele se dispusesse a conced-lo. Suspirando, conseguiu rir.
   - Eu ia mesmo mostrar o albergue a Simon, mas no esperava chegar neste estado...
   - Rpido, irmo, vamos lev-la para dentro e tirar-lhe as roupas ensopadas antes que pegue a febre. - Ao ergu-la do cho, Simon tinham a expresso mais sombria
do que as guas que quase os engoliram.
   - Claro! - Irmo John conduziu-os na direo do albergue bem iluminado.
   Linnet aconchegou-se nos braos de Simon. Certa de que jamais se sentira to segura, admirou-lhe o belo perfil. Antes, teria lhe parecido zangado. Agora, porm,
via o medo que ele tentava esconder, alm de uma preocupao que a aquecia, a despeito da l molhada grudada em seu corpo. Quase valia a pena ter cado no rio, para
descobrir que o cavaleiro no era to imune a seus encantos, afinal...

   - Mortos, tem certeza? - questionou Jevan.
   Rob FitzHugh confirmou.
   - Ela caiu no rio e ele pulou para salv-la.
   - Idiota. - Jevan golpeou o comparsa na cabea.
   - Era para voc prend-lo, achar o dirio e traz-lo para mim!
   Rob recostou-se na parede, os braos erguidos para amortizar o prximo soco.
   - No foi culpa minha. Eu o ataquei com a inteno de domin-lo, mas a mulher segurou meu brao. Veja. - Arregaando a manga, mostrou os arranhes que Linnet
lhe fizera com as unhas. - Eu a empurrei... e ela caiu.
   Jevan rosnou e passou a andar em crculos pelo quartinho no sto. Cabulara a aula para encontrar-se ali com Rob. O chanceler da escola j o advertira de que
seria castigado se continuasse faltando, mas alunos e professores estavam alvoroados com a morte do bispo e era provvel que ningum sentisse sua falta. Assim como
ningum notara sua ausncia no jantar duas noites antes.
   O mais importante era encontrar a escritura. Tratava-se de uma emenda ao testamento de Thurstan. Nela, o bispo concedia Blackstone Heath a Simon, mas alterara-a
aps a notcia da morte deste, destinando a propriedade ao sobrinho. Deus, e se Simon estava com o dirio ao atirar-se no rio?
   - Mas os corpos foram encontrados?
   - No. - Rob endireitou-se, ansioso para agradar como um co vira-lata. - Os homens do delegado esto vasculhando o rio, mas, com a correnteza to forte, quem
sabe onde iro parar? Quer que eu v l e ajude a procurar?
   - V, mas no estrague tudo de novo. Encontre o corpo de Simon e reviste-o para ver se encontra o diario.
   - Pode contar comigo! - Rob saiu correndo.
   Jevan esperou os passos do comparsa se distanciarem e ento desceu ao quarto de Simon, a fim de vasculh-lo pessoalmente.

   J caa a noite quando Simon e Linnet deixaram o albergue. Chovera enquanto estiveram l dentro, recuperando-se da provao. O cu do crepsculo estava sem nuvens,
e o ar, fresco e mido. Adequado, concluiu Simon, pois, de certa forma, sentia-se renascido.
   - Obrigado por tudo, irmo - declarou, ao despedir-se.
   -  para isso que estamos aqui - replicou o esmoler. - Para ajudar os necessitados.
   Irmo John fizera mais que isso. Ele e os moradores do albergue haviam salvado suas vidas. Baixo e gorducho, John tinha um olhar brando que externava uma energia
sem limites. Aps faz-los despir as roupas molhadas, enrolara-os em cobertores grossos, ao mesmo tempo que punha as peas para secar diante do fogo no salo de
convivncia. O cozinheiro lhes servira sopa, e as mulheres, algumas vivas com filhos pequenos, lanaram-se  tarefa de esfregar-lhes os ps entorpecidos.
   Simon distrara-se com a movimentao, pois assim evitava pensar no que acontecera. Ver-se prximo da morte no era novidade para ele, mas sua reao a Linnet
era. Vivia recordando o instante em que percebera que ela o soltava em meio s guas turbulentas.
   Ela se dispusera a morrer para salv-lo.
   Sabia-se que no calor da batalha soldados arriscavam a vida para ajudar um companheiro, mas era questo de treinamento e honra, e poucos esperavam morrer. Todos
esperavam sobreviver. J Linnet no poderia ter acalentado tal esperana.
   Ela se dispusera a morrer para salv-lo.
   Perceber isso era ao mesmo tempo comovente e humilhante. Mudava tanto a situao que tinha at medo de analis-la.
   - Obrigado mais uma vez, irmo John - disse Linnet, com a voz ainda trmula.
   Aquele leve tremor ps abaixo a couraa defensiva que Simon preservara durante toda a existncia. Ele abraou Linnet pela cintura e puxou-a para junto de si.
Ao perceber que a jovem e independente boticria entregava-se a sua proteo, sentiu o corao aos pulos. Ela precisava dele. A tal sensao estava acostumado, pois
comprometera-se a ajudar os necessitados. O fato de precisar de algum, sim, era novo e perturbador.
   Simon deu de ombros, tentando descontrair-se.
   - Estou muito impressionado com seu albergue - declarou, franco. Quando pudesse ir a Londres, pretendia doar boa parte de sua fortuna ao trabalho assistencial
de irmo John.
   - O mrito  de Deus e do bispo Thurstan. - John fez o sinal da cruz. - Rezo para que possamos continuar nosso trabalho.
   - O que o impediria? - questionou Simon.
   Irmo John suspirou.
   - Temo que o arquidicono no aprove a maneira como esta casa foi concebida e a feche.
   - Mas os pobres morreriam de fome! - protestou Linnet.
   - Com efeito. - Irmo John contraiu os lbios. - Irmo Crispin  muito crtico. Eu o conheci em Wells, onde ele era cnego e eu, um jovem novio. Certa vez, um
colega saiu sem permisso para visitar o pai doente, porm, surpreendido por uma tempestade no meio do caminho, teve que voltar  catedral e encontrou os portes
j fechados. Segundo o regulamento, os portes s poderiam ser reabertos pela manh e Crispin no abriu exceo. O rapaz permaneceu ao relento e morreu de frio.
   Linnet estava incrdula.
   - Crispin o deixou morrer?
   - Declarou que fora vontade de Deus, um castigo pela desobedincia, e o deo de Wells no discutiu.
   Linnet no se conformava.
   - Mas...
   Simon lanou-lhe um olhar de advertncia. Por mais estarrecedora que fosse a revelao, reforando as suspeitas sobre Crispin, o silncio era fundamental.
   - Vamos. Drusa e Aiken j devem estar preocupados.
   - Dois irmos leigos iro com vocs, para garantir que cheguem em casa em segurana - decidiu irmo John.
   - Obrigado - murmurou Simon.
   O crepsculo alongava cada vez mais as sombras sobre as casas. Quando chegassem ao boticrio, j estaria completamente escuro. Em algum ponto do caminho, o bandido
podia estar  espreita. Se tivesse s a si mesmo com quem se preocupar, tentaria peg-lo. No entanto, tinha que pensar na segurana de Linnet.
   Com a mo sobre a espada e a outra na cintura de Linnet, Simon tomou o caminho de casa. Os dois robustos irmos leigos seguiam-nos de perto. Cumpriram tensos
e silenciosos o trajeto pelo centro de Durleigh at o boticrio, sem qualquer contratempo. A maioria dos habitantes j jantava em casa, e muitas das lojas estavam
fechadas.
   Na Spicier's Lane, Simon reparou que o mendigo na calada oposta diante da loja abandonara seu posto. Estaria  procura dele e Linnet? Nesse caso, deveriam entrar
logo, antes que o homem voltasse.
   Simon voltou-se para os irmos leigos e deu a cada um duas moedas.
   - Vi uma padaria perto do albergue. Comprem bolos para as crianas.
   -  muita gentileza pensar nelas, senhor. No nos costuma sobrar dinheiro para doces.
   - Eu sei. - Simon fora criado por pessoas bem menos carinhosas do que irmo John.
   - Agradeam a irmo John mais uma vez, por ns - pediu Linnet.
   Aiken abriu a porta  primeira batida.
   - Mileide, sir Simon. J estvamos preocupados.
   - Sem necessidade. - Simon fez Linnet entrar, fechou a porta e passou a tranca. - Fomos comprar roupas e perdemos a noo do tempo. Reparou a que horas aquele
mendigo saiu do posto dele?
   O aprendiz franziu o cenho.
   - H uma hora, mais ou menos. Eu estava pesando gros de pimenta para uma cliente. Por qu?
   - Ele se foi por livre e espontnea vontade?
   Aiken coou os poucos fios de barba no queixo.
   - Hum... Bardolf passou, e ento o mendigo saiu.
   Simon animou-se. Hamel devia acreditar que ele e Linnet estavam mortos.
   - Otimo. Onde esto os soldados?
   - Na cozinha. J amos jantar. Quer que eu v cham-los?
   - No. - Simon decidiu falar com eles mais tarde, planejar a viglia para a noite. - Se puder avisar Drusa que chegamos e pedir-lhe que atenda a sua patroa...
E que tivemos um...
   - Eu me arranjo -. declarou Linnet, enquanto o aprendiz corria de volta  cozinha.
   - Voc sofreu um choque - protestou Simon. - Precisa descansar.
   - Por favor, no conte a Aiken e Drusa o que aconteceu no rio. No quero assust-los.
   Simon mostrou-se contrariado
   - No mentirei a eles, por dois motivos. Primeiro, porque detesto mentiras. - E com razo, pois sua vida inteira fora uma. -  Segundo, se o ataque do bandido
foi planejado, precisamos nos precaver contra uma nova investida.
   - Pensei que fosse um ladro...
   Drusa chegou afobada.
   - Aiken me disse que precisava de ajuda. - Com olhar arguto, estudou-lhes os rostos. - O que foi que aconteceu?
   - Ela caiu no rio - informou Simon, de chofre.
   - E ele pulou para me salvar.
   A empregada engoliu em seco.
   - Podiam ter se afogado!
   - Sir Simon  excelente nadador - tranqilizou Linnet, minimizando o ocorrido sem recorrer  mentira. - Estamos bem, como pode ver. O esmoler nos deu abrigo.
Por isso demoramos tanto. Tivemos que esperar nossas roupas secarem.
   - Pobrezinha. - Drusa acolheu Linnet junto ao peito. - Vamos subir agora mesmo. Vou coloc-la na cama e...
   - No estou cansada. - Linnet desvencilhou-se dos braos da criada delicadamente - Mas um prato de comida no faria mal.
   - Claro! Aiken foi  hospedaria e trouxe uma torta de carne. Mas no  conveniente que jante na cozinha com os soldados - opinou Drusa. - Aiken levar uma bandeja
ao seu quarto.
   - Com a refeio de sir Simon, tambm - completou Linnet.
   A empregada deu uma boa olhada no cavaleiro antes de se retirar.
   - Linnet, no  conveniente que fiquemos sozinhos no seu quarto - observou Simon. Alis, era um perigo.
   - Temos que trocar idias a respeito do que descobrimos hoje e planejar um curso de ao. Acho melhor conversarmos em local reservado.
   Simon suspirou. Linnet tinha razo. Drusa era confivel quanto a guardar segredos, mas Aiken parecia um tanto avoado e os soldados no lhe deviam fidelidade.
   - Vamos, ento - concordou, relutante.
   Linnet sorriu maliciosa.
   - Prometo me comportar.
   Simon gostaria de prometer o mesmo, mas no garantia nada. Subiu a escada atrs de Linnet. No quarto, a fim de manter as mos ocupadas, tratou de reavivar o fogo
na lareira. Por precauo, mantinha a espada embainhada  cintura. Era meio difcil seduzir uma mulher com uma arma daquelas entre ambos.
   - Por onde comeamos?
   - Voc pode comear abrandando essa cara feia - replicou Linnet, estendendo sobre a cama a capa emprestada. - Minha nossa, parece que faz um sculo que deixei
este quarto!
   Simon sentia-se vulnervel, como se o tivesse virado do avesso e agora se encontrasse ali, diante dela, totalmente indefeso. A sua merc.
   - . Aconteceu muita coisa em pouco tempo.
   - Muita coisa mesmo. - Ela se juntou a ele defronte  lareira, contemplando as chamas. - Meu mundo virou de pernas para o ar. Thurstan morreu, voc voltou, estamos
sendo ameaados...
   Simon admirava-lhe o perfil. No era a morte do bispo, nem mesmo o perigo vigente que o perturbava. Havia anos considerava o pai morto e o perigo fora seu companheiro
constante nos ltimos quatro. Era Linnet quem lhe perturbava a paz interior to duramente conquistada. A luz do fogo realava-lhe a beleza, os olhos grandes e inteligentes,
as mas do rosto salientes, os lbios cheios.
   Aiken alcanou o topo da escada. Agitava-se entusiasmado ao pousar a bandeja coberta.
   - Drusa contou que o senhor salvou a vida de Linnet, sir Simon. Estamos muito gratos.
   Simon deu de ombros.
   - No foi nada.
   Linnet sorriu.
   - No para mim.
   - Mas como foi que aconteceu? - indagou o aprendiz, curioso.
   - Fui imprudente, como sempre - esquivou-se Linnet.
   Simon olhou-a bravo.
   - V jantar, rapaz, enquanto falo com sua patroa sobre a... imprudncia dela.
   O rapaz retirou-se com passos arrastados.
   - Conhece o homem que nos atacou? - indagou Linnet.
   - Por que pergunta?
   Linnet encarou-o, sem responder.
   Simon no se intimidou.
   - Vamos jantar. - Foi at a mesa, puxou as duas banquetas e ocupou uma delas.
   Ela cruzou os braos e ficou esperando.
   Ele grunhiu.
   - Est bem. Venha c.
   Linnet no parecia convencida ao acomodar-se  mesa. Estava curiosa, mas mantinha-se paciente.
   Simon preferiria no preocup-la, mas detestava mentiras.
   - Foi o lder dos bandoleiros que nos emboscaram na estrada vindo de York.
   Linnet surpreendeu-se.
   - Ah! Aquele que escapou.
   - Ele mesmo, que Deus o fulmine. - Simon pegou a faca, cortou a torta de carne e colocou uma fatia na tigela de Linnet, antes de se servir. Com a colher, comeou
a comer, mais para ter algo para fazer do que por fome. Ainda sentia o estmago meio embrulhado. - Posso jurar que j o vi em Durleigh. Na catedral. No lhe pareceu
familiar?
   - No, se bem que fiquei concentrada na faca dele.
   Simon estremeceu. Chegara to perto de perder Linnet.
   - E estranho que ele o tenha procurado... - observou ela.
   Simon ergueu o rosto. Linnet o fitava com o olhar firme e inteligente.
   - Provavelmente, avistou-me e decidiu vingar-se dos comparsas.
   - Mas por que no esperou at que estivesse sozinho?
   - Acho que no  do tipo muito esperto.
   - No entanto, disse que era o lder dos bandoleiros, e garanto-lhe que deviam ser espertos, pois no se deixaram pegar nem pelo delegado Turnebull, nem por Hamel,
depois que assumiu o posto.
   Simon piscou.
   - Para ser franco, estava to ansioso para chegar a Durleigh... - E confrontar-se com Thurstan... - .que nem refleti sobre o ocorrido. Provavelmente estavam em
conluio com algum, um baro, talvez, que lhes daria proteo em troca de uma parcela do butim.
   - Por que o sobrevivente voltaria a Durleigh, ento?
   - Talvez temesse a punio do baro.
   - Ou talvez precisasse tratar de um ferimento e soubesse que a velha Nelda o atenderia sem mais perguntas.
   Simon franziu o cenho.
   - Estou to confuso que essa hiptese nem tinha passado pela minha cabea. Vou interrogar a velha quanto ao paradeiro do homem.
   - Ela no  do tipo que presta esclarecimentos.
   - Uma moeda de prata pode soltar-lhe a lngua.
   - Com certeza. - Linnet pegou a colher e comeou a brincar com a torta. - Acha que estou errada em suspeitar de Crispin?
   - No gosto dele - declarou Simon. - Mas pensar que seja capaz de cometer assassinato...
   - E quanto ao que irmo John contou? Se Crispin deixou um novio morrer congelado s porque havia fugido, no seria capaz de punir Thurstan por suas transgresses?
   - Suponho que sim. No faltam histrias de padres que pecaram para conseguir o que queriam, riqueza, poder, mulheres.
   Pensando na me, Simon imaginou se ela se deitara com Thurstan espontaneamente ou se ele se encantara com ela e a forara.
   - Temo que jamais consigamos elucidar este caso - desabafou Linnet, levantando-se abruptamente, mas no antes que Simon visse sua expresso aflita.
   Ele a seguiu at a lareira.
   - No perca a coragem.
   Sacudida por um leve tremor, Linnet abraou o prprio corpo, segurando-se.
   - At esta tarde, nunca tinha percebido como  frgil a linha entre a vida e a morte.
   Simon tambm estremeceu, lembrando-se que quase perdera seu amor.
   - Ah, Linnet...
   Abriu os braos. Ela entregou-se, e pareceu a coisa mais natural do mundo ficarem juntos.
   Simon nunca tivera tanta conscincia do contraste entre sua masculinidade e a branda feminilidade da mulher como naquele momento. Talvez porque nunca tivesse
passado muito tempo com uma mulher. Os pais mantinham as filhas casadouras bem protegidas de cavaleiros bastardos pobretes como ele, e nunca desejara permanecer
com as prostitutas que procurara a fim de aliviar o desejo.
   No tinha vnculos, exceto o pacto de fidelidade estabelecido com lorde Edmund e uns poucos amigos, alm daquele formado com os outros cinco cavaleiros da Rosa
Negra. Mas Linnet era diferente. Vivaz e compadecida, forte porm vulnervel, ela lhe despertava um sentimento que no conhecia. Tentou elimin-lo. Ela no era para
ele. Nenhuma mulher era. Havia muito, jurara nunca se casar, nem ter filhos. Agora que sabia qual sangue corria em suas veias, estava mais determinado do que nunca.
   - Eu precisava disto - sussurrou ela, aconchegando-se contra o peito dele, ameaando seu autocontrole. - Enquanto irmo John tentava nos ajudar, eu s queria
que
voc me abraasse.
   - Eu sei. - Com os dentes cerrados, Simon combateu bravamente o impulso de esmagar Linnet contra si, de livrar-se das camadas de l que os separavam e enterrar-se
naquele calor feminino. - Temi no alcan-la a tempo.
   - Mas alcanou. - Linnet fitou-o com olhos midos, brilhantes. - Arriscou a vida para me salvar.
   - Que mais poderia ter feito?
   As lgrimas ampliavam os olhos dela. Refletida neles, ele via sua prpria imagem. Afogando-se, pensou. Afogava-se em Linnet. Foi seu ltimo pensamento consciente
antes de inclinar o rosto e beij-la.
   Ela deixou escapar um suspiro ao receb-lo, enlaando-lhe o pescoo com os braos, o corpo derretendo-se contra o dele. Generosa e dcil, ela respondia com a
mesma urgncia que incendiava as entranhas do cavaleiro. Deslizando as mos por suas costas macias, ele a ergueu, de modo que se encaixassem.
   Perfeito. As curvas suaves do corpo de Linnet amoldavam-se aos ngulos duros do dele com perfeio. Era como um sonho. O sonho dele.
   Com um gemido, Simon aprofundou o beijo, atnito com a sobrepujante sensao de certeza, de que pertencia a algum.
   - Sir Simon! Sir Simon!
   Ele ergueu o rosto, fitou Linnet nos olhos espantados e s ento deu-se conta de que os gritos vinham l de baixo.
   Os guardas!
   - Fique aqui! - Simon largou Linnet e correu para a escada. Miles aguardava-o no trreo. - O que foi?
   - H um homem na porta dos fundos.
   - A esta hora da noite? Alguma coisa est errada...
   Enquanto se dirigia  cozinha, Simon imaginava que novas calamidades se abateriam sobre eles.

   - Simon! - Irmo Anselme detinha-se instvel  porta da loja, a mo sobre o corao.
   - Calma, irmo. - Simon segurou o enfermeiro e ajudou-o a chegar ao banco defronte  lareira.
   - Est vivo! - Plido, irmo Anselme expressava esperana nos olhos avermelhados. - E Linnet?
   - Est l em cima, descansando. - Simon reparou na platia ao redor: Drusa, preocupada, Aiken, agitado, mais dois soldados curiosos. - Drusa, acho que o bom irmo
est precisando de um drinque.
   - Vou buscar um usque e ver se mileide est bem. - A criada partiu num farfalhar de saias rsticas.
   Simon mandou Miles e Jasper vasculharem o jardim e Aiken verificar a frente, antes de se sentar ao lado do monge.
   - Quem foi que lhe disse que estvamos mortos? E quando?
   - No fim da tarde. Eu tinha ido relatar minhas descobertas a irmo Crispin. O delegado Hamel e lady Odeline estavam com ele, comemorando a morte dos assassinos
de Thurstan.
   - Ou seja, Linnet e eu. - Simon coou o queixo.
   - Exato. Crispin est convencido de que os dois so os culpados. Mas o que foi que aconteceu? Por que foram dados como mortos?
   Uma vez que Drusa se aproximava com uma garrafa, Simon sussurrou:
   - Depois explico.
   Linnet vinha logo atrs da criada. Simon levantou-se, desocupando o lugar ao lado do monge e, meio de longe, assistiu  comovente reunio. A proximidade entre
Linnet e Anselme era to evidente quanto a preocupao de Drusa. A ampla demonstrao de afeto afetou-o intimamente. Inveja, concluiu, tentando, sem sucesso, afastar
o sentimento.
   Uma movimentao  porta dos fundos anunciou a volta dos soldados, no instante em que Aiken adentrava o laboratrio. Todos os trs relataram no haver nada de
errado l fora.
   Simon abenoou a interrupo. Rpido, despachou os soldados de volta a seus postos e refletiu sobre a melhor atitude a tomar naquela situao. Queria fazer algumas
perguntas ao monge, mas sem que Linnet presenciasse. Principalmente ela.
   - Irmo Anselme, eu o acompanharei de volta  catedral.
   Linnet encarou-o. O brilho dourado em seus olhos enfraquecera um pouco, devido ao choque e  exausto, mas no falharam em transmitir desconfiana.
   - Tambm vou.
   - De jeito nenhum! - protestou Drusa. - Vai j para a cama, mocinha, e ficarei a sua cabeceira at que durma.
   Linnet lanou um olhar fulminante para Simon. Ele, por sua vez, sorriu benevolente. Tomando cuidado para no parecer convencido, pegou emprestada uma capa grosseira
de Jasper e apressou Anselme para deixar a loja. L fora, depois que passaram a tranca na porta, suspirou aliviado.
   - O que se passa? - sussurrou Anselme.
   - Falarei no caminho.
   Simon levantou a gola a fim de ocultar o rosto e seguiu um trajeto por ruas secundrias. A noite estava fria e poucos aventuravam-se para fora de casa, mas manteve
a voz baixa ao contar os acontecimentos do dia.
   - Graas a Deus esto salvos! - Anselme fez o sinal da cruz. - Mas por que esse bandoleiro estaria atrs de voc?
   - Acho que a mando do delegado.
   - O delegado em conluio com foras-da-lei? - Anselme meneou a cabea. - No posso crer.
   - Pouca gente conhece o verdadeiro carter de Hamel - murmurou Simon. - Trata-se de um homem ganancioso, inescrupuloso e astuto.
   - Bem, isso explicaria por que os bandidos nunca eram capturados.
   - Com certeza. O homem pareceu-me familiar... - Simon o descreveu o melhor que pde. - J viu um tipo parecido na cidade ou na catedral?
   - No sei. No venho muito  cidade, e a catedral recebe muita gente. Estudantes, peregrinos e at irmos de outras ordens vivem nos visitando.
   Simon suspirou.
   - O que importa  que estamos em segurana.
   - E, mas o boato j se espalhou. - Anselme s explicou depois que atravessaram a movimentada High Dur Street e pegaram outra ruazinha estreita.
   - O arquidicono exps sua teoria de que Linnet, incapaz de suportar a culpa, atirou-se no rio, e voc morreu tentando salvar sua amante.
   - A soluo perfeita - murmurou Simon. Assim, as duas pessoas que Crispin acusava do crime no poderiam mais se defender. Agindo assim, o arquidicono parecia
cada vez mais suspeito. - Os homens do delegado continuam a nossa procura?
   - Parece que sim. O rio est cheio nesta poca do ano e soube que as buscas j seguem para l das muralhas da cidade.
   - E o proco? Estava presente no salo?
   - No. No vi irmo Walter o dia todo.
   Simon sentiu aguar-se seu sexto sentido. Passara a desconfiar de Crispin devido aos comentrios de Walter. Estaria o proco tentando desviar as suspeitas de
si mesmo?
   - Por acaso, ele deixou Durleigh?
   - No. E que passei o tempo todo na enfermaria.
   - Descobriu mais alguma coisa?
   O suspiro de Anselme pareceu encher a noite.
   - Confirmei minha teoria. Thurstan estava sendo envenenado. Lentamente.
   Simon estacou.
   - H quanto tempo?
   - O mal manifestou-se h uns cinco meses.
   - Em dezembro... Aconteceu algo fora do normal nessa poca?
   - Bem, ele sofreu o ataque em novembro, na missa encomendada s almas de nossos cruzados. - Anselme sorriu pesaroso. - Preces que foram atendidas com sua volta.
Mas em dezembro ele j estava recuperado e conduziu todas as celebraes do Natal.
   - Quando a velha Nelda foi banida?
   - A primeira reclamao contra ela deu-se aps o Ano-Novo - lembrou Anselme. - Por parte do arquidicono. Mas a audincia s aconteceu dali a algumas semanas.
Mesmo depois que ela foi julgada culpada, Thurstan no permitiu que fosse expulsa antes que o clima esquentasse. Simon descartou as informaes a respeito da velha
Nelda. At podia ser a assassina, mas nunca tivera acesso fcil ao bispo.
   - Ele e Crispin devem ter discutido muito sobre o caso.
   -  Discutiram.
   - E h o caso dos ossos! - Simon contou ao monge o que o coveiro lhe revelara.
   Anselme espantou-se.
   - Nunca soube de nada disso!
   - O coveiro disse que, no dia em que Thurstan morreu, o arquidicono o chamou  catedral para testemunhar contra o bispo. Segundo ele, Crispin estava furioso
com
Thurstan.
   - Aonde quer chegar? - A luz que se derramava da porta de uma taverna iluminou as feies transtornadas de Anselme.
   - S estou dizendo que o arquidicono parecia odiar o bispo.
   - Inadmissvel! - exclamou o monge, convicto. - Mestre Billeter odiava Thurstan muito mais.
   - Sim, eu soube. - Simon reproduziu o relato de Jean Billeter.
   Anselme sorriu.
   - O Senhor escolhe caminhos tortuosos.
   - E, o metalrgico teve o que merecia. - Simon suspirou. - S que Clarence no poderia ter atacado o bispo h duas noites, nem parece do tipo que envenenaria
algum
aos poucos, pacientemente.
   - Tem razo, mas e irmo Crispin? -Anselme fez o sinal da cruz e meneou a cabea. - E o mais pio dentre ns todos.
   - O mais zeloso - corrigiu Simon. Ento, contou ao monge sobre o novio que Crispin deixara morrer congelado junto aos portes da catedral de Wells. - Talvez
o
arquidicono seja mais um que acredita que os fins justificam os meios.
   Anselme baixou a cabea.
   - Concordo com tudo o que disse, meu filho.
   - E Crispin tinha fcil acesso aos aposentos e pertences do bispo.
   - Tinha. - Anselme parou na calada diante do enclave da catedral, fitando as paredes com olhar triste. - Mas assassinato... - Meneou a cabea de novo.
   - No posso crer.
   Nem ningum mais, pensou Simon. No sem provas concretas.
   - Se eu pudesse examinar as coisas dele, talvez...
   Anselme encarou-o horrorizado.
   - Irmo Crispin jamais lhe daria permisso para tal coisa.
   - Nem eu lhe pediria.., temeroso de alert-lo. E possvel que ele j se tenha livrado dos venenos.
   Anselme franziu o cenho.
   - Crispin no poderia t-lo golpeado na cabea, nem envenenado-o com beladona, porque estava no salo com irmo Walter, aguardando para jantar com Thurstan.
   - Eu sei. Talvez Crispin tenha um cmplice.
   - Lady Odeline? - sugeriu Anselme, externando os pensamentos de Simon.
   - Quem sabe... - esquivou-se o cavaleiro, cauteloso.
   - O senhor mesmo comentou que viu os dois conversando h pouco tempo. No  estranho?
   - E. E foi ela quem encontrou Thurstan. -Anselme rememorou os acontecimentos da noite fatdica. - Embora tivesse afirmado que ele estava vivo, ela no me pareceu
ter ficado muito chocada quando chegou ao quarto e o viu morto.
   - Talvez no seja boa atriz.
   - Santa Maria. - Anselme passou a mo no rosto.
   - No sei o que  pior, acusar um padre ou o prprio sangue de Thurstan. De qualquer forma, foi um crime vil e requereu uma certa fora. Descobri que Thurstan
estava vivo quando o obrigaram a ingerir a beladona.
   - Obrigaram?! - Simon sentiu a garganta obstruda.
   - Ele tinha hematomas no queixo, como se lhe houvessem forado a mandbula.
   - Ele sentiu alguma dor? - indagou Simon.
   - Um pouco. A beladona paralisa antes de matar, mas parece que a mente permanece lcida.
   - Droga!
   Simon apertou os olhos horrorizado. Uma coisa era desejar a morte do homem que o ignorara, outra bem diferente era saber que ele morrera em etapas, incapaz de
gritar, consciente de que sua vida se esvaa. Sentiu-se nauseado e o sentimento de culpa aumentava seu mal-estar. Naquela noite, se no houvesse se retirado da presena
do bispo cego de to furioso, talvez tivesse visto algo. Poderia ter impedido o assassino.
   - Acabou-se rpido. Em alguns segundos, no mximo. Alguns segundos de puro inferno. Simon cogitou se lady Odeline teria conhecimento de ervas.
   - Foi a beladona que lhe distorceu as feies, fazendo-nos pensar que ele sofrera um ataque.
   - Prefiro que Linnet no saiba de nada disso - declarou Simon.
   - Pretendo revelar a poucas pessoas, alm de voc e o proco. Como v, a morte de Thurstan foi to infame que me recuso a acreditar que Crispin ou Odeline sejam
os autores.
   Simon olhou para cima, atormentado, e contemplou o cu cheio de estrelas. Teve uma breve, estonteante viso de Thurstan olhando l de cima, esperando justia.
Quem o matou? No houve resposta, porm, com exceo da brisa noturna. Baixou o olhar para Anselme.
   - Mas algum o matou e vou descobrir quem. O acnito e a beladona poderiam ter sado de seu estoque na enfermaria?
   - Considerei essa possibilidade. Guardamos os remdios perigosos num armrio, cuja chave s eu possuo. Ontem, fiz um inventrio completo. Tudo est como deveria.
No falta um gro de p, nem uma gota de nada.
   - Mas todos os frascos continham o que indicavam os rtulos? Nenhuma substncia foi substituda?
   - Verifiquei isso tambm, claro - replicou o monge irritado.
   Simon ergueu a mo.
   - Sei que pareo estar me agarrando a fiapos, irmo, mas e que estou desesperado para livrar Linnet das suspeitas.
   - Eu sei. - O monge pousou a mo no brao do cavaleiro. - Obrigado por salv-la de afogar-se no rio.
   Simon deu de ombros, constrangido com o brilho nos olhos do religioso, mas no fundo sabia que nunca na vida se sentira to grato quanto no instante em que tirara
Linnet da gua. Viva.
   - O que vai fazer agora?
   Simon engoliu em seco. Afastar o sentimento de culpa era mais dificil, mas j estava acostumado a confinar fatos desagradveis de sua vida num recndito da mente.
   - Amanh, iremos ao palcio mostrar ao arquidicono que estamos bem vivos. - Sorriu travesso. - Quero ver a cara dele.
   O        sino ecoou pela cidade, as notas solenes reverberando entre pedras antigas.
   - Preciso entrar - declarou Anselme. - Mais uma vez, obrigado por salvar Linnet. Thurstan a queria como filha. Teria ficado feliz em ver vocs dois juntos...
   - No estamos juntos - replicou Simon, contrariado.
   - Claro que no - concordou Anselme, erguendo o sobrolho. - Voc  quem sabe o que se passa em seu corao, filho. - Com isso, afastou-se.
   S que Simon no sabia o que se passava em seu corao. Podia jurar que estava vazio e gelado como um tmulo.., at encontrar Linnet.

   - A voc, mileide. - Hamel ergueu o clice e encostou-o no de Odeline.
   Estavam no quarto da casinha dele perto do mercado.
   Odeline bebericou e avaliou a melhor maneira de fazer o homem curvar-se a sua vontade. Talvez com uma pitada de verdade, pois o delegado era ganancioso.
   - Oh, Hamel, com Thurstan morto, temo que Jevan e eu sejamos jogados na rua...
   - No, eu cuidarei de vocs. - Hamel pousou o clice e tomou-lhe as mos. - E Jevan tem lugar garantido na escola da catedral.
   - S porque Thurstan pagou os estudos dele. - A idia de morar naquela casa minscula, numa cidade remota, com o parvo Hamel como nica companhia, fazia-a chorar
de verdade. - Sabe, Thurstan j tinha destinado a ns uma pequena propriedade quando morreu. At me mostrou a escritura, mas esta desapareceu. Simon roubou-a.
   Idiota. Fora falta de esperteza sua no ter pedido o documento a Thurstan dias antes.
   Hamel tinha os olhos cintilantes.
   - Uma propriedade?
   - Pequena, porm prspera. - Odeline deixou mais uma lgrima deslizar ao imaginar as ricas terras com sua bela manso indo para as mos vidas da igreja. Com
a
bela soma que lhe renderia a venda de Blackstone Heath, poderia voltar a Londres para viver em grande estilo. - A escritura est naquela agenda que lhe pedi para
encontrar...
   - No chore. - Hamel afagava-lhe as mos. - Vou consegui-la.
   Odeline soluou.
   - Como? Jevan j vasculhou todo o quarto de Simon e nem sombra do dirio de Thurstan.
   - Vou revistar novamente. Agora que ele est morto, posso confiscar-lhe os pertences, abrir o colcho, rasgar as roupas...
   - Podia estar com ele quando se afogou.
   - Hum. Meus homens ainda no conseguiram encontrar o corpo, mas, assim que o acharem, juro que arrancarei o dirio de...
   - Poupe-me dos detalhes - pediu Odeline.
   - Desculpe-me, minha querida. Esqueo-me de que e delicada. - Afagou-lhe o brao. - Ser que o bispo no confiou uma cpia dessa escritura a outra pessoa? Ao
arquidicono,
talvez?
   Odeline volveu os olhos ao teto.
   - Thurstan teria confiado mais no diabo do que em Crispin Norville.
   Esperava do fundo do corao que o irmo estivesse mesmo no inferno. Seria bem feito, por t-la desprezado e, ainda por cima, atiado-a com aquela escritura.
   Se no fizer nenhum escndalo enquanto estiver aqui, darei Blackstone Heath a Jevan quando ele completar os estudos, prometera Thurstan.
   Passara a viver como freira. At Thurstan cair doente, quando voltara a se divertir.., com Hamel.
   - Alm disso, s existe uma cpia, que agora est sumida - completou. - Talvez devesse ter contado ao arquidicono essa histria, mas.., ele no me aprova. Temo
que tente confiscar a propriedade para a igreja.
   Hamel desdenhou.
   - E claro que aquele gatuno pio vai querer tudo para a igreja! No,  melhor encontrarmos a escritura.
   Bem melhor. Odeline sorriu para Hamel, o olhar sedutor. Os homens eram bestas idiotas, previsveis. Admirou o corpo musculoso e as mos grandes de Hamel, amante
forte e implacvel. Ele a olhava insinuante, carregado .de calor sensual.
   - Prometa que no comentar nada sobre a escritura - pediu Odeline, ronronando.
   O delegado sorriu convencido.
   - Prometo.
   Odeline deixou a tenso entre ambos prolongar-se, avaliando a intensidade do desejo masculino pelo respirar do homem. Quando ele se inclinou para beij-la, levantou-se.
   - Simon pode ter deixado o dirio no boticrio, por segurana. - Foi at a janela, sabendo que Hamel a seguiria como um co adestrado.
   - Procurarei l tambm, ento.
   - Como? Com que pretexto?
   Hamel a fez voltar-se.
   - Arranjarei uma desculpa. - Tomou-lhe os lbios num beijo esmagador. - Confie em mim.
   Odeline no confiava em nenhum homem. Jevan era o nico em quem podia confiar para apoi-la. E ela a ele.
   - Est bem, mas temos que encontrar a escritura antes do enterro de Thurstan.
   - Encontraremos.
   Hamel carregou-a para a cama e caiu sobre ela feito um animal faminto. Tanta paixo provocou-a, e rolaram por cima das cobertas, mordendo-se e arranhando-se na
pressa de satisfazer o desejo ardente.
   Onde quer que esteja, Thurstan, espero que possa ver-me, pensou Odeline, quando Hamel montou em cima dela e levou-a ao clmax final.
   Pouco depois, ela se lavou, vestiu as roupas e saiu do quarto, enquanto o amante roncava.
   Jevan estava em seu posto no porto dos fundos.
   - E ento?
   - Ele vai procurar a escritura.
   - timo. No gosto muito dele, mas um delegado pode revistar impunemente lugares a que no temos acesso. No vou perder Blackstone Heath aps tudo o que suportei
para obt-la.
   Odeline concordou, cobriu a cabea com o capuz e tomaram a Petergate, rumo  catedral.
   - Eu devia t-lo feito me entregar a escritura antes - resmungou Jevan, chutando as pedras pelo caminho.
   Odeline sentiu um calafrio na espinha.
   - Como assim, antes?
   Jevan fitou a me de soslaio, dando de ombros.
   - Antes de concordar em ficar aqui. - Fez uma careta. - No agento mais um dia naquela escola. Eu, sacristo... - Gemeu. - Prefiro morrer.
   - Foi o que seu tio Thurstan disse quando nosso irmo Richard morreu e nosso pai informou que ele  que seria o bispo, mas at que ele se aproveitou bem da situao.
   Contemplou o palcio do bispo, as pedras cinzentas iluminadas pelas tochas ao redor.
   Poder. Riqueza. Prestgio.
   Sim, seu meio-irmo sara-se muito bem, o bastardo inescrupuloso.
   Menos no final.
   Odeline sorriu na escurido.

   Simon deu uma volta em torno do boticrio para certificar-se de que no havia ningum  espreita e bateu na porta dos fundos.
   Miles atendeu de imediato.
   - Algum problema, sir Simon?
   - No, est tudo tranqilo.
   Drusa levantou-se da mesa da cozinha. Tinha soltas as tranas grisalhas e trajava um roupo grosseiro, mas sua expresso era de preocupao.
   - Ela disse que no se recolheria at o senhor chegar.
   Pesadelos, concluiu Simon, certo de que tambm o atormentariam. Daria qualquer coisa para ir at Linnet, aconcheg-la a noite toda, mas no era s conforto o
que gostaria de lhe oferecer.
   - E se voc dormisse no quarto?
   - Ofereci-me. Ela pediu para ficar sozinha. - A velha criada enxugou as lgrimas na manga. - Est l na cadeira de balano, agarrada ao livro de oraes...
   - Livro de oraes?
   - , aquele que o bispo Lhe deu... na ltima noite. - Drusa tinha a boca trmula.
   Simon sentiu um n nas entranhas. Era irracional sentir cime de um morto, mas, no que se referia a Linnet, no demonstrava o mnimo de racionalidade.
   - Vou l falar com ela.
   Encontrou Linnet acomodada diante do fogo baixo, os olhos vetrificados, com um pequeno livro em capa de couro apertado ao peito como uma criana amada.
   - Linnet, assim vai ficar doente.
   - Eu devia ter ficado l - sussurrou ela, atormentada. - Mas estava zangada com ele e o deixei. Se tivesse ficado, quem quer o matou...
   - Pare. - Simon ajoelhou-se e segurou-a pelos ombros. Frustrado, queria sacudi-la, mas no momento ela precisava de carinho e compreenso. - Tambm estive l.
Acha que no me flagelo com a mesma culpa? - questionou, pesaroso.
   - Mas... voc no se importa que ele esteja morto.
   - H alguns dias no me importava, mas agora... - Simon suspirou e massageou-lhe os ombros, maravilhado com a fora contida num corpo to magro. - Ele nunca foi
um pai para mim, mas descobri que foi um bom homem, sob outros aspectos. Um pastor capaz e cuidadoso com seu rebanho.
   Linnet sorriu enfraquecida.
   - Sim, era um bom pastor. Fico feliz que goste um pouco mais dele. Mas no posso deixar de imaginar que, se no o tivesse deixado sozinho...
   - Linnet, talvez tivesse impedido o assassino naquela noite, mas ele teria esperado outra oportunidade.
   - Tem razo. - Abraando o livro com mais fora, Linnet voltou-lhe os olhos cheios de pesar em busca de respostas.
   Simon hesitou. J testemunhara angstia semelhante, entre os companheiros que haviam perdido um amigo em combate, entre camponeses inocentes cujas vidas a guerra
destroara. No existiam respostas para um sofrimento to intenso, mas queria desesperadamente aliviar o de Linnet.
   - Quer que eu leia uma prece para voc?
   Ela refletiu por um segundo, ento, recusou.
   - Meu corao ainda no est pronto para aceitar as palavras de cura.
   Simon aquiesceu.
   - Deixe Drusa dormir aqui no quarto, no colchonete.
   - No. Mas gostaria que voc ficasse.
   Ele sentiu o sangue ferver, o corao aos pulos.
   - Est cansada, perturbada, no sabe o que est dizendo...
   - Sei, sim. - Linnet tinha os olhos brandos agora, cheios de um desejo que ele conhecia bem demais.
   Trmulo, Simon estava a ponto de ceder ao impulso que os compelia desde aquele primeiro encontro, no jardim. Queria Linnet, e ela o queria. Corada, ela revelava
paixo no olhar, mas sob o fogo espreitava uma vulnerabilidade, a qual s fazia atiar suas necessidades masculinas.
   - Eu fico - sussurrou, afagando-lhe o rosto. Ela murmurou seu nome e beijou-lhe a palma da mo, gesto tocou o corao duro do cavaleiro, ao mesmo tempo que lhe
dava a certeza quanto ao que fazer.
   - Linnet... - Simon levantou-se e ergueu-a da cadeira, com o livro de oraes e tudo. Olhos nos olhos, carregados de desejo silencioso, levou-a para a cama. O
perfume de rosas na pele macia o inebriava. Cus, como em seu sonho! Precisava saber se ela correspondia  mulher de seus sonhos. - Linnet... - repetiu, afastando-se,
antes que cedesse  insanidade.
   Ela franziu o cenho, confusa.
   - Simon?
   - Durma - disse ele. - Passarei a noite... em sua cadeira.
   - Mas pensei... - Os olhos dela encheram-se de lgrimas. - Eu queria...
   - Eu tambm. - Simon conseguiu sorrir, a despeito da batalha em seu ntimo. - Mas no esta noite, quando estamos esgotados de nossas lutas e preocupados com o
amanh.
   Aps um breve toque nos cabelos dourados de Linnet, ele se afastou, antes que mudasse de idia. No caminho, foi apagando as velas, lanando o quarto em escurido
quase total.
   - Simon?
   Ele estacou, dominado pela sensao de que j vivera aquele momento antes. O chamado de Linnet no meio da noite tambm o remetia ao velho sonho.
   - Sim?
   - Obrigada por ficar. Sinto-me segura com voc perto.
   Simon grunhiu. Linnet no deveria sentir-se to segura, pois ele estava bem prximo de perder o controle.
   - Durma - repetiu.
   Ele mesmo permaneceria acordado, pois, se dormisse, sonharia. E, no sonho, procuraria Linnet.

   O arquidicono Crispin descia correndo os degraus da catedral, mal reparando nos outros irmos e estudantes dispersando-se atrs dele.
   Estava cansado e tinha muitos afazeres pela manh, mudanas na administrao da catedral de Durleigh, apenas ocorrera-lhe, ao ouvir o relatrio de Gerard quanto
ao paradeiro dos residentes na hora em que o bispo fora atacado, que negligenciara um detalhe. Uma pequena prova capaz de relacion-lo ao mal de Thurstan.
   O recipiente com p de acnito.
   - Deus sabe que eu no queria que ele morresse - sussurrou Crispin.
   Quisera apenas que o bispo adoecesse e fosse substudo no cargo por um homem mais digno. Algum no ele prprio, embora tivesse aceito qualquer outro que fosse
pio e puro de propsitos.
   - Foi vontade de Deus - opinou irmo Gerard, parecendo de repente a seu lado.
   - O qu? - exclamou Crispin, temeroso de ter sido vido.
   - Foi vontade de Deus que aquela mulher e o cavaleiro se afogassem por terem matado nosso bispo - licitou irmo Gerard. - Foram amantes antes que Simon de Blackstone
tomasse a cruz.
   - Eu sei. O delegado Hamel contou-me que os flagrou juntos na noite que antecedeu a partida dos cruzados ao Oriente.
   - Sem dvida, o cavaleiro ficou furioso ao saber que o bispo andara invadindo seu territrio.
   Crispin anuiu, o corao descompassado como o de um coelho ao escapar de uma armadilha. No haveria investigao rigorosa, ningum descobriria o que ele fizera.
Faltava-lhe apenas dispor do acnito, escrever ao arcebispo e rezar para ser nomeado bispo de Durleigh.
   - Foi a vontade de Deus - confirmou.
   - Com certeza. Vai precisar de mim esta noite?
   - No. - Crispin pensava na tarefa a cumprir. Notando o espanto de Gerard, explicou: - Vou rezar em minha cela. Pela manh, retomamos nosso trabalho.
   Gerard aquiesceu, mas acompanhou Crispin at a residncia do bispo. Crispin temia que o clrigo o seguisse at os aposentos de Thurstan. Ao chegarem, porm, Gerard
despediu-se e seguiu pelo claustro rumo  casa de reunio do cabido.
   Crispin expirou aliviado e adentrou o palcio apressado. A entrada dominava-se pelas sombras projetadas por um par de archotes instalados  parede. Da penumbra,
materializou-se uma figura, assustando Crispin.
   - Sou eu, reverendo padre - declarou uma voz jovem.
   - Ah, boa noite.
   Com os nervos em frangalhos, Crispin passou pelo clrigo que servia de porteiro naquela noite e tomou a escadaria  direita. Mais tochas lanavam uma luz escassa
pelo poo circular. Por hbito, Crispin olhou para os aposentos do bispo. Luxuosos demais para um homem de Deus, pensou, passando  rea destinada aos depsitos
e celas simples para monges visitantes.
   Embora Lhe houvessem oferecido uma sute na casa de reunio do cabido, preferira um quartinho frio e mido. Pegou uma vela de uma cesta no cho, acendeu-a na
tocha e retomou o caminho de depsitos trancados e celas sem porta, at chegar  sua. O cmodo espartano mal tinha espao para o colchonete fino sobre o qual dormia
e a arca com seus poucos pertences: rolos de pergaminho com oraes de sua autoria, uma capa rstica, um velho hbito e, debaixo de tudo, embrulhado numa tira de
pano, o vidro com aconito.
   - Ah, irmo Crispin - sibilou uma voz grave, insinuante.
   Crispin girou nos calcanhares, perdeu o equilbrio e caiu no cho de terra batida. Em meio s estrelas danando diante de seus olhos, vislumbrou uma figura a
    entrada do aposento.
   Walter de Folke.
   - Ir-irmo... - gaguejou Crispin, resistindo ao impulso de atirar-se sobre a arca. - O que faz aqui?
   - Estou na cela ao lado.
   - Mas... tem aposentos l em cima.
   - Muito confortveis, por sinal. - Walter sorria de um jeito que agitava os nervos de Crispin. - Mas  que jurei renunciar a todo luxo at que se pegue o assassino
de Thurstan.
   Crispin levantou-se com dificuldade, o corao aos pulos.
   - Ela... eles... esto mortos - comentou, atrapalhado. - Afogaram-se no rio. Foi a vontade de Deus.
   - Ser? - Walter dirigiu-lhe um olhar frio e desconfiado. - Podem estar mortos, mas ainda no me convenci de que descobrimos toda a verdade. At a concluso desta
histria, comerei e viverei numa simplicidade digna de So Benedito. Por isso, ocupei a cela ao lado desta, onde passarei a noite em contemplao e oraes. Desejo-lhe
um bom sono, irmo. - Walter inclinou a cabea e foi-se.
   Crispin grunhiu e caiu de joelhos. O frio da terra se comparava ao que lhe enregelava o sangue.
   Estaria Walter desconfiado de algo? Ou tentava apenas impedir seu progresso a fim de solucionar o mistrio pessoalmente?
   De qualquer forma, o proco no poderia descobrir nada.
   Crispin olhou para a arca. No ousaria mexer no acnito, por agora. Esperaria o momento certo, assim como esperara todos aqueles meses, rezando para que tudo
desse certo.

   Simon remexia-se junto  porta num colchonete que Linnet insistira em retirar de baixo de sua cama. A fina camada de palha mal disfarava a dureza do cho, assim
como o cobertor no protegia do frio que se apossara do quarto depois que o fogo se extinguira. Conseqentemente, no conciliara o sono por muito tempo, mas o desconforto
e a insnia eram seus velhos companheiros, desde o tempo da Cruzada.
   A diferena era o desejo avassalando-lhe as entranhas.
   O som da respirao regular de Linnet e o barulho da palha quando ela se mexia varavam a noite provocando-o. Saber que ela o receberia se se esgueirasse para
a cama dela s fizera aumentar o desejo.
   A honra era um bem valorizado em excesso, concluiu, enquanto a aurora insinuava-se ainda plida atravs da veneziana frgil que protegia a janela. No entanto,
no podia alter-la mais do que ao sangue em suas veias.
   E queria?
   A questo o perseguira a noite toda, mas os fantasmas j no eram os mesmos que passaram a atorment-lo ao descobrir que Thurstan de Lyndhurst era seu pai.
   Seu pai.
   Remexeu-se. Evitara at pensar nisso, mas os depoimentos de Linnet e do povo de Durleigh alteraram sua percepo. Evidentemente, nada abrandaria a dor de ter
sido ignorado a vida inteira, mas agora imaginava por que um homem que dava abrigo a rfo abandonara o prprio filho.
   Sentou-se, fazendo uma careta quando os msculos protestaram.  Nada mudaria o que Thurstan fizera. No havia desculpa para o abandono de um filho, assegurou-se,
exercitando os ombros a fim de abrandar o desconforto. J o vazio no corao era um mal do qual jamais se livraria.
   Simon atirou de lado as cobertas e olhou para a cama. Linnet estava voltada em sua direo, com as mos sob o queixo, o rosto vulnervel  luz fraca. Era aquela
vulnerabilidade, tanto quanto o desejo frustrado, que o mantivera desperto, revirando-se a noite toda. Se no descobrisse quem matara Thurstan, a culpa poderia recair
sobre ela. Com as entranhas contradas de medo, abriu a porta e desceu a escada.
   Drusa j estava de p, preparando mingau de aveia num caldeiro preto sobre o fogo.
   - Como ela est?
   - Dormindo.
   A criada cravou-lhe um olhar inquiridor. A resposta pareceu tranqiliz-la pois sorriu.
   -  um bom homem, Simon de Blackstone. Venha tomar seu desjejum.
   Simon pegou um pedao de po com queijo e saiu para a manh fria. Esperou Miles trancar de novo a porta antes de se pr a caminho. Atravessou a cidade esperando
que o bandoleiro surgisse de algum beco, dando-lhe a oportunidade de retribuir a emboscada com um golpe certeiro da espada.
   Nenhum incidente, porm, ocorreu at a ponte Red Tower. O guarda ao porto explicou-lhe como chegar  cabana da velha Nelda. Tratava-se de uma resistente construo
de madeira aninhada junto s muralhas da cidade. A velha estava diante da casa, sentada numa banqueta de trs pernas, mexendo o contedo de uma panela. No ergueu
o rosto quando ele se aproximou, mas comentou:
   - Ouvi dizer que estava morto, Simon de Blackstone.  mesmo? - Simon cruzou os braos. - Boas notcias espalham-se depressa, pelo que vejo.
   A mulher o encarou.
   - Boas? Quem se alegraria com sua morte?
   - O assassino do bispo Thurstan.
   Ela no alterou a expresso.
   - Por isso veio, com fogo nos olhos, para acusar Nelda de matar o bispo?
   - Ou Olf.
   A velha desdenhou.
   - Acha que meu menino matou seu senhor porque ele me obrigou a viver aqui?
   Fez um gesto com a mo suja para a cabana de madeira e a margem rochosa do rio. As guas corriam velozes, fedendo com a sujeira de Durleigh.
   - Vivia melhor dentro da cidade, no? - constatou Simon.
   - Nem tanto, pois custava-me caro. Aqui, sou livre.
   Simon olhou para a porta fechada da cabana.
   - Olf est? Ele no  visto desde que o bispo morreu.
   - E se estiver?
   - Gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
   - Ele no sabe de nada.
   - Disseram-me que ele trabalhou at tarde nos jardins. Talvez tenha visto ou ouvido algo naquela noite.
   - Duvido. - Nelda contemplou o rio. - Olf  meio retardado. Uma maldio recaiu sobre ele por conta de meus pecados. No  muito capaz, mas Thurstan o ensinou
a cuidar das rosas. - Voltou o olhar atormentado para o cavaleiro. - O que ser delas e dele?
   -  difcil dizer, at que nomeiem o novo bispo.
   - Se depender do arquidicono Crispin, as roseiras sero arrancadas pela raiz. Aquele tem uma alma desprezvel.
   Simon sorriu.
   - Nisso estamos de acordo.
   - Ele est acusando meu Olf de matar o bispo? Achei que mandaria a senhora Linnet para a forca por conta do crime.
   Simon sentiu um n na garganta.
   - Ele est  com pressa de achar logo um culpado s para parecer eficiente aos olhos do arcebispo.
   - Hum. Crispin Norville como bispo? - A velha meneou a cabea grisalha e sebosa. - No seria nada bom para Durleigh. Diga o que quiser de Thurstan, mas ele dirigiu
bem a cidade.
   - Pensei que o odiasse.
   Nelda deu de ombros.
   - Ele fez o que achou certo. No posso dizer que concordo com a deciso dele, mas muita gente queria me ver na forca. Ele impediu. - Sorriu, revelando dentes
quebrados.
-  difcil odiar algum que faz isso por voc.
   - No obstante, fala mal dele.
   -  o que se espera. Se eu o elogiasse, o povo comearia a dizer que a velha Nelda no sofreu o castigo merecido e trataria de me punir, ou a Olf.
   Simon olhou de novo para a cabana, notando algo em que no reparara antes. A madeira das paredes j estava envelhecida, mas no apresentava fendas, e a porta
era nova.
   - Ele pagou as melhorias na casa, no ?
   A velha alargou o sorriso.
   - Voc pensa rpido. Pouca gente acreditaria que o bispo ajudou a pecadora Nelda.
   - Por que ele fez isso? - questionou Simon. - O que faziam vocs dois contra os princpios da igreja?
   - Thurstan e eu queramos a mesma coisa... ajudar as moas que engravidavam sem marido. - Deu de ombros. - A diferena estava em nossos mtodos, s isso.
   Foi a vez de Simon concentrar-se nos volteios impessoais do rio.
   - O seu mtodo ao menos no deixava bebs inocentes a pagar com o estigma da ilegitimidade o pecado de seus pais.
   - Ainda no consegue perdoar Thurstan, nem agora?
   Simon voltou o rosto rpido para a velha.
   - O que quer dizer?
   - Nelda sabe muito, mas sabe tambm morder a lngua. - Sorriu convencida. - Ficaria surpreso com os segredos que guardo. Damas de alta linhagem procuram aqui
comigo
o que no podem comprar de boticrios decentes como sua bela Linnet.
   - Ela no  minha - resmungou Simon, perturbado com o fato de Nelda saber que era filho de Thurstan.
   -  o que diz, mas Nelda pensa diferente. - Voltando a remexer a panela, ela mudou de assunto. - Deve ter ido direto ao bispo quando chegou  cidade.
   - Fui.
   O remorso castigava-o. Teria agido de outra forma se soubesse que aquela seria a ltima vez que veria Thurstan vivo.
   - Imagino as palavras terrveis que disse.  um homem duro e inflexvel, Simon de Blackstone.
   - O que ele fez  imperdovel.
   - Teria sido mais feliz criado  sombra de um homem que muitos temiam e alguns odiavam? - Nelda suspirou. -  bem melhor ter sua prpria sombra, creio.
   - Eu teria sobrevivido.
   - Provavelmente.  forte e corajoso, mas um pai nunca sabe em que o filho se transformar e trata de resguard-lo ao mximo. - A velha Nelda inclinou o rosto
marcado.
   - Estranho como a histria vive se repetindo, no? - Simon enrijeceu-se. - Ele teve outros filhos ilegtimos?
   - No que eu saiba. - Pelos olhos, Nelda expressava divertimento com os segredos que conhecia. - Mas a vida ensina que ningum  isento de pecados, nem mesmo
pessoas
boas como voc. Coisa interessante, o pecado. As pessoas no medem esforos para encobrir os seus. Ou defend-los ou embelez-los Thurstan sabia disso.
   - O que mais ele sabia?
   - Conhecia muitos segredos. - A velha riu. - Tinha o dom de usar o que sabia para curvar as pessoas a sua vontade.
   Por exemplo, enviara homens na Cruzada como penitencia por seus pecados, lembrou-se Simon.
   - Manipular pessoas no  um dom.
   - Um talento, que seja. Voc tambm o possui. - A velha riu quando ele tentou negar. - Todos os lderes tm o dom de fazer os outros realizarem seu desejo. E
o
uso que se faz desse dom que separa os bons dos maus. E pode apostar que Nelda j viu muita maldade nesta vida.
   Simon anuiu, hesitou por um segundo e ento decidiu contar  velha sobre o acnito na aguardente,
   - Olf costumava usar esse veneno nos jardins.
   Nelda contraiu os lbios.
   - Est acusando meu menino?
   - Quem fez isso era esperto e calculista. - Olf no era nem uma coisa, nem outra. - E tinha acesso aos aposentos de Thurstan.
   - Crispin  esperto e calculista e tambm tinha acesso aos aposentos do bispo.
   - No podemos acus-lo sem provas. Minha esperana era que Olf tivesse visto algum por ali.
   - Podemos perguntar. - A velha inclinou a cabea outra vez, curiosa. - Disse que o arquidicono est determinado a provar a culpa de lady Linnet. Est defendendo
a causa dela novamente?
   - Novamente?
   - Eu o vi salv-la das garras de Hamel Roxby na noite que antecedeu a partida dos cruzados de Durleigh.
   Simon franziu o cenho, tentando enxergar atravs da nvoa que obscurecia a maior parte de suas lembranas daquela noite.
   - No fui eu. Deve estar enganada.
   -  possvel. Todo mundo bebeu cerveja demais na ocasio. Inclusive eu.
   - Provavelmente. - Simon incomodava-se com o fato de no recordar exatamente tudo o que acontecera naquela noite. - Mas desviamo-nos do assunto principal. Vai
me deixar falar com OH?
   Nelda chamou o filho, que saiu da casa piscando e esfregando os olhos, ainda sonolento. S uma me poderia amar aquele rosto largo com olhos saltados, nariz achatado
e lbios finos. Ao ver Simon, o rapaz retraiu-se assustado.
   Simon estendeu as mos vazias.
   - S queria conversar sobre as rosas.
   - Conte a sir Simon sobre as rosas do bispo - pediu Nelda ao filho, gentil.
   Olf olhou para Simon.
   - Ele no foi ver as rosas ontem. - Franziu o sobrolho, preocupado. - Acha que ele est bravo comigo?
   Simon fechou os olhos, o corao apertado. Ningum contara a Olf ainda que Thurstan estava morto.
   - Olf, lembra-se que comentamos que o bispo tinha ido para o cu? - indagou Nelda.
   - Lembro... mas ele vai voltar. - Olf deixou escapar um fio de baba. - Esperei duas luas. Peguei trs ratos! - Esticou trs dedos sujos.
   - Muito bom. Estavam prejudicando as roseiras, no ?
   Olf confirmou.
   - Comem as razes, e as roseiras morrem. O bispo comprou acnito de lady Linnet.
   De Linnet. Simon sentiu um calafrio na espinha, as suspeitas retornando. Por que Linnet no lhe contara que fornecera acnito ao bispo?
   - Quando foi isso?
   - No sei.
   - Em fevereiro, acho - disse Nelda.
   - O veneno bastou para matar os ratos? - prosseguiu Simon, aflito.
   - No comeo, sim. Depois, no. - Olf franziu o cenho. - Comiam o p, mas no morriam.,.
   Teria algum substitudo o acnito por outro p inofensivo?
   - Comentou isso com o bispo?
   - Comentei. Disse tambm que algum tinha entrado no meu depsito de ferramentas.
   - Quem?
   - No sei. -0lf olhou para a me. - Algum gatuno.
   Nelda Suspirou.
   - Os rapazes do vilarejo s vezes pregam peas em Olf, pegando as coisas dele e zombando quando ele tenta recuper-las. Reconheceu algum deles, filho?
   - No vi ningum. Mas mexeram nas coisas, e no fui eu. - Olf tinha o queixo trmulo. - Ele foi embora porque ficou bravo comigo?
   - No. - Simon pousou a mo no ombro do deficiente. No suportaria dar-lhe a notcia de que seu protetor falecera. - H duas noites, viu algum saindo do palcio
do bispo?
   - Vi voc, debaixo dos teixos.
   Simon animou-se.
   - Viu mais algum?
   - Lady Linnet. Saiu logo depois, apressada.
   - Como sabe que era ela?
   - Pelo jeito de andar...
   Olf deu alguns passos requebrando os quadris, imitando bem o jeito de Linnet.
   Simon riu.
   - Muito bom, Olf.
   Incentivado, o deficiente imitou tambm os passos comedidos de Crispin e o andar acelerado de irmo Anselme.
   - A outra senhora anda assim... - Estufou o peito e passou a caminhar deslizante. - Feito cobra - comparou.
   - De quem est falando?
   Olf deu de ombros.
   - Da outra mulher. Eu a vi naquela noite.
   - Quem? Algum que costumava visitar o bispo?
   Olf meneou a cabea com exagero.
   - Costumava. Ela o beijava...
   Simon expressou desgosto, mas estava curioso. Poderia tratar-se de sua me?
   - Era jovem ou idosa?
   Olf franziu o cenho.
   - Tinha cabelos grisalhos? - especificou Nelda.
   - No. Eram negros... assim como os do rapaz. Ele freqenta a escola e tambm visitava o bispo.
   Odeline e Jevan. Smon suspirou.
   - Aonde Odeline vai  noite?
   - S sei que sai, trajando hbito, mas conheo seu jeito de andar. - Olf pensou mais um pouco. - Tenho que voltar l... esperar o bispo.
   Simon olhou para Nelda, que meneou a cabea. Estava certa. De que adiantaria obrigar o rapaz a enxergar a verdade?
   - Obrigado pelas informaes, Olf. As rosas esto uma beleza e tenho certeza de que o bispo tambm pensa assim.
   O deficiente encheu-se de orgulho.
   - Estou com fome!
   - V se lavar no rio e depois comemos - ordenou a me.
   Com um sorriso, Simon observou o rapaz indo at a beira da gua.
   - A caminho de Durleigh, meus companheiros e eu fomos atacados por bandoleiros. Matamos todos, menos o lder, um tipo musculoso de cabelo escuro, rosto magro
e
olhos negros dissimulados. Levou um golpe de espada no ombro esquerdo. Algum lhe pediu para cuidar de um ferimento assim?
   - Talvez...
   - Sabe onde est esse homem?
   Nelda resmungou, olhando para a panela.
   - Ele no disse e eu no perguntei.  por isso que o povo me procura.
   - Foi Hamel quem o trouxe a voc?
   Ela se endireitou.
   - No, mas havia outra pessoa com ele. Como se  manteve na sombra, no pude ver-lhe o rosto.
   - Mas era um homem?
   - Era, mas no to grande quanto Hamel.
   - Um dos homens dele, talvez?
   Nelda deu de ombros.
   - Hamel pode estar mancomunado com os bandoleiros. Ambiciona o poder. Thurstan o cerceou enquanto pde.
   - Acha que Hamel pode ter matado Thurstan para ficar com o caminho livre?
   - No. Apesar de tudo, Hamel no  inteligente o bastante para isso. Mas sei aonde lady Odeline vai  noite. Encontrar-se com Hamel.
   Simon espantou-se.
   - Hamel e lady Odeline?
   - No se deixe enganar pelo belo rosto e maneiras finas da dama. Tem fome de homem e  esperta feito uma raposa. Mas eu diria que est s se divertindo com o
delegado.
A nica pessoa com quem se importa, depois dela mesma,  aquele filho mimado.
   - O que ela sentia por Thurstan?
   - Gratido, imagino, uma vez que ele os acolheu.
   Ou ressentimento. E os aposentos dela ficam bem em cima dos de Thurstan.
   - Ah, e o nome do bandido  Rob FitzHugh - informou Nelda. - Um tipo mediano... porta uma adaga na bota.
   Simon inclinou a cabea, agradecido.
   - Achei que j o tinha visto na catedral de Durleigh, mas...
   - Tem razo. H cinco anos, foi um dos operrios que trabalharam na formao dos jardins do bispo. Imagino que tenha vagado de emprego em emprego, at tornar-se
um marginal.
   - Obrigado, senhora Nelda. - Simon estendeu-lhe uma moeda de prata.
   - Guarde seu dinheiro, Simon de BLackstone. Tenho a impresso de que pouca gente ficar decepcionada ao saber que o bispo Thurstan tinha um filho.
   Um bastardo. Simon voltou a experimentar o mal-estar que lhe estragara a juventude. Mais velho agora, conseguia desfazer-se da sensao, sentindo-se ainda mais
forte.
   - Podem me ignorar. Como ele ignorou.
   - Ele?! No, ele no o ignorou. Manteve-se a par de toda a sua vida. - Nelda riu. - Rico como era, aposto como lhe deixou alguma coisa no testamento.
   Com isso, Nelda adentrou a cabana enquanto Simon ruminava seu ltimo comentrio.


   CAPTULO 11

   Assim que Simon entrou pela porta dos fundos, Linnet levantou-se num salto da banqueta, aps horas de viglia.
   - Seu biltre! - desabafou, irada.
   Ele estacou  soleira, surpreso.
   - Biltre?
   - Como pde sair sozinho?
   - Eu... achei que precisava repousar...
   - Repousar? - Ignorando os criados e os soldados espionando da cozinha, Linnet dardejava fascas pelos olhos. - Como eu poderia repousar sabendo que... aquele
bandido poderia atac-lo novamente?
   Simon olhou por sobre o ombro dela, esperando conseguir ajuda dos espectadores curiosos.
   -  que...
   Linnet j se fartara deles tambm, com suas tentativas desajeitadas de justificar a ausncia de Simon.
   - Fora! - ordenou-lhes, apontando o dedo em riste para a porta. Sem aguardar que se retirassem, voltou a atacar Smon. - Verme! Acha que, sendo grande e forte,
 invencvel!
   - No sou nada disso - garantiu Simon, brando.
   - Mas age como se fosse. - Ela avanou e fincou um dedo no peito duro dele. - Preocupa-se em proteger os outros, mas no liga a mnima para sua prpria segurana.
   - Linnet, no seja tola. Posso...
   -  voc o tolo, no v? Estou furiosa porque... - Ela sentiu o lbio trmulo. - Devia bater-lhe na cabea. - Com isso, abraou-o pela cintura.
   Ele riu, ao mesmo tempo que lhe afagava as costas.
   - Lamento que tenha se preocupado, mas estou bem.
   O calor do corpo viril de Simon atravessava as camadas de roupas de ambos, espantando o frio que se apossara de Linnet.
   - J o perdi uma vez - murmurou ela. - No suportaria...
   - Sss... - Ele a abraou com fora, a respirao aquecendo-lhe a tmpora, agitando seus cabelos finos, arrepiando-a ante as possibilidades.
   Se no o tiver logo, morrerei de desejo, concluiu Linnet, derretendo-se no abrao.
   - Eu tambm - sussurrou Simon, conscientizando-a de que expressara o desejo em voz alta.
   Erguendo o rosto, Linnet fitou-o detidamente. O fogo na Lareira lanava sombras danantes sobre as feies duras. A melancolia no escondia a ternura em sua expresso.
Os olhos escuros, doces, expressavam uma nsia que ela compreendia, pois dominava-a tambm, corpo e alma. Eu o amo. Ainda mais do que h quatro anos. As palavras
brotadas do corao alcanaram-lhe os lbios, mas uma cautela inata as mantinha prisioneiras.
   A despeito de tudo por que haviam passado nos ltimos dias, do desejo que os avassalava, Linnet temia que Simon no estivesse pronto para receber seu amor. E
talvez jamais pudesse. Os sinais estavam ali, na rigidez de seu queixo, como se previsse a decepo, na frieza sob a paixo que lhe obscurecia o olhar. Ele no era
homem de confiar facilmente.
   Ele queria amar, mas seria capaz? Poderia am-la? Linnet baixou o rosto, antes que Simon lhe lesse os pensamentos. No merecia seu amor, nem sua confiana.
   Ele Suspirou e deu um passo para trs.
   - Eu ficaria aqui com voc o dia todo - sussurrou - Mas  melhor irmos  catedral. Por mais que deteste o arquidicono, quero que ele saiba, por ns, que estamos
vivos.
   Linnet preferia confrontar-se com Crispin a contar a Simon sobre a filha que haviam gerado. Qualquer coisa, at a morte, seria prefervel. Corroda de dor desvencilhou-se
dos braos do amado.
   - Algum problema? - indagou ele.
   Ela meneou a cabea, reuniu todas as foras que possua e fitou-o, esperando manter oculta a alma estraalhada.
   - No estou com vontade nenhuma de v-lo e ouvir mais acusaes.
   - Fique aqui, ento.
   Linnet enrijeceu-se outra vez.
   - No vai me deixar para trs.
   Deu meia-volta, tirou a capa do gancho atrs da porta e jogou-a sobre os ombros. Enquanto Simon dava instrues a Miles e Jasper e ela mesma orientava Aiken,
acalmou-se. Quando saram, j estava sob controle.
   O sol j ia alto sobre a muralha da cidade e o trfego de pessoas e carroas na rua intensificava-se. De soslaio, Linnet via Simon carrancudo, atento, desconfiando
de cada pessoa por que passavam, como se temesse um ataque.
   - O que foi? - rosnou ele, deixando de esquadrinhar a rua por um segundo ao perceber que ela o olhava.
   - Aonde foi esta manh?
   - Falar com a velha Nelda.
   - Descobriu alguma coisa?
   Ele voltou a se concentrar na multido.
   - Descobri.
   Linnet mordeu o lbio para no gritar.
   - O qu?
   - Nada importante.
   Biltre, deixe que eu decida isso! Lnnet chegou a abrir a boca para ralhar, mas conteve-se. No era melhor do que ele. Devia ao menos ter-lhe contado que haviam
dormido juntos na ltima noite dele em Durleigh. No o fizera por medo de acabar desabafando a histria toda, de revelar que tinham criado uma vida. Ele a odiaria
se soubesse que abrira mo da criana. No entenderia que tomara essa atitude para dar ao beb a chance de uma vida sem estigmas. Ele se sentiria trado. De novo.
   Que fazer? Linnet dividia-se entre a necessidade de contar a verdade e a certeza de que, se o fizesse, condenaria qualquer futro que pudessem ter juntos.
   - Bem, chegamos - murmurou Simon.
   Pondo de lado as preocupaes, Linnet contemplou os portes da catedral.
   - Pronta para enfrentar Crispin em seu covil?
   - Ele vai ficar muito decepcionado quando nos vir.
   Simon sorria agora, os olhos cintilantes de bom humor.
   - Assim espero.
   Linnet entrelaou o brao no dele, sentindo uma magia especial entre ambos.
   - Fique perto de mim, caso haja problemas - instruiu Simon.
   - Ficarei, desde que tome cuidado.
   - Estou acostumado a cuidar de mim mesmo.
   To forte e ao mesmo tempo to vulnervel.
   - Preocupo-me porque gosto de voc - murmurou Linnet.
   Irmo Anselme surgiu vindo do palcio do bispo, o semblante tenso.
   - Ah, chegaram. Est tudo bem?
   - Na medida do possvel - replicou Simon. - Fui logo cedo visitar Nelda. No acredito que ela ou 0lf sejam culpados. O rapaz disse que andaram mexendo no depsito
de ferramentas e que o acnito parou de matar os ratos do jardim.
   Linnet aborreceu-se com o fato de Simon confiar em irmao Anselme e no nela. Os homens pareciam cultivar uma lealdade mtua extrema.
   - Acha que algum roubou o veneno? - indagou o monge.
   Simon confirmou.
   - Vamos vasculhar o depsito de novo.
   - Para qu, se no havia mais nada? - questionou Anselrne.
   - Para ver se o acnito foi devolvido - explicou Simon. - Se no estiver l, vamos revistar os aposentos do arquidicono
   - Ah! - aprovou Linnet.
   Simon olhou-a srio.
   - Nem uma palavra sobre isto at termos uma prova concreta, entendido?
   - Sou perfeitamente capaz de guardar um segredo - garantiu Linnet.
   Simon voltou-se para Anselme.
   - Crispin tem aposentos no palcio do bispo?
   - Sim, uma pequena cela no piso inferior.
   - Onde ele est agora?
   - Ele e o proco esto no salo redigindo uma carta para o arcebispo.
   - Contou a Walter que estamos vivos? - indagou Simon.
   - Como me pediu. Ele ficou feliz e jurou no dizer nada, mas achou por bem ficar de olho em Crispin.
   Ainda na entrada, encontraram-se com irmo Oliver, que descia a escadaria.
   - Esto vivos! - Foi com lgrimas banhando o rosto enrugado que o religioso Ouviu o relato do resgate empreendido por irmo John. - E um milagre!
   - Duvido que o arquidicono pense assim - murmurou Simon.
   Oliver enxugou o rosto.
   - Tem razo. Ele est no salo redigindo uma carta para o arcebispo, na qual gaba-se de ter desvendado o assassinato. Mal disfara o alvio por nosso bispo estar
morto. Este  um dia muito triste para Durleigh.
   Linnet olhou para Simon, certa de que o veria desdenhoso, como sempre, mas ele estava s pensativo.
   - O bispo mantinha um dirio? - indagou Simon.
   - Mantinha. Chamava-o de "meu" confessionrio.
   - Onde est?
   Oliver pensou.
   - No sei. Costumava tranc-lo no ba ao lado da cama, mas o irmo Walter j deu uma olhada l e no o encontrou.
   - O testamento no estava l? - quis saber Anselme.
   - Estava. Ser lido depois que a reverenda madre Catherine do convento de Blackstone chegar. Sabe-se que o convento receber um bom legado, incluindo a manso
de Blackstone Heath.
   - Pobre senhora - sussurrou Linnet, recordando o carinho com que a abadessa a tratara. - Era muito chegada ao bispo.
   - Sim, era - confirmou Oliver.
   - Poderia nos levar at o arqudicono e ento ir procurar o dirio do bispo? - sugeriu Simon ao secretrio.
   - Claro. - Olver conduziu-os por um corredor curto iluminado por tochas e parou diante de portas duplas de carvalho entalhado. - E aqui. - Abriu-as.
   Tratava-se de um salo comprido, magnfico, iluminado por archotes presos s paredes caiadas, adornadas por ricas tapearias. O cho cobria-se de tapetes, um
fogo aconchegante crepitava na lareira, no extremo oposto. Sentados  mesa estavam o proco Walter e o arquidicono. O hbito rstico de Crispin contrastava com
a cadeira primorosamente entalhada do bispo.
   Atrs da cabeceira espreitava irmo Gerard. Ao olhar para a porta, arregalou os olhos de furo.
   - Deus nos acuda!
   Crispin ergueu o rosto e levantou-se num pulo, os olhos saltados, a boca aberta como a de um peixe fora da gua.
   Simon sorriu.
   - Desculpe a intruso arquidicono mas  que temamos que se abatessem demais com os boatos de nosso desaparecimento.
   - Boatos?! - Crispin caiu de novo na cadeira, o rosto mortalmente plido.
   - Boatos. - Simon pegou a mo de Linnet e introduziu-a no salo. - Como podem ver, estamos ambos sos e salvos.
   Linnet baixou o rosto a fim de ocultar o sorriso. Quase valia a pena ter cado no rio, agora que via o severo arquidicono to desconcertado.
   - Mas.., o delegado garantiu que haviam morrido afogados.
   - Como v, ele se equivocou, - Calmo, Simon conduziu Linnet pelo salo at a lareira.
   Por entre os clios, ela captou a fria se espalhando pelo rosto de Crispin. O dio embutido em seu olhar provocou-lhe um calafrio na espinha.
   - Como sobreviveram? - inquiriu Crispin, inconformado.
   - Eu nado muito bem - explicou Simon. - Consegui alcanar lady Linnet e lev-la para a margem, rias bem longe do ponto onde camos, pois fomos arrastados pela
correnteza forte. - Sorriu. - Sem dvida, foi isso que levou os espectadores a acreditar que tnhamos nos afogado.
   Crispin tinha agora o rosto to vermelho que parecia prestes a explodir.
   O proco Walter levantou-se
   - Vamos agradecer o milagre, ento. - Contornando a mesa, tocou no ombro de Linnet, depois no de Simon. Enquanto falava em latim, de costas para Crispin e Gerard,
dedicou-lhes um sorriso conspirador. Tinha a expresso novamente neutra ao voltar-se para o arquidicono. - Que tal encomendarmos uma missa especial para...
   - Vamos encomendar  um inqurito - rosnou Crispin.
   - Oh, no h necessidade - declarou Simon. - Tenho certeza de que o homem que empurrou lady Linnet no pretendia que ela casse...
   - Um inqurito sobre a morte do bispo - esclareceu Crispin, com os dentes cerrados. Apontou para Linnet. - Ela o matou, e vou provar.
   Lnnet estremeceu.
   Simon apertou a mo no brao dela.
   - No pode ter sido nenhum de ns dois. Irmo Oliver falou com o bispo depois que nos viram deixando o palcio.
   - Ela o estava envenenando - acusou Crspin. - Depois que saram, o bispo caiu e morreu do efeito do veneno.
   - Linnet no tinha motivos para desejar a morte do bispo.
   Crispin sorriu sarcstico.
   - Pois eu creio que esta jovem tinha um bom motivo para mat-lo. Queria livrar-se do bispo porque seu amante voltara da Cruzada.
   Simon espantou-se.
   - Eu?! Garanto-lhe que jamais...
   - Vocs dois foram vistos juntos na noite que antecedeu a partida dos cruzados de Durleigh. Pelo delegado.
   Linnet sentiu o tremor que sacudiu Simon. Se ele no a estivesse segurando firmemente, teria fugido. Oh, Senhor, que ele no descubra tudo aqui e agora!, rogou.
   Suas preces foram atendidas pronta e inesperadamente.
   - Uma palavra, arquidicono? requisitou uma imperiosa voz feminina. Lady Odeline adentrou o salo com um farfalhar das ricas saias. De repente, parou e gritou:
- Demnios! Fantasmas!
   - Somos reais, eu asseguro - respondeu Simon, divertido.
   - Espritos! - Os gritos agudos da mulher reverberavam entre as paredes e o teto de vigas. - Espritos malignos surgidos dos mortos!
   O proco Walter agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a.
   - Minha senhora! Lady Linnet e sir Simon no so demonios.
   - Isso  o que veremos - murmurou o arquidicono Crispin.
   Walter amparou Odeline, j calada, at uma cadeira e ofereceu-lhe vinho.
   - Deviam estar mortos.,. - Por sobre a borda do clice, ela olhou feroz para Simon.
   Linnet olhou de soslaio para o cavaleiro. Aparentemente, no estranhara a reao da dama e narrou uma verso resumida do resgate de ambos.
   - Um milagre, no  mesmo? - comentou Walter.
   Odeline continuava fitando Simon com dio.
   - Farei com que Hamel o prenda pelo assassinato de meu irmo.
   - Isso  assunto da igreja, minha senhora - protestou Walter. - Ser julgado pelo tribunal eclesistico.
   - Garanto-lhe que estamos mais ansiosos do que o senhor para saber quem to traioeiramente matou o bispo Thurstan - afirmou Simon, rgido.
   Linnet pensou ver Crispin retrair-se.
   - Decidi que o funeral do bispo Thurstan acontecer amanh,  primeira luz - declarou o arquidicono.
   - Depois que ele tiver sido sepultado de maneira decente, procederemos a um inqurito...
   Crispin foi interrompido por uma chuva de protestos.
   - Mas no haver tempo para informar a populao da cidade e arranjar uma cerimnia adequada! - exclamou irmo Oliver.
   - Devo concordar que essa pressa  inconveniente - disse o proco. - E claro que o arcebispo far questo de comparecer.
   - E a reverenda madre Catherine tem que estar presente - lembrou Linnet. - E se ainda no tiver chegado  aurora?
   Crispin ergueu a mo, pedindo silncio.
   - A deciso  minha e digo que no podemos adiar mais.
   - O que diz, lady Odeline? - indagou o proco Walter. - Como sangue do bispo, seu desejo deve ser levado em considerao.
   Lady Odeline no disse nada, o olhar estreito ainda fixo em Simon.
   - Mas... - Linnet conteve-se ao sentir a mo de Simon no brao.
   - A que horas ser o funeral? - indagou o cavaleiro ao arquidicono.
   - As oito horas, acho. No  cedo, nem tarde demais. - Crispin voltou-se para Gerard. - Arranje mais pergaminho. Temos que redigir uma nova mensagem ao arcebispo.
   Dispensados, Linnet e os outros trs homens retiraram-se. S quando j estavam no corredor e a porta se fechou firmemente s suas costas, irmo Oliver desabafou:
   - Isso  um ultraje!
   - Acalme-se - pediu o proco.
   - Como ele se atreve a enterrar o bispo assim, sem uma cerimnia solene? O arcebispo teria que estar presente...
   O proco Walter concordou, o semblante uma mscara de raiva contida.
   - Tenho certeza de que Sua Graa no vai aprovar essa pressa toda, mas nem sei se ele recebeu minha mensagem em York. Pode estar viajando e, de qualquer forma,
no poderia comparecer ao funeral.
   - Por qu? - balbuciava Oliver. - Por que ele est fazendo isso?
   Culpa, pensou Linnet.
   - No cabe a ns questionar, irmo Oliver - observou Anselme, rijo. - Por que no mandar avisar o prefeito e as associaes de que o enterro ser amanh? Eles
precisam organizar as delegaes a comparecer. - Enquanto irmo Oliver afastava-se melanclico, voltou-se para Linnet. - Cuidado com o que diz. Irmo Oliver tem
bom corao, mas no pensa antes de falar.
   - Assim como eu. - Com um suspiro, Linnet olhou para Simon, extraindo fora de sua presena slida.
   - O que vamos fazer?
   - Tratar de provar sua inocncia - respondeu ele, srio.
   Ela sentiu um calafrio na espinha. Zangada demais com Crispin por conta do funeral, esqueceu-se de que ainda corria perigo.
   Anselme franziu o cenho.
   - Ele espera enterrar a prova com Thurstan. Vou terminar minhas anotaes.
   - Primeiro acompanhe-nos, por favor - pediu Simon. - Vou revistar o depsito de materiais de Olf e gostaria de ter por perto um especialista em ervas.

   Simon de Blackstone estava vivo.
   Muito tempo depois de ele ter deixado o salo, Odeline continuava fitando a porta, a mente em turbilho, o corao cheio de dio.
   A vida era to injusta. No tinham a escritura e Simon permanecia vivo. Que fazer?
   Aos poucos, foi se conscientizando dos dois clrigos discutindo sobre o curso de ao a seguir. Acreditavam que Linnet Especer era a assassina, mas no tinham
provas.
   - Ela tem um boticrio! - exclamou Crispin. - Comercializa esses venenos...
   - Assim como todos os outros boticrios de Durleigh. - Gerard meneou a cabea. - No basta.
   - Era amante dele - sibilou Crispin.
   Odeline sorriu maldosa. Thurstan vivia censurando seus casos amorosos, quando ele, um padre, mantinha uma amante.
   - No h prova disso, tampouco, ainda que eu ouvisse atrs da porta sempre que ela o visitava. - Gerard parecia frustrado. - Mesmo comprovando o fato, precisaramos
de algo mais concreto. - Estreitou os olhos cintilantes. - Se vasculharmos a loja dela, talvez encontremos qualquer coisa...
   - O qu, por exemplo? - intrometeu-se Odeline.
   Os dois padres voltaram-se, surpresos, como se tivessem se esquecido de sua presena.
   Gerard olhou-a de nariz empinado.
   - Irmo Anselme acredita que o bispo estava sendo envenenado com acnito.
   Odeline engoliu em seco. Jevan aprendera um pouco sobre venenos com a av materna. Estaria to desesperado para se apossar da propriedade a ponto de cometer assassinato?
Recordou a aparncia de Thurstan ao voltar aos aposentos dele com os padres. Estava com o corpo retorcido e o rosto, desfigurado de dor.
   - M-mas... como?
   - Nosso irmo enfermeiro acredita que o veneno foi administrado em pequenas doses, ao longo de vrios meses - explicou Gerard.
   - Vrios meses - repetiu Odeline, aliviada. Jevan no teria habilidade nem pacincia para agir assim.
   - Irmo Anselme acha que...
   - J chega, irmo Gerard - ralhou Crispin. - Est deprimindo mileide com essa conversa - justificou, embora estivesse mais plido do que ela.
   Odeline estava longe de sentir-se deprimida. Afinal, nao fora seu empurrozinho que matara Thurstan, e sim, o acnito.
   - Lady Linnet gostava de meu irmo - comentou.
   - Por que ela o mataria?
   - Para poder ficar com sir Simon - replicou Crispin. Sorriu maldoso. - So amantes de longa data.
   - Ah! - Arguta, Odeline analisou a teoria e encontrou inmeras falhas. - Quer dizer que ela sabia que Simon no tinha morrido na Cruzada e estava voltando para
casa?
   Gerard confirmou.
   - Eu vi sir Simon deixar o palcio na noite do crime, esperar a senhora Linnet e ento sair atrs dela.
   Isso no explicava por que Linnet teria envenenado Thurstan lentamente. Mas, que importava, desde que outra pessoa fosse acusada do assassinato de seu irmo?
Melhor ainda se esse algum fosse Simon.
   - Ser que o cavaleiro no descobriu o caso de Linnet com o bispo e o matou? - sugeriu.
   - Receio que no - opinou Crispin, pesaroso. - Irmo Oliver falou com o bispo depois que o cavaleiro saiu. E sir Simon acabava de chegar a Durleigh.
   Odeline suspirou. Teria que descobrir outra maneira de livrar-se de Simon. O que trazia de volta  baila a suspeita sobre Linnet.
   - O delegado no seria capaz de encontrar alguma prova da culpa da boticria?
   - Isto  assunto da igreja - resmungou Crispin.
   - Irmo Gerard ir revistar a loja dela.
   Odeline rosnou. Os homens, mesmo os homens de Deus, guardavam seu territrio como ces ferozes.
   - Mas o que  que a boa gente de Durleigh ir pensar ao ver padres vasculhando um boticrio? - Odeline esperou que absorvessem a questo e satisfez-se ante a
expresso
chocada dos religiosos. - Por outro lado, o delegado  pago para capturar e punir malfeitores... valendo-se dos meios que forem necessrios. - Ou seja, Hamel tinha
licena para procurar a escritura.
   - Tem razo - cedeu Crispin. - Mas o delegado ter que entregar qualquer prova que encontre a mim.
   - Oh, tenho certeza de que ele entregar - finalizou Odeline.

   Simon deixou o palcio atormentado por vrias incertezas, mas a principal nada tinha a ver com as investigaes para descobrir o assassino de Thurstan.
   Ele e Linnet tinham estado juntos na noite de despedida dos cruzados? Lembrava-se pouco da ltima parte da festa, quando os discursos e as oraes deram lugar
 bebedeira e s danas. Certa hora, no meio da noite, acordara num estbulo perto da ponte Red Tower com um gosto amargo na boca e a cabea ainda zonza do lcool.
Mas lembrava-se do sonho que tivera. O sonho do amor perfeito.
   E se no tivesse sido um sonho? E se no tivesse estado sozinho naquele estbulo?
   Simon admirou o perfil de Linnet, to puro  suave luz primaveril. No, no podia imagin-la deitando-se com um desconhecido. No entanto, ela confessara t-lo
visto treinando no campo, e Drusa lhe contara que a jovem patroa havia amado um cruzado. Teria sido ele? Tinha a pergunta na ponta da lngua, mas tratava-se de um
assunto para discutirem a ss. Contendo-se, acompanhou Linnet e os padres pelo caminho sinuoso atravs do jardim de rosas.
   - Adoro este jardim - comentou Linnet, melanclica.
   Deixando de lado o mistrio do passado, Simon examinou os canteiros limpos, arranjados de forma circular com um banco de pedra redondo no centro e contornados
externamente por grossos teixos. O rico perfume das rosas permeava o ar quente.
   - Foi uma das coisas de que mais senti falta quando r estava longe - revelou.
   - Os visitantes de outros lugares afirmam que so as rosas mais bonitas de toda a Inglaterra - observou
   Linnet, orgulhosa.
   - Pode-se entrar no depsito de ferramentas sem ser visto da residncia? - indagou Simon.
   Anselme confirmou e conduziu-os para fora do caminho, passando por trs da enfermaria, at um pequeno depsito no fundo do terreno, encostado no muro. A porta
de madeira rangeu ao ser aberta, deixando escapar um cheiro desagradvel. Para surpresa de todos, o interior estava em ordem. Nas prateleiras havia potes, grossas
luvas de couro e ferramentas. Utenslios maiores pendiam de ganchos nas paredes, bem como uma tnica puda, provavelmente de Olf. Num canto, estava o colchonete
de palha do empregado, com um cobertor caprichosamente dobrado numa das extremidades.
   Simon apertou o dedo num saco de sementes.
   - Cuidado com isso - alertou Anselme. - Ajudei Olf a misturar um pouco de acnito com as sementes, para atrair os ratos.
   Simon olhou para Linnet.
   - O acnito veio da sua loja?
   Ela confirmou.
   - Dei ao bispo um pequeno pote com o veneno. - Passou a examinar as prateleiras. - Estava bem tampado, com a palavra Acnito e um X preto bem grande no rtulo.
   Anselme ajudava a procurar.
   - Ainda estava meio cheio e recomendei a Olf que o guardasse num lugar bem alto, fora do alcance.
   Simon puxou um engradado de ferramentas e subiu nele a fim de examinar a prateleira mais alta, mas no encontrou o pote de acnito.
   - Algum deve t-lo levado - concluiu Walter.
   - , mas acho que a pessoa deixou escapar algo. - Simon apontou para um pedacinho de pano preso no canto da prateleira rstica.
   Walter estreitou o olhar.
   - Ser de 0lf?
   -  um pano cinza - descreveu Simon. - A tnica pendurada  de l vermelha, mesmo material da roupa que Olf usava esta manh. - Arrancando o pequeno retalho,
desceu
do engradado.
   Enquanto os outros examinavam o material, Simon relatou sua visita  velha Nelda.
   - O bispo Thurstan pode ter levado o pote de acnito consigo - sugeriu Linnet.
   - Meu assistente e eu revistamos os aposentos dele logo aps sua morte - declarou Walter. - Pegamos trs garrafas de vinho e todos os clices para os testes,
mas
nem sinal desse pote com veneno.
   - Trata-se de um pano grosseiro, do tipo que os trabalhadores braais usam - opinou Simon, quanto ao retalho de tecido encontrado. - Ou com que se fazem hbitos...
   -  rstico demais para ser de um hbito - afirmou Walter. Ele prprio usava l fina tingida de creme.
   - Os alunos da escola da catedral usam marrom - lembrou Anselme. - Assim como eu e a maioria dos irmos. - Apalpou o tecido mais atentamente. - Isto aqui parece-me
do tipo que agradaria ao arquidicono. - Encarou Simon. - Lembro-me de Thurstan comentar que os hbitos de Crispin assemelhavam-se bastante ao cilcio, sabe, aquela
l spera com farpas de madeira usada em penitncias.
   - Foi o que pensei - murmurou Simon.
   - Mas como acusar o arquidicono de assassinato com base nisto? - questionou Walter, frustrado. - Embora o jeito santarro dele me irrite, Crispin  um homem
bom.
   - Por isso mesmo, o arquidicono detestava Thurstan, um bispo to flexvel na observao aos dogmas da igreja.
   - Tem razo - concordou Simon. - Precisamos de mais provas.
   - Onde vamos procurar? - indagou Walter.
   - No sei, mas hei de encontrar.
   Simon fitou o rosto plido de Linnet. No s era contra a sua natureza deixar impune o assassino de seu pai, como a vida de Linnet estava por um fio.
   De algum modo, aps poucos dias, proteg-la tornara-se vital para ele.


   CAPTULO 12

   - Simon de Blackstone est vivo! - gritou Odeline a Hamel.
   - Vivo?!
   - ! - Com os dentes cerrados, ela o fulminava com o olhar atravs do quarto na casinha dele. Esperara o dia todo que a noite casse para poder ir ali e confrontar-se
com o amante.
   - Mas foram arrastados pela correnteza no rio. Ningum sobreviveria naquela corredeira de guas geladas.
   - Pois Simon de Blackstone sobreviveu.
   -  uma pena. - Hamel esfregou os olhos sonolentos, encheu dois clices com vinho e estendeu um a Odeline.
   Com uma imprecao, ela atirou a bebida no cho.
   - Prometeu livrar-se dele!
   Amuado, Hamel apressou-se em enxugar o lquido que se espalhava pelo tapete.
   - E vou.
   Odeline fumegava. Idiota, no percebe que o tempo  essencial? No, claro que no percebia. Cruzando os braos, procurou acalmar-se, tentando definir quanto revelar
ao amante e comparsa. No a verdade, certamente. Se soubesse que Thurstan pretendia dar Blackstone Heath a Simon, Hamel concluiria que Jevan tinha motivos para matar
o tio. Tinham que encontrar a escritura antes que Catherine chegasse e o testamento fosse lido.
   - No se preocupe. - Hamel aproximou-se e abraou-a. - Tomarei conta de tudo.
   - Agora, no - resmungou Odeline, desvencilhando-se a fim de andar pelo quartinho espartano.
   - O que quer que eu faa? - lamuriou-se Hamel. -  Por mais que me tente, no posso prend-lo sem motivo e tortur-lo at que entregue o tal dirio.
   - Preciso do dirio! - reafirmou ela, desesperada. - Se no encontrarmos a escritura, Jevan perder sua herana de direito! No posso pensar em nosso futuro enquanto
o de meu filho no estiver garantido.
   Hamel sorriu.
   - Ah, agora entendo por que est to ansiosa por encontrar esse livro.., para que possamos nos casar. - Ele lhe deu um beijo duro e molhado. - Tem certeza de
que
est com Simon? Vasculhei o quarto dele pessoalmente e no achei nada parecido.
   E ela revistara os aposentos de Thurstan. Caula numa ninhada de filhos gananciosos e ambiciosos, logo aprendera a desencavar tesouros escondidos. O dirio no
estava l.
   - Simon pode t-lo confiado a outra pessoa... Linnet Especer, por exemplo.
   - Linnet? - Hamel estreitou o olhar. - Sim, ele tem passado muito tempo na companhia da moa. Mas no tenho motivo para revistar a loja dela.
   Ento, Hamel gostava mesmo da jovem boticria. Odeline sentiu evaporar-se numa onda de cime o pouco de simpatia que j tivera por Linnet. Hamel era seu, pelo
tempo que quisesse.
   - Por que precisa de um motivo? E o delegado.
   - Ainda no fui efetivado no posto e abusando da autoridade  que no serei - justificou ele, meticuloso.
   - O arquidicono acredita que ela envenenou meu irmo.
   - Envenenou? Mas pensei que ele tivesse levado um golpe...
   - Ela o matou com acnito. O arquidicono Crispin quer os registros de venda do boticrio para provar.
   Hamel piscou.
   - Mas no creio que ela fosse capaz de... - Odeline praguejou e espetou o dedo no peito do delegado.
   - Quer ser efetivado como delegado de Durleigh? Pois aconselho-o a no contrariar Crispin, que tem tudo para ser o novo bispo.
   - S no vejo por que Linnet mataria Thurstan.
   - Talvez estivesse farta do amante velho - sugeriu Odeline, rspida. - Pode tambm ter sabido que Simon estava vivo e a caminho de Durleigh.
   - Talvez - concordou Hamel, mal-humorado.
   - Estamos de acordo, ento. Esta noite, seus homens e mais um que contratei entraro no boticrio, confiscaro o livro de registros e procuraro o dirio de Thurstan.
   E o comparsa de Jevan mataria Simon durante a busca,

   Um rudo arrancou Linnet do sono agitado. Abrindo os olhos, deu com a escurido total. A vela sobre a mesa de cabeceira j se apagara.
   Que barulho fora aquele?
   Apurou os ouvidos, tentando captar novos sons. As lembranas do dia anterior voltaram com toda a fora: o confronto com o arquidicono Crispin, a inspeo no
depsito de materiais de Olf, a frgil evidncia encontrada. A frustrao era intensa, o instinto de que Crispin era culpado opondo-se  realidade. Simplesmente,
no tinham provas contra o arquidicono. E Simon...
   Simon.
   Linnet estremeceu. Evitara ficar a ss com ele, exceto durante a breve caminhada de volta  loja, mas o tempo todo sentira-se atormentada por perguntas no formuladas.
Perguntas sobre aquela longnqua noite da festa dos cruzados.
   Um gemido quebrou o silncio, arrancando-a do devaneio.
   Amedrontada, sentou-se e voltou-se na direo do som. No cho perto da porta, havia um corpo.
   Drusa.
   Linnet chorou de gratido. A velha criada dormira ali a fim de estar prxima em caso de necessidade. Drusa gemeu de novo, mexendo-se entre as cobertas. Sorrindo,
Linnet saiu da cama e atravessou descala o cho frio.
   - Drusa...
   Engoliu em seco. No era a velha criada que dormia ali, mas Simon, com a espada ao alcance da mo e as cobertas  altura da cintura, expondo o peito nu. Tinha
um brao dobrado sobre o rosto, o queixo obscurecido com a barba por fazer, a boca cerrada. De repente, seus lbios se apartaram.
   - Linnet... - sussurrou ele, no sono.
   - Estou aqui. - Ela se ajoelhou ao lado do colchonete, o frio varando a camisola fina, e pousou a mo no brao dele. Duro como pedra, e gelado. Coitado, no era
de admirar que delirasse. No devia estar dormindo no cho frio o seu campeo, o cavaleiro que a salvara trs vezes. - Simon, venha comigo. - Puxou-o pela mo. -
Venha...
   Venha...
   A voz invadia o sonho de Simon, convidando, enfeitiando, como sempre acontecia. S que desta vez a voz da amante parecia to prxima, to real... E a mo dela
era quente sobre seu brao frio.
   To frio... Entregou-se a ela, deixando-se envolver por seu calor.
   Cegamente, procurou-lhe a boca. Ela cheirava a rosas e seu sabor era ainda mais doce ao apartar os lbios vida. O grunhido que o sacudiu teve como resposta um
gemido de rendio, ao que ele aprofundou o beijo, explorando-a com uma voracidade que aumentava a cada toque, a cada suspiro. O sonho estava diferente naquela noite,
mais urgente, mais vvido. Abraou-a com mais fora, colando-se a ela, temeroso de abrir os olhos e descobrir a cama vazia a seu lado.
   Nunca a desejara com tal intensidade, a amante de seu sonho. Sentia os seios dela inchando-se sob a camisola, os mamilos rijos contra seu peito, enquanto ela
se insinuava mais e mais. O calor o avassalava, atiando o primitivo desejo da conquista. Puxou-lhe a cabea para trs e roou a boca pelo pescoo esguio.
   - Simon... - sussurrou Linnet. - Oh, Simon...
   Ele se paralisou-se, em choque. Sua viso jamais falava. Lentamente, abriu os olhos. O quarto no estava um breu, como sempre em seus sonhos, mas na penumbra.
Uma luz fraca acariciava o rosto to prximo do seu.
   - Linnet?
   - Sim. - Ela lhe tomou o rosto nas mos e sorriu. - Venha para a cama comigo. Este cho  muito duro e frio.
   Simon piscou, esforando-se por juntar as peas do quebra-cabea. O sonho. A revelao de Nelda de que ambos tinham sido vistos juntos na ltima noite dele em
Durleigh, por Hamel Roxby.
   - Meu sonho - murmurou, pasmo.
   - Estava sonhando comigo - Linnet sorriu ainda mais meiga.
   -  um velho sonho... da noite anterior a nossa partida. Ou, ao menos, eu pensava ser um sonho. Agora, imagino se...
   Ela gemeu baixinho e fechou os olhos.
   -  verdade - concluiu ele. - Estivemos juntos, anos atrs.
   Linnet tentou se afastar.
   - Oh, Simon...
   Ele rolou para cima dela, prendendo-a com o corpo, atormentado por mil dvidas.
   - Olhe para mim. Por que no me contou?
   - Voc no se lembraria - explicou ela, chorando.
   Sim, ele se embebedara naquela noite. Vergonhosamente. S no era fcil admitir.
   - Estava escuro - desculpou-se.
   Linnet aquiesceu, a expresso miservel.
   - E estava bbado.
   Ele ignorou a acusao.
   - Era to jovem - observou. - E sabia que eu estava de partida. Por que deitou-se comigo?
   - Eu era uma tola.
   - No... - Simon pensou numa explicao menos ofensiva. - Voc estava.. impressionada comigo.
   Ela estremeceu e desviou o rosto.
   Simon tocou-lhe o queixo e fez com que o encarasse novamente.
   - Eu a conheo. Jamais teria se entregado a mim, a menos que sentisse algo, Linnet.
   Ela controlou o lbio trmulo.
   - Eu o amo.
   Bem no ntimo, Simon sentiu abrandar-se algo mais frio e mais duro do que aquele cho. Todos aqueles anos, em que estivera to s, completamente s, ela o amara.
   - Pena eu no saber.
   Ela arregalou os olhos, cheia de esperana.
   - Teria feito diferena?
   - Eu teria dado tudo para saber que algum se importava comigo.
   Apenas cogitava se teria valorizado tanto amor na poca. Partira to jovem e amargurado. Alm disso, nunca amara, nem fora amado. Ainda no sabia lidar com o
amor, mas Linnet aos poucos lhe ensinava. Ela conseguia curar-lhe as feridas.
   Linnet o abraou e puxou-o para si.
   - Eu me importo... muito.
   Os lbios macios dela abrindo-se para ele eram como um blsamo.
   Simon sorveu at fartar-se. Quando por fim interrompeu o beijo, estavam ambos ofegantes.
   - Linnet... - Afagou-lhe o rosto, a orelha. - Eu a quero.
   - Tambm o quero - confessou ela, o olhar excitado.
   Uma dvida o atormentava.
   - Eu a machuquei naquela noite?
   Linnet baixou o rosto.
   - S um pouquinho.
   Cus... Simon encostou a testa na dela.
   - Desculpe-me.
   - Doeu s um pouco, e foi rpido.
   - Voc gostou?
   - Eu quis estar com voc.
   No era bem uma resposta, mas bastou para destro-lo. Doa-lhe demais saber que falhara com Linnet, ele que nunca destratara uma mulher em toda a vida. Controlando
o fogo da paixo, determinou-se a corrigir o erro.
   - Gostaria de me retratar, se me permitir.
   - Est bem. - Ela se ofereceu para mais um beijo.
   - Mas no aqui. - Simon afastou-a, levantou-se e ajudou-a a se erguer. Ento, com ela nos braos, foi at a cama. Gentil, acomodou-a sobre os lenis e esquivou-se
quando ela tentou abra-lo. - Espere um pouco, h algo que preciso fazer.
   Simon recolheu todas as velas disponveis, uma dzia ao todo, acendeu-as nos carves da lareira e colocou-as perto da cama, banhando-a numa luz dourada.
   - O que est fazendo? - questionou Linnet, nervosa. Simon sorriu e sentou-se a seu lado.
   - Na primeira vez, amamo-nos no escuro. Desta vez, teremos luz. Nada ser s escondidas. Vamos ver e nos lembrar de tudo.
   - Oh, Simon... - Linnet emocionou-se e seus olhos cintilaram midos.
   - Linnet... - Ele lhe desfez as tranas e esparramou a cabeleira loira sobre o travesseiro, desembaraando os fios com os dedos. - Estou com vontade de fazer
isto
desde aquele momento no jardim, na noite em que cheguei. Parece seda dourada...
   Ele apenas lhe tocava os cabelos, nada mais. No entanto, imaginar a sensao daqueles dedos fortes sobre sua pele causava arrepios em Linnet. Seu corpo todo parecia
vibrar.
   Simon viu seus olhos se obscurecerem, seus lbios se abrirem num suspiro sensual, ao que um acesso de puro desejo atacou-lhe o corpo j quente. A urgncia de
arrancar-lhe a camisola frgil e enterrar-se no aconchego feminino ameaava seu controle. A verdade era que j fizera isso uma vez, ato do qual se envergonhava.
Linnet merecia algo melhor e, se tivesse que conter-se at arder e incendiar-se para que ela o tivesse, no estaria tendo menos do que lhe cabia.
   - Voc  to linda... - sussurrou Simon, descalando as botas. Linnet retraiu-se, como se esperasse que ele pulasse em cima dela, confirmando seus piores temores.
- Eu a ataquei feito um lobo faminto naquela primeira vez?
   Ela sorriu.
   - Fiquei lisonjeada por voc me desejar tanto.
   - Esta noite, irei degust-la.
   - Degustar-me? Como assim?
   - S ter coisas boas, eu prometo. - Ele lhe afagou o rosto com as costas da mo, dedicando-se ento ao pescoo, causando-lhe arrepios. - Conte-me o que aconteceu
naquela noite. Como foi que nos encontramos?
   - Estvamos na festa que Thurstan deu na praa do mercado para toda Durleigh.
   - Disso eu me lembro. Havia comida e bebida  vontade, alm de msica. Bebi demais. A idia de trocar o lar por uma terra distante e perigosa, talvez para nunca
voltar, abala um homem ao ponto da imprudncia.
   Linnet sorriu.
   - Quase todos se embebedaram, inclusive eu. Chorando, porque voc ia embora, fui passear sozinha perto do rio.
   - Perigoso, no meio da noite.
   - Sem dvida. Sem que eu percebesse, Hamel me seguiu. Alcanou-me perto do lugar onde hoje fica o albergue. Gritei e lutei, mas ele era to forte.... - Linnet
estremeceu  lembrana. - Ento, quando eu j perdia as esperanas de escapar, voc surgiu da escurido, espada em punho, como um anjo vingador.
   - Bbado como estava, nem sei como conseguia andar.
   - No s andou, como derrubou Hamel e pegou minha mo para fugirmos correndo.
   - No sonho, isso acontecia, s que era de um drago que fugamos.
   - Hamel rugia feito um - confirmou Linnet, e ambos riram.
   - E para onde fomos?
   Linnet sentiu o rosto arder.
   - Escondemo-nos num estbulo.
   Simon comeou a brincar com as fitas de sua camisola.
   - Conte-me...
   - Voc me tocou.
   - Onde?
   Ela respirou fundo.
   - Nos... seios.
   - Ah...
   A expectativa crescia. Por quatro anos, deitada na cama, Linnet revivera aquele momento no monte de feno. Foram meses de tormento com as lembranas das carcias
de Simon. Ele desatou a ltima fita de sua camisola. Agora, pensou, trmula de desejo.
   Ele passou o dedo pelo vale entre seus seios, quase reverente.
   - Como pude esquecer-me de tanta maciez?
   - Ns...  no tiramos a roupa.
   Simon encarou-a preocupado.
   - No fiz nada certo? S lhe causei dor e sofrimento?
   Linnet paralisou-se, pensando na criana. Sim, muita dor e sofrimento. No, no pense nisso agora.
   - O passado j se foi - murmurou. - Vamos olhar para o futuro.
   Se Simon lhe desse outro beb naquela noite, a criana faria parte de seu futuro, pois agora tinha certeza de que ele no a abandonaria.
   - Ser que existe mulher mais generosa? Simon passou a distribuir beijos suaves por seu rosto, plpebras e nariz, encantado com seu jeito de mordiscar o lbio,
nervosa. To preciosa, to cautelosa. Quem poderia culp-la, uma vez que fora atacada por ele em sua primeira experincia? No se lembrava daquela noite em detalhes,
mas tinha certeza de que a desejava agora tanto quanto da primeira vez. Com mais intensidade, talvez, pois agora conhecia seu valor, sua bondade, sua lealdade inabalvel.
Teria pacincia para seduzi-la com o cuidado que ela merecia?
   - Farei-me a sua altura - declarou, determinado.
   - J  - afirmou Linnet. - Estar com voc assim  maravilhoso...
   - Ainda no, mas ser.
   Simon beijou-a com infinita ternura, acariciando-lhe o lbio com a lngua antes de introduzi-la no canto de sua boca. Ela se abriu para ele como uma flor, fresca
e doce, tentando-o a mergulhar.
   Gentileza... Linnet no sabia que ele era capaz de tanta gentileza, nem que ser tratada assim fazia seu sangue ferver. Ele levava a lngua a duelar com a dela,
barrando-a e fugindo, persuadindo-a a segui-lo. Era uma tentao irresistvel. Com o ventre tomado pelo calor, ela enterrou as mos nos cabelos grossos, colou a
boca  dele e sugou-lhe a lngua.
   Simon estremecia sob o ataque. Sabia que podia fazer Linnet desej-lo, mas no que sua prpria paixo escaparia ao controle mediante um simples beijo. Gemendo,
libertou a boca e fitou-a detidamente no rosto corado.
   - Simon... - sussurrou Linnet, maravilhada. Lentamente, revelou o olhar enevoado de desejo. -  Nunca imaginei que um beijo me deixaria to... zonza.
   Mas no fora capaz nem de beij-la direito? Simon suprimiu uma imprecao. No era possvel corrigir o passado. Linnet lhe ensinara isso.
   - Desta vez, tudo ser diferente. - Deslizou o dedo ao longo do pescoo dela, deliciando-se com seus arrepios. - Eu a toquei assim?
   Ele colocou a mo pelo decote de seu robe e acariciou-lhe o topo do seio.
   Linnet fechou os olhos, a respirao acelerada de expectativa.
   Inclinando a cabea, Simon beijou-a no ponto vulnervel do pescoo. Sorriu ao sentir sua pulsao aumentar.
   - Eu a beijei aqui? - Mordiscou-a ao longo da clavcula. - E aqui? - E foi descendo pelo vale entre os seios, detendo-se junto ao corao que batia to descompassado
quanto o seu. O aroma de rosas o inebriava. Desejou arrancar-lhe o robe e degust-la at se fartar, mas conteve-se. - Quero sentir sua pele? contra a minha... -
sussurrou.
   - Est bem...
   Linnet estremeceu quando ele lhe abriu o robe, sentindo-se vulnervel e exposta. Ao mesmo tempo, queria, ansiava pelos toques. Tensa, prendeu a respirao enquanto
aguardava a prxima carcia. Ternura era o que menos esperara de um homem to reservado e distante.
   - Linda... - murmurou Simon, afagando-lhe as costelas com a mo calejada, at que a deteve sob o seio. - Eu a toquei aqui?
   - No...
   Linnet ofegou quando ele fechou a mo, quente e possessiva, sobre seu seio. Um prazer imenso avassalou-a durante a massagem delicada. Gemendo o nome dele, arqueou
o corpo sob as carcias, implorando mais.
   Ele a atendeu tomando o mamilo sensvel entre os dedos, excitando-o com tanta delicadeza que ela se perdeu numa onda de sensaes indescritveis.
   Simon inclinou o rosto e sorveu os soluos de xtase que escapavam dos lbios dela. Quando j no agentava mais, deslizou a boca at os seios pequenos e firmes.
   - Eu a beijei aqui? - sussurrou, concentrando-se no mamilo enrijecido.
   Linnet apenas gemeu em resposta, aguardando com impacincia febril o que sabia que estava por vir. S que saber e sentir eram coisas totalmente diferentes. Estremecia
a cada investida da lngua aveludada sobre seu mamilo sensibilizado.
   - Gosta disso? - indagou Simon, num sussurro ardente.
   - Gosto... Quero mais - exigiu ela, puxando-o pelo pescoo.
   J no a beijava, mas devorava, mordiscando o mamilo rgido, tomando-o na boca para saborear em total abandono.
   Linnet gritou de prazer e enterrou as mos nos cabelos dele, seu nico ponto de apoio num mundo em queda livre.
   - No me deixe... - suplicou, quando ele ergueu o rosto.
   - No, nunca mais. - Simon transferiu a ateno para o outro seio e sugou-o com tanta sofreguido que ela se sentiu lambida por labaredas de fogo. - To linda,
to receptiva... - murmurava, contra sua pele ardente. E baixou mais as mos, passando pela curva do quadril rumo ao ventre aconchegante, deixando para trs uma
trilha de chamas.
   Linnet sentia as entranhas em tenso cada vez mais forte, esta concentrando-se na fissura oculta ente suas coxas. Moveu as pernas, tentando aliviar a nsia, mas
ela s fazia crescer, at que temesse desintegrar-se.
   Com Linnet contorcendo-se em seus braos, Simon viu seu desejo explodir como madeira seca atingida por um raio. Seu desejo era to intenso que fazia troa de
sua frieza e controle, os quais tanto valorizava. No entanto, queria que aquele momento durasse, queria lev-la s maiores alturas, de modo a apagar suas lembranas
daquela primeira vez desastrosa.
   - Calma, amor... Deixe-me dar-lhe prazer...
   - Depressa, depressa... - implorava Linnet.
   Simon sorriu, encantado com o mpeto da amada.
   - No, nada de pressa - contrariou. - No desta vez. - Levou a mo ao centro do corpo dela, sorrindo ao sentir seu tremor de expectativa. Quero que receba tudo
o que tenho para lhe dar.
   Linnet gemeu baixinho quando Simon introduziu os dedos no ninho encaracolado que guardava seus segredos mais ntimos. Instintivamente, separou as coxas e foi
recompensada com um toque ali, onde mais precisava. Arqueou o corpo, no ritmo estabelecido pelo dedos hbeis. Suas entranhas contraram-se e ento relaxaram numa
exploso de prazer to intenso e agudo que foi como se alasse vo.
   Ao ouvi-la soluar seu nome, ver os olhos dela obscurecidos de paixo, Simon experimentou uma satisfao indita em sua vida. Oh, seu corpo continuava excitado
ao ponto da dor, mas sua alma saciara-se com a alegria de Linnet. Por ela, e por si prprio, beijou-a vorazmente e tomou-a de novo, regozijando-se quando ela enterrou
as unhas em sua carne, o corpo convulso pela segunda vez.
   - Simon... - sussurrou Linnet, atnita ante a intensidade de sua resposta a ele.
   O cavaleiro tinha os olhos cintilantes de triunfo. Ali, atrs das chamas abafadas, estava o amor que ele escondia at de si mesmo.
   No obstante, Linnet sentiu-se encorajada. Um dia, ele admitiria o que sentia. At l... Abriu os braos para ele.
   - Venha a mim, amor - sussurrou. - Deu-me um prazer que nunca imaginei existir, mas por dentro estou vazia.
   - Ainda no, voc precisa...
   - Que me preencha... que me complete.
   Grunhindo, Simon livrou-se da cala e deixou-a vislumbrar a paixo avassaladora que vinha controlando a custo. Para o bem dela. Ento, estendeu-se a seu lado
e puxou-a contra si, encaixando-se entre seus quadris.
   - Tentarei ser gentil, mas a quero mais do que imaginei ser possvel desejar algum.
   - Ento, venha a mim. - Lendo as necessidades nos olhos dele, Linnet passou a acarici-lo, regozijando-se com seus tremores  medida que deslizava as mos pelo
corpo msculo, puro ao recoberto de veludo.
   - Preciso de voc. Agora.
   - E eu de voc.
   As palavras no passaram de um sussurro. Ele se posicionou sobre ela, apartando-lhe as coxas com mos trmulas. Ento, preencheu-a numa nica investida ertica.
   Linnet engoliu em seco, chocada com o tamanho e a potncia da masculinidade dele. Felizmente, no houve dor, nem sensao de invaso, s um profundo e duradouro
senso de certeza.
   - Voc est bem? - Simon soergueu-se, os cabelos emaranhados, as feies tensas  luz das velas.
   No era homem fcil de amar, aquele cavaleiro complexo, de alma cansada, que lhe capturara o corao havia tanto tempo. No entanto, amava-o.
   - Melhor, impossvel. - Linnet enlaou-o pelo pescoo e ergueu os quadris, abrindo-se para ele, puxando-a para si at que estivessem o mais prximo que duas pessoas
poderiam estar. - Bem-vindo ao lar, Simon.
   - Lar... - Sim, unir-se a Linnet era como voltar para casa. O corpo dela o envolvia como uma luva de seda, quente e justa, como se nunca mais fosse solt-lo.
Em
seu ntimo, a dor fria e cortante que sempre carregara consigo parecia arrefecer. - Deixe-me mostrar o quanto significa para mim. - Segurando-a pelos quadris, levou-a
numa jornada to antiga quanto o tempo, mas que com ela tornava-se uma viagem de renovao.
   Linnet agarrou-se a ele, mergulhando nas sensaes que provocavam um no outro, no dar e receber. Com investidas cada vez mais urgentes, ele s fez aumentar o
fogo em suas entranhas, at que, de repente, seu mago estilhaou-se. Gritando o nome dele, levou-o consigo, da escurido para a luz.


   CAPTULO 13

   Algum tempo depois, um segundo, uma hora, ele no tinha certeza, Simon sentiu a mente clara o bastante para pensar em algo alm da paixo que o consumira por
completo. Linnet dormia a seu lado, a cabea apoiada em seu peito, a respirao regular. Poderia ficar ali para sempre, a alegria derramando-se sobre ele como mel
morno.
   Fazer amor com Linnet superara seu sonho sob todos os aspectos. Seu calor, sua receptividade, sua capacidade de dar humilharam-no e comoveram-no. Estar com ela
era como acordar aps um sono longo e profundo.
   Precisava dela de uma maneira que ultrapassava em muito o desejo que fulgurava entre ambos. No chamaria, no podia chamar de amor. Paixo, carinho, respeito,
tudo isso e mais sentia por ela. Mas amor? Instintivamente, esquivava-se  palavra. O amor era para os tolos que acreditavam nas baboseiras declamadas por trovadores.
Preocupava-se com Linnet, nada mais.
   Apertou o brao ligeiramente em torno dela. Como era pequena e vulnervel, constatou, temeroso. E se Crispin descobrisse um jeito de indici-la por assassinato?
   Assim permaneceu, lutando contra o impulso de apert-la junto ao peito e, de algum modo, absorv-la, assim mantendo-a segura.
   A distncia, os sinos da catedral convocavam s matinas. Passava pouco das trs da madrugada. O corao da noite, na verdade. Mas imaginava que o arquidicono
j estivesse de p, a caminho de rezar a primeira missa do dia. Depois, iria se preparar para oficiar no funeral de Thurstan.
   Isso significava que o quarto dele estaria vazio, e seus segredos, vulnerveis a qualquer um que tentasse descobri-los.
   Simon desvencilhou-se do abrao de Linnet e saiu da cama, relutante em deix-la, porm impelido pelo dever. Deteve-se um segundo, sorvendo sua beleza, seu rosto
sereno emoldurado pela cabeleira cor de mel esparramada sobre o travesseiro que haviam partilhado. Quando despertasse e se visse sozinha, ela com certeza ficaria
preocupada, mas queria tratar daquele assunto sozinho.
   Linnet lamuriou-se e enterrou-se no nicho que ele vagara, como se procurasse por ele, mesmo no sono. Ao ajeitar as cobertas sob su queixo, aproveitou para lhe
afagar os cabelos, to emocionado que o corao chegava a doer contra suas costelas. Como seria poder dividir aquela cama com ela toda noite'? Jamais cogitara um
compromisso permanente. Agora, ansiava por isso.
   Rpido e em silncio, vestiu a cala e a tnica e calou as botas das quais se livrara de modo to atabalhoado horas antes. Com a agilidade proporcionada pela
prtica, esgueirou-se para fora do quarto e desceu a escada. Todos dormiam ainda, a casa estava s escuras, com exceo de uma vela solitria queimando sobre a mesa
da cozinha. A luz fraca permitia vislumbrar um dos soldados dormindo num colchonete junto  porta.
   - Miles?
   Foi um alvio ver o homem pr-se de p num salto, espada em punho.
   - Oh,  o senhor?
   - Sim. Vou dar uma volta no jardim. - Simon no precisava dizer que era o jardim da catedral a que se referia. - Fique de olho em tudo por aqui at eu voltar.
   Do lado de fora, Simon aguardou que a porta fosse trancada novamente antes de rumar aos fundos do predio, mantendo-se entre as sombras. As ruas estavam desertas,
as lojas, todas fechadas e apagadas. Alcanou os muros da catedral sem nenhum percalo e seguiu ao longo deles at o ponto em que se fundiam as muralhas da cidade.
De baixo da capa, tirou uma corda e lanou-a ao alto. Na primeira tentativa, prendeu o gancho no topo do paredo e iniciou a escalada. Segundos depois, transpunha
o obstculo.
   Do outro lado do ptio coberto de relva, figuras em roupas escuras convergiam em fila s portas macias da catedral. Eram os padres e os estudantes chegando para
as oraes.
   Simon deteve-se at que o ltimo deles entrasse e as portas se fechassem. A seguir, meio abaixado, correu pelo espao aberto at o palcio. Planejara entrar pela
cozinha, mas o cheiro de po fresco no ar frio alertara-o de que o pessoal da cozinha j trabalhava, e optou por usar uma das janelas dos fundos. Introduzindo a
ponta da adaga entre as duas folhas da veneziana, abriu o fecho metlico que as cerrava e, num piscar de olhos, viu-se no meio do grande salo.
   Tenso, esquadrinhou o ambiente. Estava vazio, iluminado apenas pelo brilho fosco das brasas dormentes na lareira. Mas essa pouca luz bastou para conduzi-lo por
entre os mveis at a porta. O corredor, sim, estava negro como breu. O que muito lhe convinha. Percorreu a extenso at o saguo de entrada rpida e silenciosamente,
direto ao quadrado de luz que marcava o poo da escadaria. Ao descer os degraus, amaldioou os archotes que brilhavam a cada curva.
   Aps certificar-se de que no havia ningum por perto, seguiu para as celas. Tal incurso no diferia em nada das dezenas de outras que empreendera com os cruzados,
ao invadirem a cidade de Damietta. S que l contava com os companheiros para proteger-lhe a retaguarda. O que no daria pelo brao forte de Hugh ou a audio apurada
de Guy naquele momento! Ou mesmo pela ajuda do ftil Nicholas. O sem-vergonha tinha que escolher aquela hora para ir atrs de outro rabo-de-saia...
   Sua respirao soava ofegante no espao estreito, mas nem se notavam seus passos enquanto percorria os degraus gastos. Apossando-se de uma tocha, passou a um
corredor estreito de onde se tinha acesso a vrios depsitos e cmodos rsticos que mal comportavam um colchonete e uma banqueta. Celas para clrigos visitantes,
pelo que se via. Todos pareciam estar desocupados, exceto um.
   O de Crispin, concluiu, embora o quarto parecesse to espartano quanto os demais. Um hbito cinza pendia de um gancho  parede, e perto da banqueta havia um ba,
com uma vela e apetrechos de escrita sobre o tampo.
   Simon olhou para os dois lados e entrou, desejando que existisse uma porta que pudesse manter fechada durante a vistoria. Aps um rpido exame no hbito, percebeu
um pequeno rasgo na manga. Na esperana de que o tecido fosse o mesmo do retalho encontrado no depsito de Olf, arrancou uma amostra e guardou-a na bolsa ao cinto.
Apalpou o colchonete de palha, mas nem sinal do pote de acnito. Vasculhar o resto da cela tomou-lhe poucos segundos.
   O ba estava trancado, mas a fechadura cedeu  ponta da adaga. Seu interior guardava apenas algumas peas de grossas roupas de inverno e rolos de pergaminho,
alguns em branco, a maioria coberta por uma escrita difcil, caprichada. Tudo em latim.
   Simon suspirou, desejando no ter sido um aluno to relapso. Linnet sabia latim, j a vira lendo e escrevendo nessa lngua na loja, mas no poderia levar-lhe
todos aqueles documentos com base na frgil esperana de que houvesse ali alguma informao de valor. J recolocava os papis no lugar quando captou o reflexo da
luz sobre um objeto branco no fundo do ba.
   Inclinando-se para a frente, sentiu os dedos afundarem num p branco demais para ser poeira.
   Acnito?
   Tanto Anselme quanto Linnet j haviam alertado sobre o perigo de o veneno poder ser absorvido pela pele. Simon rasgou um pedao de pergaminho, dobrou numa espcie
de envelope e, com a ajuda de outra tira de papel, recolheu um pouco do p. Fechando O embrulho, guardou-o tambm na bolsa ao cinto.
   O repique do sino o fez levantar-se abruptamento. Aps recolocar tudo conforme encontrara, fechou o ba e deixou a cela. Com os sentidos em alerta e os nervos
em frangalhos, ao mesmo tempo apreensivo e j vislumbrando o triunfo, refez o caminho percorrido e saiti do palcio. Sob os teixos na quina do prdio, observou os
padres, os novios e os estudantes deixando a catedral. Alguns permaneciam l dentro, certamente, rezando junto ao esquife de Thurstan. No entanto, reconheceu o
passo ligeiro e o hbito cinza de Crispin
   - Assassino - rosnou Simon.
   O dio que se apossou de sua alma espantou-o, pois pareceu-lhe.., pessoal. Thurstan de Lyndhurst podia t-lo ignorado a vida toda, mas dera-lhe vida, e uma parte
suei lamentava a perda do pai que jamais conhecera.
   Com o olhar estreito, Simon acompanhou o gingar do hbito cinza do arquidicono pelo amplo gramado.. Nada mais fcil do que surpreender o prelado pelas costas
e vingar-se. Chegou a apertar o cabo da adaga  cintura e comeou a tir-la da bainha, mas guardou-a. Se matasse Crispin, vingaria Thurstan e salvaria Linnet, mas
no era seu modo de agir.
   No meio do caminho, o arquidicono desviou-se e tomou o caminho do jardim de rosas.
   Simon agachou-se, percorreu o gramado e ocultou-se sob a sebe de teixos que cercava os jardins. Com os instintos em alerta, abriu uma fenda entre os galhos e
espiou.
   Crispin alcanou o centro do roseiral, parou e olhou ao redor. Seu comportamento era esquivo e, quando ele comeou a cavar a terra, Simon adivinhou seu intento.
Enterrar o acnito.
   Simon mal coube em si de alegria. Cus, gostaria que o proco Walter ou irmo Anselme estivessem ali para testemunhar a cena.
   Crispin levantou-se, olhou em torno e tomou o rumo do palcio do bispo. Assim que o arquidicono desapareceu de vista, Simon correu at o meio do jardim e ajoelhou-se.
Apesar da escurido, localizou o trecho de terra recm cavoucada e passou a revir-la com a lmina da adaga. A poucos centmetros da superficie, bateu em algo slido.
   Sentado nos calcanhares, Simon sentia a cabea girar. Por mais tentador que fosse desenterrar, por segurana deveria encontrar uma testemunha.

   Linnet foi despertando aos poucos, como um nadador emergindo de guas mornas, leve e contente. Ao se espreguiar, percebeu a cama vazia e assustou-se.
   - Simon? - Sentou-se, magoando-se ainda mais ao constatar que o amado no s abandonara sua cama, como tambm seu quarto.
   Ele se foi para poupar sua reputao, argumentou a mente.
   Mas podia ter me beijado antes de partir, ralhava o corao.
   Provavelmente, no quisera acord-la. As vezes era preciso deixar de lado a considerao, concluiu, recostando-se na cabeceira da cama. Era cedo ainda, a julgar
pela escurido alm da janela. Deveria dormir, pois o dia prometia ser exaustivo.
   Contudo, a preocupao com o porvir, o enterro de Thurstan e o confronto com o arquidicono Crispin impediam-na de conciliar o sono.
   Com um suspiro, afastou as cobertas e pegou o robe. A dor sensual em pontos ntimos a fez suspirar novamente, desta vez com saudade. Nunca imaginara que o comportamento
resoluto, s vezes agressivo, de Simon ocultasse tanta ternura, tanta capacidade de doar-se. Os cuidados dele davam-lhe a certeza de que teriam um futuro juntos.
Com filhos. Queria-os, precisava deles, a fim de curar o vazio em seu corao.
   A vela ao lado da cama j quase se afogava em sua cera. Acendeu outra e foi  escrivaninha. De um lado, notas de vendas aguardavam conferncia com as listas de
compras dos clientes. Listas das especiarias exticas a adquirir em Londres misturavam-se a anotaes das ervas a plantar no jardim no ano seguinte. Penas a afiar
amontoavam-se junto ao tinteiro.
   Com o cenho franzido, Linnet pousou a vela e comeou a arrumar a mesa. Devido aos ltimos acontecimentos, atrasara-se com a contabilidade. Enquanto organizava
os pergaminhos, encontrou um livrinho preto.
   O livro de oraes de Thurstan.
   Linnet sentou-se, os olhos cheios de lgrimas ao correr os dedos pelo volume precioso. Reverente, abriu-o e soube que a irm dele, Catherine, dera-o de presente
muito antes de tornar-se a abadessa do convento de Blackstone.
   "Que possa encontrar um pouco de paz, se no a felicidade que lhe foi roubada", escrevera Catherine.
   O forro da primeira capa estava saliente, como se a folha de pergaminho que cobria as bordas da capa de couro tivesse se soltado e algum tentado repar-la sem
capricho. Talvez conseguisse um resultado melhor, pensou, virando as pginas, lendo por alto o latim familiar das oraes favoritas de Thurstan. A quarta pgina,
porm, parou e olhou abismada.
   No se tratava de prece antiga, mas de uma relao em quatro colunas. Com o cenho franzido, concentrou-se e traduziu do latim: datas e nomes, muitos de cidados
de Durleigh. Ao lado dos nomes, anotaes breves, uma ou duas palavras em alguns casos. Palavras graves, poderosas, representando os pecados clssicos: roubo, usura,
avareza e adultrio. A ltima coluna listava as penitncias impostas por Thurstan aos pecadores, de donativos em dinheiro  igreja e pequenos atos de caridade.
   Trmula, Linnet recostou-se. Tratava-se do dirio de Thurstan. Por que ele mantinha um registro dos pecados que lhe confessavam? O que aconteceria se aquele dirio
fosse parar em mos erradas? Ento, uma idia ainda mais terrvel lhe ocorreu. Freneticamente, virou as pginas at chegar ao dia em que confessara a Thurstan seu
segredo mais ntimo.
   Linnet Especer, solteira e esperando o filho de Simon de Blackstone. Ir para Blackstone a fim de dar  luz...
   Linnet desviou o olhar da pgina antes de ler as palavras que descreviam o preo terrvel que pagara. Como Thurstan pudera registrar seu pecado assim, para qualquer
um ler? Virgem Maria, o que fazer com aquele dirio?
   Escond-lo? Queim-lo? Mas e se o dirio contivesse alguma pista referente ao assassinato do prprio Thurstan? Hesitante, voltou a folhear o livro...
   - Oh de casa! - chamou algum fora da loja.
   Linnet ps o dirio de lado e correu  janela frontal. Ainda estava escuro, mas na sombra junto  porta da frente, uma forma se movia. No podia ver quem era,
mas um dos homens de Simon j perguntava de dentro.
   O suposto cliente respondeu com voz abafada e Linnet s entendeu uma palavra: "doente".
   Sem perder tempo, ela pegou a vela e desceu a escada. Alcanou o corredor no instante em que Jasper dispensava o cliente.
   - Espere! - ordenou Linnet. - Pode ser grave.
   O semblante do soldado era uma mscara de cautela  luz tremeluzente.
   - Simon disse para no deixar ningum entrar enquanto ele estivesse fora.
   Linnet sentiu-se fraca e enregelada.
   - Ele saiu?
   - Saiu - confirmou Miles, juntando-se a eles no corredor, espada em punho. - Pelos fundos, h algum tempo.
   Linnet olhou para a porta, dividida entre a precauo e o dever.
   - Hoje uma cliente veio comprar um remdio para seu beb doente. Eu lhe pedi que voltasse se a criana no melhorasse. Deixe-me ver se no  o marido dela.
   Jasper e Miles entreolharam-se e deram de ombros.
   - Veja quem e..
   - E o senhor, mestre Carpenter? - indagou Linnet.
   - O beb piorou?
   - Sim - confirmou a voz abafada. - Ela est muito mal.
   - Oh, Deus... - Linnet j rememorava as curas para clicas infantis. Aparentemente, o caldo de broto de aspargo no surtira efeito. Recomendaria uma decoco
de alfazema para beber e arruda fervida em leo para esfregar no ventre. - Deixem mestre Carpenter entrar, por favor, enquanto pego os produtos.
   Na loja, Linnet encontrou Drusa e Aiken abraados, os olhos arregalados de medo.
   - Est tudo bem.  s mestre Carpenter em busca de remdios para...
   Um grito no saguo a interrompeu, seguido por sons de luta.
   - Cuidado, lady Linnet! - alertou Jasper. - Assaltantes!
   Sua voz perdeu-se entre os grunhidos e os sons de ao em choque.
   Drusa gritou e caiu sentada num banco.
   - Rpido, pelos fundos! - exclamou Aiken.
   Linnet j seguia naquela direo, mas reconsiderou.
   - No, pode haver outros esperando por ns l.
   - Aonde, ento? - desesperou-se o aprendiz.
   - No sei...
   Quatro homens invadiram a loja. Eram grandes e fortes, de expresso dura. Tinham as espadas sujas de sangue.
   Linnet paralisou-se, o corao acelerado como o de uma cora encurralada. Ento, reconheceu o bandoleiro Rob FitzHugh.
   - Onde est Simon de Blackstone? - indagou Rob, revirando a loja maldosamente.
   Drusa gritou de novo e tombou no cho, distraindo os bandidos. Aiken aproveitou para pegar um. atiador na lareira, o qual empunhou como espada, mas seu contra-ataque
durou apenas um segundo, pois Rob o empurrou contra a parede. Batendo a cabea, o aprendiz escorregou ao cho, desmaiado.
   - No! - Linnet correu em socorro do jovem empregado, mas foi agarrada e tambm atirada contra a parede.
   - Onde est Blackstone? - Rob ofegava furioso.
   - Saiu - murmurou Linnet. - Mas volta num...
   - D-me o livro de registros da loja e todos os outros que tiver!
   Linnet encarou o bandido confusa. Estupro ou dinheiro, compreenderia, mas por que ele quereria livros?
   - Meu livro de registros?
   - Sim, o livro no qual registra o que vendeu a quem! - Rob a sacudia violentamente. - Rpido! Entregue-o!
   Linnet j via estrelas devido s batidas da cabea contra a parede.
   - Por favor, eu...
   Rob apertou a lmina da espada contra seu pescoo.
   - Vale a sua vida?
   - No... - Linnet engoliu em seco. - O... livro de registros est em meu laboratrio. Os... outros livros e papis esto... l em cima... - Enfraquecida, indicou
a escada com a mo esquerda.
   Rob baixou a espada e agarrou-a pelo ombro, os dedos sujos adentrando-lhe a carne.
   - Primeiro o livro de registros!
   Linnet tropeou pela sala, as pernas to bambas que temeu que no ~a sustentassem. A porta, Rob a segurou. Estava escuro l dentro, mas ela conhecia cada centmetro
de seu pequeno domnio.
   - Tragam uma luz! - ordenou Rob, por sobre o ombro. Linnet tremia sob o jugo do bandido. Seu corao pulava tanto que poderia saltar de seu corpo. Sobreviver
era sua principal preocupao. Entretanto, durante os poucos segundos que o comparsa levou para arranjar uma tocha, um novo temor a assaltou. Quando conseguisse
o livro de registros, Rob os deixaria, ou mataria?
   A nusea subiu-lhe do ventre  garganta. Era contra sua natureza simplesmente desistir, mas o que poderia fazer? No tinha nenhuma arma, alm de suas ervas e
especiarias.
   - Pronto! - rosnou uma voz rude.
   Uma luz forte acendeu-se s costas de Linnet.
   Rob soltou-lhe o ombro a fim de pegar a tocha.
   - Pegue o livro de registros, e nada de gracinhas! - Empurrou-a para o pequeno recinto em que ela misturava as poes.
   A luz derramava-se sobre prateleiras bem arrumadas com potes de cermica, buqus de ervas secas e recipientes cheios das mais diversas substncias, de gordura
de ganso a gua de rosas.
   Talvez conseguisse golpear o bandido na cabea com um pote, considerou, enquanto sofria um ataque de riso histrico. O livro de registros estava aberto no centro
da mesa de trabalho, entre uma pilha de urtiga fresca, e o caldeiro em que pretendia ferv-la.
   -  aquele?
   Linnet confirmou meneando a cabea.
   Rob pegou o livro e o examinou com a expresso parva dos iletrados.
   -  melhor que seja o que ele quer - rosnou, atirando o livro ao comparsa. - Tome conta disto, Ranulf, e cuidado para no sujar!
   O outro assentiu e saiu apressado.
   - Vamos l para cima pegar os outros livros - ordenou Rob a Linnet.
   - Por qu? - questionou ela. - Tm pouco valor...
   - O delegado os quer.
   Linnet j estava fria, mas ento enregelou-se. Tinha que escapar das mos daquele bandido de qualquer maneira. Mas como?
   Rob agarrou-lhe o brao direito e empurrou-a pela porta.
   - Vamos, no temos a noite toda!
   O instinto levou Linnet a pegar o que estava  sua mo. A urtiga. Envolvera as hastes num pedao de tecido a fim de evitar o contato direto com a pele. Escondeu
o mao entre as dobras do robe e seguiu trpega ao lado do bandido.
   Na loja, os dois comparsas restantes reviravam cestos e bas procurando dinheiro, sem dvida. Drusa continuava no cho, gemendo baixinho, as plpebras agitadas.
Encostado na parede com a lngua de fora, Aiken tinha a cabea pendente, com um fio de sangue escorrendo da boca.
   Linnet estacou.
   - Deixe-me examinar meu aprendiz - pediu.
   - No! - Rob ordenou aos outros que cessassem a pilhagem. - Vamos subir e pegar os outros livros.
   Linnet apertou a mo junto s hastes de urtiga. Agora? Ou depois? Desesperada e amedrontada, sopesava suas chances enquanto o bandido a arrastava rumo  escada.
   Nesse instante, Simon surgiu vindo da cozinha, espada em punho, a expresso to dura e implacvel que ela mal o reconheceu.
   - Solte-a, FitzHugh - ordenou, num rosnado.
   Rob praguejou, puxou Linnet para a frente de seu corpo e ergueu a espada.
   - Largue sua arma, ou a trespasso!
   Simon fitou-a nos olhos. A angstia neles espelhava sua luta interior, a determinao em salv-la sobrepondo-se ao instinto de lutar.
   Horrorizada, Linnet viu Simon baixando a espada.
   - No!
   Sem pensar em mais nada, ergueu o ramo de urtiga e golpeou o rosto do bandido com a planta irritante. Ele gritou e afrouxou a mo, ao que ela lhe escapou.
   - Corra, Linnet! - gritou Simon, reerguendo a espada.
   Teve apenas um segundo para aplaudir sua ao corajosa e nenhum para ver se ela alcanara a segurana. O estrpito de ao contra ao absorvia as imprecaes de
Rob ao aparar as impetuosas investidas de Simon. Em certo momento, o bandido acertou um golpe. Atingido no ombro, Simon rangeu os dentes contra a dor, preparando-se
para enfrentar os dois comparsas que chegavam para atac-lo. O trio o obrigou a recuar pela sala, as lminas reluzindo  luz da tocha.
   O rosto de Rob era urna mscara de fria  chama tremeluzente, se olhar, puro escrnio.
   - No to seguro de si agora, hein?
   - Veremos.
   Juntando foras, Simon desviou os golpes e investiu, acertando o homem  esquerda entre as costelas. Era um que gritava e caa, mas o alvio durou pouco. Rob
e o comparsa restante retomaram a batalha com mais vigor. Se lhes faltava habilidade, ganhavam em nmero. Simon concluiu que s sobreviveria por milagre. De soslaio,
viu Linnet e seu medo dobrou.
   - Fuja! - gritou.
   Mas sua amada corajosa e impetuosa no o atendeu. Avanando sobre os bandidos, enfiou o ramo de urtiga sob a tnica do comparsa de Rob. A vtima deixou cair a
espada, gritando e arranhando as costas.
   A distrao momentnea era tudo de que Simon precisava. Manobrando a lmina sob a guarda de Rob, impeliu-a. O bandido arregalou os olhos, estarrecido. Ento,
concentrado no sangue que escorria do prprio peito, desabou lentamente ao cho.
   Simon procurou o pulso de Rob e constatou que estava morto. Jamais esclareceria suas dvidas.
   - Droga! - Controlando a frustrao, Simon verificou como estavam os outros. Linnet ajudara Drusa a se levantar, e as duas j cuidavam de Aiken. Miles vigiava
de p o bandido atormentado pela urtiga. - E Jasper? - indagou-lhe.
   - Levou alguns golpes, mas vai sobreviver. - Miles cutucou o bandido com o p. - Este aqui est vivo.
   Simon aproximou-se e atentou ao assaltante. Era o mendigo que montara guarda diante da loja.
   - Chame o vigia - ordenou a Miles.
   Quando o soldado se afastou, Simon sacudiu o bandido.
   - Quem os mandou aqui? Foi Hamel?
   O homem confirmou com um grunhido, o corpo contorcido de dor.
   - O que ele queria? - inquiriu Simon.
   - Meu livro de registros - informou Linnet, a seu lado.
   - E... a escritura do bispo. - O homem encarou Simon. - Aquela que roubou... na noite em que ele morreu.
   - No roubei nada dele - protestou Simon.
   - Hamel disse... que era... dela.
   Simon franziu o cenho.
   - De Linnet?
   - No... da amante dele. - Com isso, o homem engoliu em seco, arregalou os olhos e ento os cerrou, a cabea pendente para o lado.
   - Droga - praguejou Simon. - Eu precisava dele vivo.
   Linnet fez o sinal da cruz.
   - Acha que ele estava falando de Tilly?
   - De Odeline, na minha opinio. Nelda afirmou que ela  amante de Hamel.
   Linnet encarou-o, atnita.
   - Odeline e Hamel?
   - Um casal bem estranho. - Sentado nos calcanhares, Simon contemplou o corpo de Rob FitzHugh. - De que trata essa escritura para Odeline quer-la tanto?
   Linnet raciocinava furiosamente.
   - Anselme acredita que pode haver dois assassinos.
   - E os aposentos de Odeline ficavam bem em cima dos de Thurstan.
   - Ela teria tido acesso  aguardente - completou Linnet, esperanosa.
   - No creio que ela seja a responsvel pelo envenenamento. - Em voz baixa, Simon revelou o que encontrara no ba de Crispin. - No desenterrei o acnito pois
poderiam
dizer que inventei a histria toda. O proco Walter prometeu investigar o mais rpido possvel.
   - Oh, Simon... - Linnet chorava de alivio e gratido. - Obrigada por tudo o que tem feito para me ajudar.
   - Ainda no acabou - alertou ele. - Nossa prova no , de forma alguma, definitiva. - Rogava que bastasse para levar Crispin  confisso.
   - E essa histria da escritura?
   Simon passou a mo nos cabelos.
   - No sei. S temos a palavra deste verme que j nem existe mais. - Estremeceu, ainda abalado por ter encontrado Linnet em perigo mortal. - Cus, se no tivesse
chegado naquele segundo...
   - Chegou bem na hora. - Linnet sorriu. - Como sempre.
   Ele aquiesceu, mas ela via o sentimento de culpa em seus olhos.
   Simon nem imaginava que a culpa dela era muito maior do que qualquer uma que ele pudesse sentir. Pensou ento no dirio em sua escrivaninha, potencialmente to
perigoso quanto uma caixa de Pandora, atormentada quanto ao que fazer com ele.

   Algum remexera em seus pertences.
   Crispin soube disso no instante em que abriu o ba, pois os pergaminhos no estavam exatamente conforme os deixara.
   - Maldito Walter de Folke - murmurou, revirando as roupas no fundo do ba.
   Ali, brilhando de forma agourenta jazia uma fina camada de acnito que cara do pote. Planejara pegar as luvas de Olf e recolher o p venenoso, mas agora era
tarde demais.
   Com os dentes cerrados, Crispin recostou-se. Walter sabia. Walter sabia. As palavras ressoavam em sua mente como um sino incessante. O que Walter faria?
   Contaria ao arcebispo.
   J via toda a sua vida devotada a Deus e ao bem destroada por conta da bisbilhotice do proco. No, no perderia tudo agora. Se limpasse o ba, seria a sua palavra
contra a de Walter. Poderia argumentar que o proco o difamara na esperana de se promover. Mas e o pote de acnito?
   E se Walter o seguira at o jardim? Engasgado de medo, Crispin saiu correndo da cela. Fora do palcio, diminuiu o passo. Ainda estava escuro, mas os irmos j
estavam de p, preparando-se para o funeral. Apressado, chamaria a ateno sem necessidade.
   Fingindo uma calma que escarnecia de seu pnico, Crispin obrigou-se a perambular pelo jardim. Longos minutos depois, chegou ao ponto em que enterrara o pote de
acnito. Parecia inviolado. A pretexto de examinar as rosas, desenterrou o pote com a ponta da sandlia, abaixou-se e pegou-o. Com o objeto escondido na manga do
hbito, refez o caminho de volta. J  sombra do palcio, olhou por sobre o ombro e viu Walter adentrando o jardim pelo outro lado.
   Walter aproximou-se do local em que o pote estivera enterrado e comeou a cavar.
   Foi vontade de Deus que eu chegasse primeiro!, aliviou-se Crispin.
   Assim como era vontade de Deus que Walter se abstivesse de relatar suas suspeitas ao arcebispo.


   CAPTULO 14

   A catedral de Durleigh era um monumento em pedra ao poder que o bispo Thurstan congregara na terra, concluiu Simon, enquanto se iniciava o funeral. As colunas
gigantes da nave e coro despontavam ao cu at as abbadas l no alto, dando a impresso de fora e autoridade inflexveis. Archotes nas paredes e velas no altar
lanavam uma luminosidade difusa sobre a melanclica assemblia no ar carregado de incenso e sons de choro franco.
   No coro, os cnegos entoavam cnticos enquanto o arquidicono Crispin e o proco Walter subiam ao altar principal. Abaixo deles, o povo da cidade em sua melhor
roupa lotava a nave como arenques num barril, ao lado de fazendeiros de terras distantes e de cavaleiros do castelo.
   A chuva que caa l fora imprimia uma triste tatuagem na rara janela de vitral comprada com o dinheiro do pedgio de Thurstan.
   -  como se tambm o cu chorasse seu passamento, - comentou mais de um paroquiano de olhos avermelhados.
   Simon preocupava-se com os sentimentos de apenas uma pessoa.
   Ajoelhada a seu lado, Linnet soluava num modesto vestido de l creme com tnica verde-escura, sem mangas.
   Prendera os cabelos numa trana no alto da cabea e cobrira-os com um vu que lhe alcanava os ombros. Era to difano que atravs dele se viam as lgrimas em
seu rosto.
   Dias antes, ele teria se enfurecido ante a demonstrao de pesar pelo homem que o gerara. Agora, apesar da reao ainda influenciada pelo que no haviam partilhado
como pai e filho, sentia um peso no corao. Ocorreu-lhe, enquanto os monges carregavam o caixo coberto de seda para a catedral, que jamais teria a oportunidade
de formular as perguntas que o atormentavam. Jamais saberia se fora a luxria ou o amor que levara Thurstan a desprezar seus votos sacerdotais. Jamais saberia por
que ele no o assumira, nem quem era sua me e se ela ainda vivia.
   - Arrependa-se de seus pecados! - A voz de Crispin ricocheteou na pedra.
   Vinha repetindo essa ladainha havia algum tempo, j. Ainda que no vilipendiasse o bispo, aproveitava a ocasio para criticar o pecado sob todos os disfarces.
Concentrava-se no objeto de maior fraqueza do homem: as mulheres. E, durante o sermo, dirigia o olhar fulminante, quase manaco, a Linnet.
   Instintivamente, Simon achegou-se a ela, tomado de uma emoo profunda. Linnet era sua, e a protegeria at o ltimo suspiro. Na noite anterior, ela se abrira
para ele, de corpo e alma. O encontro criara um vnculo entre ambos. Eterno. Sentia-o nos ossos, nas profundezas de seu ser. No sabia o que lhes reservava o futuro,
mas no deixaria Crispin nem ningum prejudicar sua preciosa amada.
   Simon lanou ao arquidicono um olhar que transmitia tudo o que pensava a respeito dele. Hipcrita. Hipcrita assassino. Seu dio cresceu, afogando a tristeza.
Sei que matou Thurstan, e farei com que pague!
   Crispin atrapalhou-se com as palavras, enrubesceu e desviou o olhar, prosseguindo com o sermo em voz no to firme.
   Satisfeito, Simon procurou o proco Walter e irmo Anselme na multido. Concentrados nas oraes por Thurstan, eles no perceberam que os observava. No obstante,
queria crer que eles haviam desenterrado o pote e apurado que continha acnito. A tarde, quando Crispin iniciasse o inqurito, iriam confrontar-se com ele e acus-lo
de assassinato.
   Walter no se mostrara to confiante.
   - Mesmo que ele tivesse o acnito, no seria uma prova cabal de que envenenou Thurstan.
   - E continuaramos sem saber quem golpeou o bispo na cabea e o fez ingerir beladona - completara Anselme.
   - No pode ter sido Crispin - afirmara Walter.
   - Ele e eu estvamos no salo na hora do crime vil... Graas em parte a Rob, Simon imaginava quem poderia ser o responsvel pelo segundo ataque. O problema era
que tinha ainda menos provas contra Odeline do que contra Crispin. Impossvel acusar a irm de Thurstan de assassinato com base no relato de um ladro sobre uma
escritura desaparecida. Talvez, se vasculhasse o quarto dela, encontrasse uma referncia  tal escritura. Ou, com sorte, o frasco com beladona. O detalhe era que
estava sendo vigiado. Bardolf e outro sujeito seguiram a ele e Linnet desde o boticrio at a catedral.
   Bolas, nunca precisara tanto da ajuda dos amigos quanto agora. No podia culpar Guy por ter partido ao encontro de lorde Edmund, mas Nicholas...
   Mais uma vez, Simon amaldioou a falta de compostura de Nick. Com uma semana de volta  Inglaterra, o tratante sedutor j retomara os velhos hbitos concupiscentes.
Sem dvida, concentrado em desfrutar a. ltima conquista, nem lhe passava pela cabea que o amigo poderia estar precisando de ajuda ou preocupado com sua ausncia.
   De repente, Simon teve uma inspirao. Deveria preocupar-se com Nick? Tratava-se de um namorador incorrigvel, certamente, mas nunca passara tanto tempo sem dar
notcias. Cus, Nick estava desaparecido havia quatro dias! Apreensivo, decidiu pedir a Warin que mandasse algum procurar Nicholas, assim que a missa terminasse.
   - Amm - replicou a multido, em conjunto, levantando-se aliviada. Muitos faziam caretas, esticando msculos entorpecidos e massageando os joelhos doloridos ao
deixar a catedral.
   - E agora? - indagou Simon a Linnet, protegendo-a da presso dos fiis.
   - Haver comida e bebida em Guildhall e no quarteiro do mercado - sussurrou ela.
   Simon assentiu, percebendo que Linnet relutava em ir tanto quanto ele. Embora fosse costume brindar aos que partiam, preocupava-se com os vivos. Mais especificamente,
em proteger Linnet.
   - Vamos voltar ao boticrio e trocar idias sobre o que aconteceu - sugeriu.
   - Fala do roubo do livro de registros?
   Simon pensava em tudo o que descobrira por meio da velha Nelda e no acnito encontrado no ba de Crispin. Entre tratar dos empregados machucados de Linnet e preparar-se
para o funeral, tinham tido pouco tempo.
   - Imagina por que os ladres quereriam isso?
   - No - respondeu Linnet, prontamente.
   Prontamente demais.
   Simon fitou-a no rosto plido, intrigado com o aparente descaso dela quanto ao incidente. Apesar dos poucos dias de convivncia, sabia que ela era tenaz como
uma raposa quando se tratava de solucionar um mistrio. No entanto, agora demonstrava desinteresse quanto ao motivo do roubo. Ou talvez j o conhecesse.
   Estaria Linnet escondendo-lhe algo?
   A possibilidade o perturbava profundamente. Pensar que Linnet, em quem passara a confiar, poderia estar lhe mentindo o corroa como cido. Mas no era hora nem
lugar para pression-la.
   - Vamos planejar o que dizer a Crispin.
   Linnet estacou no corredor, os olhos fechados. Quando os reabriu, expressava puro pnico.
   - Ele vai nos interrogar?
   - Com certeza.
   - Entendo... - Linnet contemplou o caixo de Thurstan. Os padres, monges e estudantes o haviam cercado para uma ltima prece antes que fosse sepultado. - O arquidicono
Crispin j est convencido de que sou culpada.
   - No importa, pois ele no tem provas contra voc.
   Um dos homens prximos ao caixo ergueu o rosto. Era Jevan le Coyte, o olhar to fulminante quanto o de Crispin pouco antes. No olhava para Linnet, mas para
Simon. Viu que este tambm o fitava, no entanto, em vez de baixar o rosto, contraiu a boca, numa expresso malvola a ponto de causar arrepios.
   A vida obrigara Simon a acostumar-se ao que os outros pensavam dele, mas o dio de Jevan ultrapassava qualquer sentimento que j houvesse despertado antes. Curioso
que um jovem com quem se encontrara apenas uma vez o detestasse tanto. A menos que...
   E se Jevan soubesse que ele era filho de Thurstan? E se Nelda estivesse certa e Thurstan houvesse mesmo legado algo ao filho ilegtimo? Algo que se achava mencionado
na tal escritura desaparecida... Onde estaria esse documento? Odeline no o tinha. E no devia estar nos aposentos de Thurstan, pois ela com certeza o procurara
l antes de mandar Hamel vasculhar a loja de Linnet.
   - Um homem determinado como o arquidicono pode dispor-se a deturpar a verdade para atingir seus objetivos - considerou Linnet.
   Simon fitou-a angustiado. Teria que tratar da escritura e de Jevan mais tarde. A segurana de Linnet era prioritria.
   - No se aflija. O proco Walter e irmo Anselme permanecero firmes em sua defesa. E eu no permitirei que nenhum mal a atinja, eu lhe juro. - Enlaando.a pela
cintura, conduziu-a ao ar livre.
   A tempestade cessara enquanto se dirigiam descarregava sua fria, e agora o sol espiava por entre as nuvens em disperso.
   - Tudo est com um cheiro e uma aparncia to frescos - comentou Linnet, enquanto seguiam ao porto. - Se ao menos a chuva pudesse levar embora todos os problemas
e nos dar um recomeo...
   O tom pungente comoveu Simon ainda mais do que as palavras.
   - Creio que j recomeamos - opinou, torno, pensando na noite anterior.
   Linnet sorriu pela primeira vez naquele dia, um milagre quase to grande quanto o ressurgir do sol.
   -  verdade.
   Sob o sorriso, ainda transparecia a vulnerabilidade. Simon segurou-a pela cintura, lembrando:
   - Drusa e seus pacientes devem estar esperando por ns na loja. - Mesmo abalada com a violncia sofrida, a velha criada oferecera-se para cuidar dos soldados
e de Aiken, todos feridos. - Ainda tenho meu quarto l na hospedaria. L teremos mais privacidade para conversar...
   - Conversar? - Linnet ergueu a sobrancelha, sorrindo marota agora.
   Pela primeira vez em muito tempo, Simon sentiu o rosto arder.
   - Sim, conversar - confirmou.
   - Est bem - concordou Linnet.

   Uma hora a ss com Simon.
   Linnet agarrou-se  idia como uma alma perdida avistando uma luz ao final de um tnel escuro. Ele fora sua ncora durante todo o longo e lgubre funeral.
   Aterrorizada sob as crticas carregadas de dio do arquidicono Crispin, fora nele que se apoiara, extraindo foras de seu corpo musculoso, permitindo que seu
calor lhe aquecesse o corpo enregelado assim como seu amor lhe restaurara a esperana no corao.
   - Chegamos - anunciou Simon.
   Linnet ergueu o rosto, surpresa por no se lembrar de ter percorrido o caminho at a hospedaria. O estabelecimento estava fechado, pois Elinore, Warin e os empregados
deviam estar no evento de despedida ao bispo.
   Simon tentou abrir a porta lateral e praguejou.
   - Devia ter imaginado que estaria trancada.
   Linnet tirou uma chave do cinto.
   - Elinore deu-me est cpia quando papai morreu, para o caso de eu precisar de ajuda.
   Tensa, adentrou a hospedaria escura e silenciosa e subiu a escada. Nem o calor da mo de Simon em sua cintura era capaz de relaxar-lhe os msculos tensos. Lembravam
uma corda esticada, feixes de nervos em tenso mxima. Em parte, devia-se ao cansao,  angstia dos ltimos dias,  incerteza das horas seguintes; e em parte, ao
medo das perguntas que Simon lhe faria. Percebera seu ceticismo ao lhe afirmar que no imaginava por que Hamel quereria o livro de registros do boticrio. Deveria
mentir para ele, ou confiar-lhe suas suspeitas acerca de Thurstan?
   Simon deteve-se no meio do corredor.
   - Espere um pouco aqui - sussurrou.
   Sem fazer nenhum barulho, ele avanou at a porta seguinte. Pronto para sacar a espada, destrancou a porta de carvalho, abriu-a e entrou no cmodo. Aps segundos
que pareceram uma eternidade, ele reapareceu e chamou-a.
   Linnet aterrorizou-se com a possibilidade de um novo ataque.
   - Achou que podia haver algum aqui?
   - Precauo nunca  demais - replicou Simon.
   Em seus olhos transpareciam os fantasmas de dezenas de eventos perigosos, batalhas e misses que o moldaram em verdadeiro cavaleiro, que olhava por si e por aqueles
que tomava sob sua proteo.
   Linnet achegou-se, abraou-o pela cintura e enterrou o rosto em seu peito. ficou apreensivo.
   - Linnet, temos muito que conversar...
   - Preciso disto - murmurou ela, sentindo o corao dele saltar junto a seu ouvido. Ele tambm precisava recuperar o flego antes de retomarem a luta.
   - Precisamos conversar - repetiu Simon, com determinao. - Voc est escondendo alguma coisa de mim.
   O beb, foi o primeiro pensamento de Linnet, a alma contrada de dor. No, no podia contar-lhe sobre a criana. Estava feito. O beb tinha um lar feliz, vivia
livre de qualquer estigma. Mesmo que conseguisse faz-lo compreender por que abrira mo da filha de ambos, havia outros perigos. Anos antes, admirara-o de longe,
sem saber que tipo de pessoa ele era por trs da cortesia e honra que demonstrava. Agora, sabia quo drasticamente a ilegitimidade o marcara. Se soubesse que tinha
uma filha, ele talvez tentasse reclam-la.
   Linnet sentiu-se trespassar por uma dor aguda, como se lhe reabrissem uma ferida que nunca se curava. Ainda se lembrava da noite de tempestade em que dera  luz.
A dor do parto no era nada comparada  angstia de abrir mo da vida que abrigara sob o coraao por nove meses. A criana gerada de seu amor por Simon. Acreditar
que ele estava morto tornara a deciso ainda mais dificil, pois o beb era tudo o que jamais teria de seu amado.
   Colocar o bem-estar da criana, o futuro dela, acima de seus prprios desejos exigira-lhe uma fora sobre-humana. At agora... Pois ocultar de Simon aquele segredo
levava-a ao desespero. Mas faria qualquer coisa, colocaria em perigo sua prpria alma, para salvaguardar o nico presente que dera  filha. Legitimidade.
   - Quero saber o que havia no livro de registros - exigiu Simon.
   O livro de registros. Linnet quase chorou de alvio.
   - J lhe digo... - Abraou-o com mais fora, necessitada de seu calor e apoio.
   - Linnet, no temos tempo para isso. - Mas o corpo dele j cedia  tentao, insinuando-se excitado e enrijecido junto ao ventre dela.
   Ela tambm sentia o calor aumentando em seu ntimo. Corria-lhe como fogo nas veias, fazendo seus seios formigarem, sua feminilidade umedecer-se de desejo. O tempo
que tinham juntos parecia to escasso, medido em gotas preciosas. Se no inqurito daquela tarde a palavra de Crispin prevalecesse, aqueles poucos momentos seriam
tudo o que teriam.
   - Simon, por favor... - Deslizou as mos pelo peito msculo, regozijando-se com o gemido troando atravs dele.
   - Linnet, est exausta. Precisa...
   - De voc. S preciso de voc.
   Enlaando-o pelo pescoo, puxou-lhe a cabea para um beijo estonteante. Como uma chama ardente, a magia os envolveu. Fundiram as bocas, arrancaram as roupas um
do outro. Nus, tombaram sobre a cama estreita.
   A respirao dele destacava-se no quarto silencioso. Seus olhos refletiam uma voracidade que beirava a violncia, mas seus toques eram gentis sobre as costelas
de Linnet, at tomar-lhe os seios nas mos.
   - E eu preciso de voc, Linnet...
   Simon inclinou o rosto e sugou-lhe os mamilos at que ela estivesse cega e surda a tudo, exceto  paixo que ele lhe despertava.
   - Agora - sussurrou ela, pousando a cabea no travesseiro, estendendo os braos para ele.
   - Sim...
   Ele se posicionou sobre ela, o corpo tenso com uma urgncia que espelhava o desespero de Linnet. Deixou escapar uma exclamao ao penetr-la bem devagar. Ela
respondeu com um grito de prazer, enquanto erguia os quadris contra os dele.
   A sensao do calor rgido preenchendo-a, completando-a, acabou com o que restava de suas restries. Fechando as pernas em torno da cintura dele, entregou-se
ao desespero que a estilhaava por dentro.
   - Linnet - grunhiu Simon, surpreso ante aquele abandono selvagem.
   Galante, determinou-se a satisfazer-lhe as necessidades, com investidas profundas e seguras, equivalentes  fome que sentia crescer dentro de ambos. Encaixavam-se
naturalmente, perfeitamente. Fitou-a no rosto corado. Ela tambm o olhava. Seus olhos, obscuros de paixo, refletiam suas prprias feies transtornadas.
   - Eu te amo - declarou Linnet, o corpo tenso,  beira do alto precipcio.
   Simon sentiu o corao agitado, mas, antes que pudesse analisar, a tempestade desabou. Linnet enrijeceu o corpo em torno do dele, exigindo rendio. Ele a acompanhou
de bom grado, grunhindo seu nome enquanto se derramava dentro dela, de corpo e alma.
   Linnet ronronava, aninhada junto ao peito dele, enquanto desciam das alturas.
   Simon rolou para o lado, sempre afagando-lhe as costas, torno, gentil, acalmando-a sem palavras.
   Ela recordou as carcias dele na noite anterior, s vezes pacientes, s vezes afobadas, mas sempre com o cuidado reservado aos cristais. Ele a trataria assim
se soubesse que ela o trara? Estremeceu. Mesmo que conseguissem sobrepujar Crispin, como viveria com aqueles segredos?
   - O que foi? - indagou Simon, os olhos ainda enevoados de paixo.
   - Nada.
   Tudo. Queria chorar.
   Simon franziu o cenho.
   - Eu sabia que no era disso que voc precisava.
   - Era, sim. - Linnet esboou um sorriso. - Isto... voc foi a nica coisa boa que me aconteceu nos ltimos dias.
   Ele se tranqilizou um pouco.
   - Acho que tenho vinho em algum lugar. Vai reanim-la.
   Somente um milagre seria capaz disso. Desejou agarrar-se a Simon quando ele se desvencilhou, mas no se moveu.
   - Temos pouco tempo e muito a fazer.
   Ele se levantou e andou pelo quarto sem se importar com a nudez. De ccoras, revirou uma pilha de roupas, os msculos retesados sob a pele bronzeada de sol.
   Cus, ele era magnfico! Apoiada no cotovelo, Linnet ajeitou o lenol sobre os seios e admirou-o. Era excitante e um tanto humilhante imaginar como um homem to
belo podia desej-la.
   Ele olhou por sobre o ombro.
   - O que foi?
   Ela respondeu com um sorriso, apreciando o curvar dos lbios sensuais que a haviam beijado apaixonadamente. Mais impressionante era a inteligncia transparente
em seus olhos cinza-esverdeados. Aquele era o homem que conquistara seu corao machucado poucos dias antes. S que o corao dele apresentava cicatrizes ainda mais
profundas, e parecia ainda mais fechado.
   Ele no retribura sua declarao de amor. Se o terror nos olhos dele era uma indicao, um longo tempo se passaria antes que ele admitisse que a amava. Se admitisse.
   - Este quarto... est desarrumado demais para um homem organizado e controlado como voc, Simon Blackstone. Alegra-me ver que no  perfeito, afinal.
   - No sou o responsvel por este caos - resmungou ele, reaproximando-se dela. - Meu quarto foi vasculhado.
   - Por Hamel?
   - Provavelmente.
   - Est faltando alguma coisa?
   Simon afastou a cabeleira negra do rosto, sentou-se na cama e estendeu-lhe um odre de vinho.
   - Eu tinha poucas coisas de. valor aqui. Linnet franziu o cenho.
   - No tem um copo?
   Ele negou. Com um suspiro, ela destampou o odre e espiou atravs do gargalo estreito.
   - Espere! - Simon segurou o recipiente a tempo de impedir que o lquido sasse. - Assim, vai derramar.
   - Nunca bebi de um odre antes.
   - Eu a ajudo. - Simon colocou o brao em torno dela e aproximou o odre de seus lbios. - Incline a cabea para trs e beba.
   Linnet obedeceu, porm abriu demais a boca. Simon riu.
   - Pode fechar um pouco, ou vai se engasgar. Ela obedeceu e ele encostou a boca do odre em seus lbios, despejando um pouco de vinho em sua boca. Linnet tomou
a
bebida e engasgou-se. Era um vinho forte, explodia como fogo em seu estmago. Ela fez uma careta.
   Sorrindo, Simon inclinou a cabea para trs e despejou uma boa quantidade da bebida na prpria boca, sem derramar uma gota.
   - Satisfeito consigo mesmo, no? - ralhou ela.
   - Sim. - Os olhos dele iluminavam-se. - E com voce. Linnet sentiu o rubor cobrir-lhe as faces.
   - Est com vergonha do que fizemos? - questionou Simon, apreensivo.
   - No - garantiu Linnet, franca. -  que sou inexperiente e voc  to... bonito. - Fez um gesto para o corpo dele, nu, magnfico  luz do sol que invadia o quarto.
   - Voc  que  linda. - Ele se inclinou e beijou-a no ombro, sussurrando: - Gostaria de mant-la aqui, nua em minha cama, at que no sentisse nenhuma timidez,
mas receio termos muito a fazer.
   Pensando s no dever agora, Simon tampou o odre, jogou-o de lado e comeou a recolher as roupas de ambos.
   Linnet no estava nem um pouco ansiosa para falar do livro de registros, mas se sentiria menos vulnervel vestida. Enterneceu-se ao ver Simon dar-lhe as costas
enquanto ela recolocava a camisa e o vestido. Ele s se voltou quando Lhe pediu para amarrar os cordes.
   - Est escondendo algo de mim - acusou Simon, ao apertar o ltimo lao.
   Linnet sobressaltou-se, mal resistindo ao impulso de afastar-se dele, esconder o rosto de seu olhar perspicaz.
   - Acho que Hamel queria meu livro de registros porque nele consta que forneci acnito a Thurstan.
   Simon arregalou os olhos.
   - O qu?
   Linnet retraiu-se.
   - No precisa gritar.
   Ele tinha o rosto rubro.
   - No preciso?!
   - No o envenenei, se  o que est pensando.
   - Claro que no estou pensando isso. Droga... - Simon enterrou as duas mos nos cabelos, num esforo para se acalmar. - Mas por que no me contou isso antes?
   Linnet abraou o prprio corpo trmulo.
   - Eu...
   - Calma. - Ele a conduziu  nica cadeira no cmodo e recostou-se na mesa ao lado. - No queria assust-la, mas  que... Como pde ocultar de mim uma informao
to importante?
   - Estava com medo - sussurrou Linnet. Ento, vendo-o alarmado, explicou: - No de ser acusada, mas de que pensassem que Thurstan havia se envenenado.
   - Se envenenado?! - repetiu Simon, incrdulo.
   Linnet confirmou e contou como Thurstan ficara deprimido com a notcia de que os cruzados de Durleigh haviam todos perecido, incluindo Simon.
   - Pareceu perder o interesse pela vida. Somente h poucos dias ocorreu-me que Thurstan provavelmente estava sendo envenenado. Durante uma pesquisa sobre tratamentos,
descobri as anotaes de meu bisav sobre um caso de envenenamento. Os sintomas eram to parecidos com os de Thurstan que temi que ele no estivesse com uma doena
qualquer. Lembrei-me ento do acnito que Thurstan comprara de mim e imaginei que ele pudesse estar se matando. Por isso fui l naquela noite fatdica... para question-lo
e implorar que desistisse da idia louca.
   - O que foi que ele respondeu?
   - No cheguei a tocar no assunto. Ele estava to arrasado que nem respondia s minhas perguntas.
   - Por que ele estava arrasado?
   - Agora sei que era porque voc havia voltado. - Linnet esforou-se por recordar detalhes perdidos entre o choque do reaparecimento de Simon e o da morte de Thurstan.
- Mas ele estava tambm ansioso com relao a alguma coisa. Comentou que tudo mudara. Que tinha algo a fazer. Uma alterao. - Arregalou os olhos. - Estaria se referindo
 escritura? - Pegou no brao de Simon, a respirao entrecortada. - Suponha que ele lhe tivesse legado uma propriedade. J~2n-to, voc morreu e ele a destinou a
outra pessoa.
   - Ao convento de Blackstone, com o resto da propriedade?
   Linnet indignou-se.
   - A abadessa Catherine no faria mal ao irmo.
   - Conhece-a bem?
   - Claro, morei l quando... - Linnet mordeu a lngua. No podia revelar por que hospedara-se no convento.
   - E Odeline? Ele teria deixado dinheiro ou uma casa para ela?
   -  possvel. Thurstan tinha pouco respeito por ela e seu filho Jevan, mas apiedava-se deles.
   Simon rangeu? os dentes.
   - Se encontrssemos a escritura, poderamos provar que eles tinham motivo para desejar a morte do bispo.
   A frustrao crescia em seu ntimo, somando-se  raiva e ao medo. Pois, apesar de toda a sua fora, treinamento e bravura em combate, no poderia impedir que
Linnet fosse indiciada pelo assassinato de Thurstan.
   - Vamos fugir de Durleigh - sugeriu, de repente.
   - Fugir? - Linnet chegou a sentir esperana, mas desanimou-se. - Mesmo que aqui no fosse meu lar, no poderia fugir.
   Maldita honra, pensou Simon.
   - E melhor nos aprontarmos, ento. - E tratou de preparar-se para a luta mais importante de sua vida. - Prometo que no permitirei que lhe faam mal.
   Ela sorriu como se acreditasse que ele fosse mesmo capaz disso.
   Ele s gostaria de saber como cumprir a promessa.

   - Consegui o livro de registros da loja de Linnet - sussurrou Hamel, vindo para o lado de Odeline.
   - Excelente. - Ela foi diminuindo o passo at chegarem ao fim da fila de carpideiras que serpenteava rumo a Guildhall. - E a escritura?
   - No deu tempo.
   Odeline rangeu os dentes.
   - Por qu?
   Hamel alisou para trs o cabelo preto seboso.
   - Simon voltou. Matou Ellis e o homem que voc contratou.
   - Ento, eles no procuraram - resmungou Odeline.
   - Ora, Ranulf teve sorte em escapar com o livro de registros!
   Idiota! Odeline enterrava as unhas nas palmas das mos. Explodir em cima de Hamel no adiantaria nada, alm de retrat-la como mulher violenta.
   - Melhor do que nada - admitiu.
   Hamel suspirou sonoramente.
   - Ainda no acredito que Linnet mataria o bispo.
   Nem Odeline, mas era imperativo que se encontrasse um culpado.
   - O arquidicono tem certeza de que foi ela - comentou, vaga. - Simon deve portar a escritura consigo.
   - Nesse caso, s a conseguiremos quando ele estiver morto.
   Odeline olhou-o por entre os clios.
   - Precisamente...
   - Acontece que ele  duro de matar - resmungou Hamel. - E no posso simplesmente ir at l e enterrar um punhal em seu corao.
   - No, mas ele gosta de Linnet. Quando ela for acusada de assassinato, com certeza tentar proteg-la. - Odeline sorriu fracamente. - Afinal,  um guerreiro,
um
homem de luta. Se conseguir induzi-lo a um confronto, ter uma desculpa para elimin-lo.
   - Tem razo. - Hamel sorriu, apreciando a idia. - Eu o venceria num combate.
   - Tenho certeza de que sim - incentivou Odeline. Seu amante pesava mais do que Simon e sem dvida conhecia golpes baixos de que um cavaleiro cruzado jamais lanaria
mo. No obstante, ofereceria mais um prmio. - Consiga a escritura para mim, Hamel, e o desposarei.
   Os olhos castanhos de Hamel cintilaram.
   - Odeline...
   Ela temeu que ele a beijasse ali, no meio da rua cheia de gente.
   - V na frente, Hamel, preciso falar com Jevan.
   Outro homem dificil de colocar na linha. S que seu filho no era to fcil de despachar. Fora ele quem insistira em mandar Rob ajudar os homens de Hamel na busca
pela escritura. Agora Rob estava morto, e ainda no haviam conseguido o documento. Jevan ti- cana furioso. Ele vinha se mostrando impossvel de lidar, o humor variando
bruscamente entre a petulncia e a violncia. As vezes, surpreendia-o com aquela expresso estranha no olhar e imaginava...
   No! Descartou a idia antes mesmo de complet-la. Jevan ainda era seu menino especial, adorvel. Sentia-se frustrado, nada mais. Thurstan podia ter concedido
a propriedade a Jevan incondicionalmente. Era culpa de Thurstan que Jevan estivesse se comportando de maneira to estranha.
   Crente nisso, seguiu para Guildhall no cortejo de Thurstan.


   CAPTULO 15

   - Nelda sabia que voc e eu estivemos juntos na noite da festa dos cruzados? - espantou-se Linnet.
   Simon acabara de contar-lhe tudo o que descobrira com a curandeira, enquanto se preparavam para ir  catedral.
   - Gaba-se de conhecer esse e muitos outros segredos
   -  - replicou Simon, ajustando o cinto da espada.
   Linnet olhava-o aterrorizada. O que mais a velha Nelda saberia? Lembrou-se do dia em que confessara  me estar grvida. Ela se mostrara triste, mas nQ surpresa,
pois j desconfiava de seu estado. Teria Nelda percebido tambm? Tratava-se, afinal, de um parteira habilidosa, treinada para detectar sinais como pele reluzente
e cintura engrossada. E se comentasse algo?
   -  melhor nos pormos a caminho - sugeriu Simon.
   Linnet colocou a mo sobre a de Simon.
   - Acha que Nelda estar no tribunal eclesistico?
   - No vejo por qu. Crispin lhe teria pouca serventia.
   - Mas, se ela estiver l e revelar que nos viu juntos naquela noite, vamos contradiz-la?
   - Claro que no - determinou Simon. - A mentira sempre piora a situao. No se esquea de que a salvei de Hamel. Se ele se lembrar do evento, nossa mentira ser
exposta, e da a concluir que matamos Thurstan ser s um passo.
   - Tem razo...
   Com o corao tumultuado, Linnet o acompanhou escada abaixo. Naquela manh, antes de sair para o enterro, pensara em destruir o dirio de Thurstan antes que seu
segredo, e dezenas de outros, cassem em mos erradas. Mas Thurstan lhe entregara o volume pedindo-lhe, ou melhor, implorando-lhe, que o guardasse em segurana.
Por que ele lhe confiara tamanho fardo?
   Sob um chuvisco, a nvoa esgueirara-se da margem do rio at o terreno da catedral. O palcio do bispo parecia erguer-se indistinto tal qual um drago primitivo,
fitando-a com olhos escuros, malevolentes.
   - Ainda podemos fugir - lembrou Simon, ao sentir Linnet trmula.
   Era tentador, mas ela se recusava. Endireitou os ombros.
   - No. Fugir no resolveria nada, e pareceria uma confisso de culpa.
   Ele a beijou na testa.
   - Voc  muito corajosa.
   - No  difcil, tendo um cavaleiro como voc a meu lado.
   - Juro proteg-la, mileide.
   Devia ser o mais prximo de uma declarao de amor de que Simon era capaz, concluiu Linnet.
   - Vamos entrar, ento.
   Irmo Gerard abriu a porta.
   - Por aqui.
   Sem alivi-los das capas midas, seguiu na frente at o salo, abrindo as portas com tanta violncia que estas se chocaram contra a parede. O som ecoou cavernoso,
lembrando um trovo, chamando a ateno dos presentes.
   Linnet deteve-se  porta, surpresa ao ver fileiras de bancos enchendo o salo. Ocupavam-nos no s padres com expresses hostis, mas muita gente do povo, incluindo
Drusa e Aiken. O prefeito Edric Woolmonger ocupava um lugar na fileira da frente, enquanto Nelda e Olf mantinham-se no fundo, isolados, como sempre.
   - No entendo - sussurrou Linnet a Simon. - Por que esto todos aqui? Pediu-lhes que viessem me apoiar?
   Simon negou.
   - Devem ter sido convocados como testemunhas durante o cortejo fnebre.
   No fundo do salo estava o arquidicono, atrs de uma mesa entalhada, olhando-os como um gato magro diante de dois camundongos. Tinha  direita o srio proco
Walter e, atrs, irmo Anselme. No banco da frente, Odeline e Jevan observavam tudo com a mesma hostilidade. Hamel e Bardolf mantinham-se junto  parede  esquerda
da porta como aranhas prontas para dar o bote.
   Linnet respirou fundo e, de cabea erguida, percorreu o corredor entre os bancos, grata pela mo de Simon em seu cotovelo.
   - De p aqui - ordenou Gerard, apontando para um lugar bem  frente do arquidicono.
   Simon olhou-o feroz. A seguir, pegou uma cadeira e colocou-a junto ao extremo da mesa, de modo que Linnet pudesse ver tanto o acusador quanto as testemunhas.
   - Obrigada.
   Linnet sentou-se com a dignidade que lhe permitiam as pernas trmulas e olhou para Anselme e Walter. Ambos fitavam-na preocupados, o que em nada contribuiu para
aliviar seus temores.
   - Estamos aqui para investigar o assassinato do bispo Thurstan - comeou Crispin, em alto e bom som. - A alma do bispo.
   Ergueu um pesado clice de prata ao cu. O proco Walter, o nico que tambm tinha vinho, fez um brinde silencioso e o bebeu.
   Crispin sorveu a bebida, enxugou os lbios com um guardanapo de linho e estendeu-o sobre o clice. Ento, lanou a Linnet um olhar de triunfo to maligno que
ela se abalou profundamente. No fosse a mo de Simon, quente e forte em seu ombro, teria se sobressaltado. Qual seria a inteno de Crispin?
   - Irmo Anselme apurou que nosso amado bispo estava sendo envenenado - declarou o arquidicono  assemblia. - O senhor confirma?
   Anselme destacou-se das sombras na outra extremidade da mesa.
   - Sim, algum vinha lhe ministrando acnito nos ltimos meses. Em pequenas quantidades. Ele no morreu de imediato, mas foi se enfraquecendo, sofrendo muita dor...
   - No precisa dar os detalhes srdidos - cortou Crispin, empalidecendo. - Tenha respeito pelos sentimentos de lady Odeline e do jovem Jevan.
   - Ele morreu aos poucos, de forma lenta e dolorosa - resumiu Anselme.
   Com um nervo agitado contorcendo-lhe as feies, Crispin concentrou em Linnet todo o seu dio.
   - Eu a acuso, Linnet Especer, deste crime horrendo! Os espectadores reagiram chocados, enquanto Linnet se enrijecia.
   - No o matei. ramos amigos.
   - Eram amantes, quer dizer - acusou Crispin.
   Linnet respirou fundo, procurando manter a calma.
   - No, no ramos.
   - Que provas tem a oferecer? - questionou Simon.
   Crispin olhou-o raivoso e estalou os dedos. Gerard apressou-se em colocar um livro de registros diante do arquidicono.
   O livro de registros do boticrio de Linnet.
   - Est anotado aqui, com a letra dela, que foi fornecido acnito ao bispo Thurstan em fevereiro - declarou Crispin.
   Simon desdenhou.
   - Ela no teria registrado o fato, para quem quisesse ler, se estivesse mesmo envenenando-o. Na verdade, o bispo comprou o acnito para aplicar em seu jardim
de
rosas, como o jardineiro Olf poder confirmar.
   - Olf confirma! - gritou Nelda, l do fundo.
   - Ora! - Crispin desprezou-os. - Quem aceitaria a palavra de um retardado...
   - Meu Olf tem raciocnio lento, mas sabe distinguir o certo do errado - afirmou Nelda. - O bispo entregou-lhe acnito, sim.
   - Eu estava presente na hora - declarou irmo Anselme. - At instru o rapaz quanto ao manuseio do veneno.
   - E os roedores foram eliminados? - inquiriu Crispin.
   - Infelizmente, no. Por que algum roubou o acnito do depsito de Olf.
   Crispin agarrou-se  borda da mesa, os dedos brancos.
   - Ela fez isso, para matar Thurstan!
   - Por que Linnet roubaria acnito se o tinha na loja? - questionou Simon.
   Crispin ficou sem resposta.
   Simon aproveitou para lanar seu primeiro trunfo.
   - Eu encontrei o acnito roubado, mas no entre os pertences da senhora Linnet. No  mesmo, proco Walter?
   Era a prova na qual Simon, Walter e Anselme vinham trabalhando, concluiu Linnet, enchendo-se de esperana.
   O proco levantou-se. Estava plido ao extremo, suando em profuso. Chegou a abrir a boca, mas o nico som que emitiu foi de agonia.
   - Walter! - Anselme correu at o proco, amparando-o antes que tombasse na cadeira, contorcendo-se todo.
   O pandemnio tomou conta do tribunal, com homens e mulheres gritando e Anselme instruindo aflito os assistentes.
   - Veneno! - gritou Crispin. - O proco foi envenenado!
   Horrorizado, Simon observou Anselme livrar o corpo do proco de tudo o que ele ingerira. Aps tomar um tnico, Walter foi carregado para fora do tribunal, ainda
agitando-se e gemendo. Levava consigo a maior esperana de salvao de Linnet.
   Simon puxou Anselme pela manga antes que sasse do salo.
   - O que foi que Walter encontrou no jardim?
   - Nada. - Anselme estava plido como cera. - A terra foi revolvida, mas no havia nada l.
   Simon sentiu o corao falhar.
   - Walter foi envenenado?
   Anselme confirmou.
   - Com acnito, acho.
   - Ele vai sobreviver? - indagou Linnet, num sussurro agoniado.
   Anselme suspirou.
   - No sei.
   Crispin envenenara o proco. Simon tinha certeza disso, s no entendia por qu. Acusaria Linnet desse crime tambm?
   Se o arquidicono antes se mostrara zombeteiro, agora fulgurava em triunfo.
   - Por mais que me seja doloroso prosseguir apesar do colapso de nosso irmo,  preciso estabelecer o fato. - Olhou para Linnet. - Eu a acuso da tentativa de assassinato
do irmo proco!
   A assemblia voltou a se agitar, metade acreditando, metade duvidando.
   - Ela no  culpada! - rugiu Simon. - A pessoa que roubou o acnito do depsito de Olf deixou no local um retalhinho da roupa... de um hbito como o seu, arquidicono.
   Crispin alarmou-se.
   - Est me acusando?
   - Basta compararmos as amostras de tecido - sugeriu Simon.
   - E como isso provaria que tentei matar o proco Walter?
   - Quem quer que tenha tentado elimin-lo temia as provas que ele tivesse a apresentar.
   Crispin desdenhou.
   - Voc diria qualquer coisa para defender esta mulher, pois  sua amante!
   - Primeiro, acusa-a de ter sido amante de Thurstan, agora, de ser minha - resumiu Simon, condescendente. - Creio que anda com a mente poluda, reverendo padre.
   Crispin saltou da cadeira, as narinas infladas.
   - Minha mente prende-se  verdade! - Sorriu sarcstico. - Segundo uma testemunha, os dois dormiram juntos anos atrs, na noite que antecedeu a partida dos cruzados
de Durleigh. - Encarou Linnet, transtornado de dio. - Ao saber que o senhor em breve estaria de volta, ela tratou de pr fim a seu caso ilcito com o bispo. Ante
a resistncia dele, matou-o.
   -  mentira! - gritou Linnet, levantando-se.
   - Ningum sabia que eu tinha sobrevivido - afirmou Simon.
   - E o que diz, mas os fatos provam o contrrio. - Crispin dirigiu-se  assemblia. - Drusa, na noite em que nosso bispo morreu, sua patroa chegou tarde  loja
em companhia deste cavaleiro?
   - Sim - admitiu a velha criada. - Mas...
   - Descreva-nos o estado dela - ordenou Crispin.
   - Bem, estava um pouco desarranjada, pois cara no quintal vindo da hospedaria - explicou Drusa.
   - Ou deitara-se na relva com sir Simon? - sugeriu Crispin.
   Linnet, indignada, e Simon, furioso, tiveram que ouvir calados o prosseguimento do inqurito. Um por um, Crispin interrogou os que viram a boticria naquela noite,
Warin, Elinore e Aiken, sempre distorcendo eventos corriqueiros de modo a torn-los suspeitos.
   Mas como o arquidicono podia saber o que se passara na hospedaria?, cogitou Linnet.
   - Ela deixou a hospedaria s pressas ao saber que o delegado Hamel encontrava-se na sala - informou Tillyl ao lado de Hamel junto  parede.
   - O delegado vinha me abordando de maneira inconveniente - justificou Linnet.
   - Ah, ? - Crispin uniu as mos em tringulo. - Parece que todos os homens de Durleigh anseiam por enfiar-se sob suas saias...
   Os espectadores reagiram chocados.
   - Mas s meu irmo e sir Simon conseguiram, at agora - observou lady Odeline, cida.
   Linnet sentiu um calafrio na espinha. L estava a autora das acusaes proferidas por Crispin. Mas por que aquela dama lhe queria mal?
   - No  pecado pai e filho partilharem a mesma mulher? - questionou Odeline, desprezvel.
   A assemblia entreolhou-se pasma.
   - Pai e filho?! - Superado o choque inicial, Crispin lanou a Simon um olhar enQjado. - Voc..  filho do bispo?
   Simon s respondeu aps longos segundos.
   - Ele nunca me assumiu.
   -  verdade - confirmou Odeline. - Uma mancha no nome de nossa famlia que perseguiu meu pai at o tmulo.
   Enquanto o arquidicono tentava impor silncio  assemblia em polvorosa, Linnet comentou com Simon:
   - Ela fez isso para desviar as suspeitas que recaam sobre Crispin.
   - Exatamente. S que, revelando o segredo, ela e o filho caem em vergonha...
   - A escritura - lembrou Linnet. - E se Thurstan legou alguma propriedade a Jevan aps a notcia de que voc havia morrido?
   Um brilho de esperana iluminou os olhos de Simon.
   - Quando ser que Jevan soube que eu estava de volta?
   Linnet apertou-lhe a mo.
   - Se foi na noite em que voc chegou...
   - Talvez tenhamos encontrado o assassino - completou ele. - Rob FitzHugh sabia que eu estava vivo, pois reconheceu-me na estrada. E ele voltou para Durleigh.
Mas
por que contaria isso a Jevan, a menos que...
   - Eles mataram o bispo a fim de ocultar seu crime incestuoso! - gritou Crispin, calando a platia.
   Simon levantou a cabea e firmou a voz.
   - Se procuram algum que guardasse rancor do bispo, devem considerar o arquidicono. Foi no ba dele que encontrei indcios de acnito e foi a ele que vi enterrando
o pote de veneno no...
   - Mentira! Filhos do demnio! - Colrico, Crispin contornou a mesa. - Prendam-nos!
   Hamel e Bardolf afastaram-se da parede j desembainhando a espada. Mas Simon foi mais rpido e encostou a ponta de sua lmina no peito ossudo do arquidicono.
   - Ningum se mexa, ou ele pagar - ameaou.
   Oliver torcia as mos, aflito.
   - Meu filho, essa no  a melhor maneira...
   -  a nica maneira de conseguirmos uma audincia justa - explicou Simon.
   - Audincia justa? - bufou Crispin. - Acaba de nos provar que a violncia est em seu sangue.
   - Assim como a traio est no seu - replicou Simon, controlado. - Ningum sai daqui enquanto no soubermos a verdade.
   Crispin estreitou o olhar.
   - No pode provar sua inocncia!
   - Nem voc! Sendo assim, s h uma soluo.
   Linnet apavorou-se.
   - Simon, no que est pensando?
   - Num julgamento por combate - esclareceu ele, suscitando mais alvoroo entre a assemblia. - E nosso direito sermos julgados por Deus.
   Crispn apavorou-se.
   - Acontece que no sou guerreiro!
   - Eu o defenderei. - Hamel adiantou-se, o rosto afogueado com sede de sangue.
   - De acordo - disse Simon.
   - No deve arriscar sua vida para me salvar - declamou Linnet, desesperada.
   - E meu desejo - afirmou Simon, cheio de ternura, antes de encarar Crispin. - E quando eu sair vencedor, voc se entregar para ser punido.
   Sem argumentos, Crispin calou-se.
   Na primeira fila, Odeline e Jevan assistiam  cena satisfeitos.
   - Era exatamente o que queriam - sussurrou Linnet a Simon.
   - Sim, mas eu tambm quis - tranqilizou ele.
   Crispin recobrara a compostura.
   - Seja feita a vontade de Deus - finalizou.
   Hamel tratou do lado prtico da questo:
   - O combate se dar no campo de treinamento, amanh, ao meio-dia. - Segurou Linnet pelo brao. - Nesse nterim, a acusada permanecer trancada na cela do poro
de minha casa.
   Linnet gritou e tentou se libertar.
   Simon partiu em sua defesa.
   - No!
   Crispin colocou-se em seu caminho.
   -  preciso mesmo cautela, delegado, pois podem querer fugir durante a noite.
   - O delegado  bem capaz de tortur-la, ou fazer-lhe coisa pior! - alertou Simon.
   - Tenho certeza de que Hamel a tratar com o respeito que merece - replicou o arquidicono.
   Simon ergueu a espada para o delegado.
   - Pulha!
   - Podemos decidir aqui e agora - provocou Hamel.
   - O que se passa aqui? - questionou uma voz imperiosa,  porta do salo.
   Linnet conhecia aquela voz. Voltando-se, teve a mais bem-vinda das vises.
   A reverenda madre Catherine de Lyndhurst, abadessa de Blackstone, estava  soleira, rgia como uma monarca em vestes brancas e vu sobre a cabea.
   - Reverenda madre! - exclamou Linnet. - Obrigada por vir!
   - Linnet? O que se passa aqui? - A abadessa percorreu o corredor entre os bancos. A poucos metros da mesa principal, estacou. - Simon?! Simon de Blackstone?
   Simon inclinou a cabea, arrepiado. Baixa e magra, a abadessa Catherine era uma rplica feminina do bispo Thurstan, da boca contrada aos frios olhos cinzentos.
Antipatizou com ela  primeira vista.
   - Simon! - A abadessa avanou, o rosto coberto de lgrimas. - Que maravilha!
   Ele grunhiu e desviou o rosto, ignorando a mgoa da abadessa. Ela acompanhara seu nascimento... e o de incontveis outros bastardos. Colocara-o no mundo para
se criar sozinho, envergonhado, sem amor. Sim, odiava-a por isso!
   - Precisamos de outro lugar para confinar Linnet - declarou, frio.
   - Confinar? - Catherine estava confusa. - Mas por que ela est sendo confinada?
   Crispin, Hamel e Odeline trataram de contar logo sua verso do assassinato do bispo. Quando Linnet tentou falar, impediram-na.
   Mas Simon imps-se.
   - No h um pingo de verdade nessa histria. Pela manh, o delegado Hamel e eu nos enfrentaremos em combate. Deus decidir.
   - At l, Linnet Especer ficar sob minha custdia - decretou Hamel.
   Catherine imps sua autoridade novamente.
   - No, Linnet no ser trancafiada numa cela qualquer, para ser guardada por homens. Permanecera aqui, vigiada por minhas freiras.
   Hamel, Crispin e Odeline protestaram com veemncia, mas a abadessa no cedeu um milmetro.
   - No tem autoridade aqui! - rosnou Crispin.
   - Nem voc, mas entendo que enterrou meu irmo sem esperar por mim, ou pelo arcebispo.
   Crispin enrubesceu.
   -  que...
   - Nenhuma desculpa me parecer aceitvel.
   Com isso, a abadessa ordenou o esvaziamento do salo e comeou a dar instrues para a acomodao dos recm-chegados.
   - Obrigada, reverenda madre - murmurou Linnet.
   - Simon e eu estamos gratos por sua interveno.
   Simon grunhiu. Tinha palavras de gratido entaladas na garganta, mas no as emitiria. Nem por Linnet.


   CAPITULO 16

   - Simon me odeia - lamentou Catherine de Lyndhurst. - Sei que deve ter sido um choque descobrir que era filho de Thurstan, mas no esperava tanta amargura...
   Linnet suspirou e juntou-se  abadessa diante da janela. Horas j se haviam passado desde o confronto no salo. Os moradores e os hspedes do palcio j estavam
mais ou menos acomodados em seus aposentos. No podia dizer o mesmo de seus nervos. S pensava em Simon, alojado na sute do bispo, no andar de baixo. Gostaria de
v-lo, mas Hamel pusera guardas nos corredores com ordens para mant-la confinada at o dia seguinte.
   O quarto de hspedes que lhe fora concedido tinha uma bela vista dos jardins.
   - Se Simon est zangado,  porque sentiu-se abandonado e abusado - explicou, apreciando as rosas s quais Thurstan dedicara todo o amor que no pudera mostrar
ao filho.
   - Mas ele foi espancado pelo casal que Thurstan contratou para cuidar dele quando pequeno? - questionou a abadessa. - Ou por lorde Edmund de Wolfsmount?
   - No, ele diz que no. - Linnet procurou as melhores palavras. -  que, embora parea indiferente e independente, acho que ele sente falta de uma famlia. De
ser amado.
   - Os homens so criaturas to esticas que nao percebemos que suas necessidades no so to diferentes das nossas. - Catherine sorriu. - Ele se mostra bastante
protetor com relao a voc.
   - Sim, ns... nos tornamos ntimos nestes ltimos dias. - Linnet sentiu uma saudade aguda, doce e estranhamente dolorosa. - Eu o amo, reverenda madre, e acho
que
ele gosta de mim. No fosse...
   - O beb? - completou a abadessa.
   Linnet confirmou, chorando.
   - Eu devia contar a ele, mas no consigo.
   - No seria sensato - advertiu Catherine.
   - Mas como viver com essa mentira entre ns? - questionou Linnet, agoniada.
   A abadessa afagou-lhe os cabelos.
   - Durante os meses em que morou no convento, voc se tornou to cara a mim quanto a filha que jamais terei. Quero v-la feliz, e a Simon tambm. Se o preo dessa
felicidade for uma pequena omisso...
   - Pequena omisso!
   - Como Simon reagiria se soubesse que teve uma filha, a qual foi entregue em adoo?
   - Ficaria furioso, frustrado e...
   - Pois ento. E melhor que ele no saiba.
   Linnet convenceu-se, miservel. Queria desesperadamente o amor de Simon, mas no o merecia. E, no dia seguinte, ele arriscaria a vida para salv-la.
   Voltou para junto da lareira. Sobre a banqueta estava o dirio de Thurstan. Pedira a Aiken que o trouxesse, junto com uma muda de roupa.
   - Ora, mas  o livro de oraes de Thurstan - reconheceu Catherine.
   - E mais do que isso. - Linnet contou  abadessa o que encontrara escrito nas pginas. - Estou pensando em queim-lo.
   Catherine passou o dedo pela capa.
   - Ele mesmo o teria destrudo. Mas o entregou a voce. Com algum propsito.
   - Qual seria?
   - No imagino. Talvez a resposta esteja no prprio dirio. Traduziu tudo o que est escrito?
   - No, levaria dias.
   - Pode haver alguma informao que ele desejasse passar adiante. Um trecho para Simon explicando... tudo.
   - O nome da me dele - sugeriu Linnet. - Sabe quem  ela?
   - Sei, mas estou presa ao mesmo juramento que impediu Thurstan de falar nela, enquanto viveu.
   Linnet pegou o volume.
   - Eu poderia entreg-lo a Simon, mas talvez ele no saiba latim.
   E, se soubesse, descobriria seu segredo.
   - Por que no investiga voc mesma? At se distrairia ao longo desta noite difcil. - Linnet concordou.
   - No conseguirei mesmo dormir, pensando no que Simon ir enfrentar amanh.
   - Ele vencer - assegurou Catherine, abraando-a. - No a decepcionar.
   - Eu sei.
   Ao mesmo tempo, no o estaria decepcionando com seu silncio?

   Inquieto como um felino enjaulado, Simon andava em crculos dentro dos limites de sua priso. A noite aproximava-se rpido, adensando as sombras nos cantos, mas
nem se incomodara em acender velas. A penumbra combinava com seu humor. Ironia era terem-no encarcerado nos aposentos do bispo.
   Uma batida na porta arrancou-o dos devaneios.
   - Entre!
   A porta se abriu e irmo Anselme enfiou a cabea calva.
   - Seja bem-vindo. - Simon apressou-se em acender uma vela enquanto o monge entrava. - E Walter? Anselme suspirou, o rosto mais cinzento do que seu hbito.
   - Est vivo, mas ainda inconsciente.
   Simon encheu duas canecas com cerveja.
   - Foi acnito?
   Anselme sentou-se numa das cadeiras defronte  lareira, tomou a bebida e suspirou.
   - Foi.
   Simon acomodou-se na banqueta.
   - Acha que foi Crispin?
   - Provavelmente. Deve ter pensado que Walter tinha alguma prova contra ele, que o vira enterrando o pote de acnito no jardim. Por isso, desenterrou-o de novo
e envenenou o proco.
   - Pode tambm ter desejado eliminar o concorrente  diocese - sugeriu Simon.
   - No acredito que ele faria tal coisa. Matar dois irmos e ainda acusar Linnet dos crimes... - Anselme meneou a cabea. - No fosse a abadessa Catherine, vocs
dois poderiam estar em situao bem pior.
   - Eu sei. - Simon no apreciava nada estar em dvida para com a abadessa. - Sabe se Linnet est bem? Viu-a?
   - Est alojada l em cima, contou-me irmo Oliver, com a abadessa e todo o seu squito de freiras. Linnet deve estar  vontade com elas, pois passou meio ano
no
convento.
   - Tinha me esquecido disso... Engraado ela ter ido estudar l, tendo pai e me mestres boticrios.
   - Quanto mais aprende, melhor o boticrio.
   Simon deu de ombros e retomou o assunto em pauta.
   - O que ser que Crispin fez com o pote de acnito?
   - Quer que eu tente descobrir?
   - No. J tenho o sofrimento de Walter em minha conscincia.
   - Crispin s pode estar louco, se fez mesmo isso.
   - E desesperado. Cuidado com o que comer e beber.
   - Voc tambm, filho. S que Crispin no pode ter ministrado a beladona a Thurstan.
   - Acho que sei quem fez isso. - Simon pensava em Odeline e Jevan.
   - Meu Deus! - Anselme fez o sinal da cruz. - Primeiro, o arquidicono, agora, o prprio sangue de Thurstan. Esse pesadelo no tem fim?
   - A sede de riqueza e poder revelou o pior nos trs. Preciso vasculhar os pertences de Odeline e Jevan.
   - Como pretende...
   Um rebulio  porta interrompeu a conversa.
   - No pode entrar - rosnou um dos guardas.
   - Eu trouxe a armadura dele - explicou Warin.
   Simon correu  porta, abriu-a e espantou-se ao ver a figura desleixada que acompanhava o estalajadeiro.
   - Nick?
   - Eu mesmo.
   - Mas est com pssima aparncia...
   - Preciso de uma bebida, de um banho e de uma boa noite de sono - resumiu o amigo cavaleiro, adentrando os aposentos.
   - A volta do filho prdigo - divertiu-se Warin, entrando com os apetrechos de Simon. - Encontrei-o no quarto da viva Marietta, nu como no dia em que nasceu.
   - Ela roubou minhas roupas - lamuriou-se Nick. - Sumiu at com os lenis e as cortinas para impedir que eu fugisse.
   Simon sorriu.
   - Pobre rapaz!
   Revigorado pela cerveja, Nicholas endireitou-se.
   - Warin contou-me sobre o assassinato do bispo e a encrenca em que se encontra. O que quer que eu faa?
   - Que seduza minha tia e arranque informaes dela - resumiu Simon.

   A lua j ia alta no cu estrelado e todos no palcio dormiam.
   Menos Linnet.
   Sua mente negava o repouso, as preocupaes girando sem parar. E se Simon se ferisse no duelo com Hamel? E se...
   Uma batida na janela arrancou-a do transe. Com o corao acelerado, sentou-se na cama e viu uma figura invadir o quarto.
   - Saia, ou gritarei pela abadessa! - advertiu.
   - Linnet, sou eu...
   - Simon! - Antes que ela se desvencilhasse dos lenis, ele j estava a seu lado na cama, abraando-a com fora. - No devia estar aqui - ralhou, temerosa, mas
ainda agarrada a ele.
   - Eu sei. - Afagando-lhe as costas, Simon beijava-a nos cabelos, nas tmporas. - Mas estava to preocupado com voc...
   Linnet fitou-o ao luar.
   - Preocupado comigo? Mas  voc quem vai se arriscar...
   - Vale a pena, para salv-la.
   Linnet decidiu revelar a verdade sobre a filha de ambos, mesmo sabendo que o fato destruiria qualquer esperana de futuro para os dois.
   - Oh, Simon, preciso lhe contar uma coisa... Ele lhe tomou o rosto nas mos, os olhos cintilantes de emoes to puras que ela se viu sem flego.
   - Eu tambm - declarou Simon. - Eu... eu a amo. - Sem jeito, conseguiu sorrir. - Nunca pensei que diria isso a algum, mas de algum modo voc roubou meu corao
e curou...
   Linnet caiu em prantos.
   Simon apertou-a num abrao, emocionado com os tremores que sacudiam seu corpo esguio.
   - Linnet, minha doce Linn... - Vai dar tudo certo. Sairei vitorioso amanh, e ficaremos juntos.
   Ela desesperou-se ainda mais.
   Pobrezinha. Estava esgotada. Enfrentara muitos obstculos com inteligncia e coragem, mas j no podia mais.
   - Quando tudo estiver resolvido, passaremos algum tempo longe daqui. S ns dois. Em Londres, talvez. Ou visitando algum de meus companheiros.
   Linnet soluava incontrolavelmente.
   Simon afligiu-se. Tinha pouca experincia com mulheres, ainda menos com mulheres em prantos. J Nick...
   - Sabe, meu amigo Nick reapareceu. - Divertido, contou-lhe sobre a ltima desastrada aventura amorosa do cavaleiro conquistador, o qual j mandara em nova misso.
   Linnet fitou-o com olhos avermelhados.
   - Voc o mandou seduzir Odelin?
   Simon aliviou-se, vendo-a mais calma.
   - Bem, ele se recusou a seduzi-la. Afirma ter renunciado s mulheres. Mas prometeu vasculhar o quarto dela.
   - Como, com guardas por todos os corredores?
   - Escalando a parede com uma corda e entrando pela janela... assim como eu fiz para chegar aqui. Nicholas  especialista em entrar nos aposentos das damas sem
ser visto. Alm disso, irmo Anselme informou que Odeline foi  cidade, visitar uma amiga doente...
   - Tramar com Hamel, mais provavelmente - murmurou Linnet. - Cuidado com ele, Simon, pode usar golpes baixos.
   - Ser mais fcil agora, com Nick em minha retaguarda.
   Linnet assentiu, mas no relaxou.
   - Mesmo que Nick encontre a beladona, no ser prova da culpa de Odeline e Jevan.
   - No. Por isso, precisamos da escritura.
   - A abadessa Catherine contou-me que Thurstan havia deixado uma propriedade para voc. Blackstone Heath, para ser exata.
   - Blackstone Heath?! - Simon quase cuspiu o nome. - No quero. - Saiu da cama e passou a andar em crculos. - Fui criado l, por um caseiro e sua mulher. E um
lugar frio e triste.
   Juntos, poderamos torn-lo um lar, pensou Linnet. Mas no tinha o direito de acalentar sonhos impossveis.
   - Se estivermos certos, parece que Jevan e Odeline no compartilham seu desprezo.
   -  uma grande propriedade - admitiu Simon. - Deve render bons lucros. - Sentou-se na cama de novo. - Mas no a quero. Ele no vai comprar meu perdo com esse
presente. Chega tarde demais.
   Linnet sentiu pesar.
   - Ainda o odeia?
   - Odiar? - Simon negou. - No, mas jamais esquecerei o que ele fez comigo e com minha me.
   Linnet baixou o rosto, recordando o que lera no dirio de Thurstan menos de uma hora antes.
   Eu a amarei sempre, acima de minha carne, de meu sangue e at de Deus.
   Rosalynd le Beckele.
   A me de Simon.
   No uma humilde criada seduzida por um padre, mas uma grande dama, casada com outro.
   Como ela no pode ficar com o beb, mandei-a para o convento de Blackstone a pretexto de prantear a morte da me, ocorrida no dia em que ela descobriu estar grvida
de nosso filho.
    o dia mais triste de nossas vidas.
   - Linnet?
   Ela o fitou nos olhos ansiosos. Seu corao finalmente se curava, mas descobrir que a me abrira mo dele seria um golpe fatal. No seria capaz de pronunciar
as palavras cruis, mais do que seria de revelar seu prprio segredo terrvel. Como a histria se repetia, lamentou, antes de fazer a nica declarao possvel.
   - Eu o amo, Simon.
   Ele deu um sorriso mais abrasador do que o sol, verdadeiro blsamo sobre a conscincia pesada dela.
   - Agradeo a Deus por isso. Quando caiu em prantos, temi que no retribusse meu sentimento.
   - Eu o amo h muito tempo... desde a primeira vez em que o vi.
   - Levei um pouco mais de tempo para abrir os olhos, mas agora...
   Simon tomou-lhe a boca num beijo to terno e doce que ela sentiu vontade de chorar outra vez.
   Em vez disso, agarrou-se ao amado, o sangue fervente, a mente enevoada de paixo. Era disso que precisava, apoiar-se nele, esquecer, ao menos por alguns segundos,
os fardos terrveis que lhe pesavam na alma.
   - Simon... Oh, Simon, eu o quero tanto...
   - E eu a voc. Mas no assim, na casa do bispo, com guardas  porta. - Simon deu-lhe um ltimo beijo vigoroso e levantou-se. - At amanh, meu amor. Durma bem.
   - Acho que no vou conseguir dormir nem um minuto - retrucou ela, amargurada.
   Simon sorriu, embaraou-lhe os cabelos e saiu pela janela. Agarrado  corda, alcanou os aposentos do bispo. Nicholas aguardava-o andando em crculos.
   - At que enfim!
   - Encontrou alguma coisa no quarto de Odeline?
   - Encontrei, mas no foi fcil. A mulher tem roupas e sapatos suficientes para uma dez damas da corte. - Nick atirou um colchonete e travesseiro no cho defronte
 lareira. - Encontrei a bolsa de maquiagem dela debaixo da cama, toda empoeirada. Eu diria que no tem se pintado muito desde que passou a morar no palcio do bispo.
   - Mas encontrou a beladona?
   - No. Tinha p de arsnico, potes de rouge e at kohl para escurecer os clios. Mulheres vaidosas assim costumam usar beladona para clarear os olhos - explicou
Nicholas, familiarizado com o mundo feminino.
   - Ela pode ter jogado fora o veneno...
   - Ser que nunca conseguirei vingar o assassinato do bispo Thurstan?
   - Estou surpreso que se importe, considerando que ele o abandonou.
   - Eu tambm.
   Insistente em mostrar-lhe o lado bom do bispo, Linnet conseguira abrandar sua amargura. Conhec-la e apaixonar-se por ela mudara muito sua vida.
   Mais uma batalha a vencer, e teriam a vida toda juntos. Venceria no dia seguinte. Precisava vencer.

   - Quero Simon morto - murmurou Odeline.
   - J disse isso mais de dez vezes. - Nu da cintura para cima diante do fogo na cozinha, Hamel afiava a lmina da espada no esmeril, preparando-a para atravessar
ossos. - Eu o matarei para voc - prometeu, sedento de sangue.
   Odeline correu o olhar pelos msculos poderosos, retesando-se sob a pele suada do amante. Tratava-se de um animal magnfico, forte, esguio, experiente. Mas um
duelo era sempre imprevisvel, e Simon sobrevivera s hordas sarracenas.
   - Ainda acho que devamos drogar o cavalo dele.
   - Mandei um homem sondar. Est sob guarda.
   - Podamos drogar Simon, ento.
   Hamel interrompeu a tarefa e encarou-a.
   - Tem to pouca f em minha capacidade?
   - Claro que no - desmentiu Odeline, alegando estar preocupada com a segurana dele. -  melhor eu voltar  catedral antes que fechem os portes.
   Beijou o amante no rosto spero e saiu. A idia de drogar Simon no lhe saa da cabea. Podia ser a nica maneira de garantir a morte do cavaleiro da Rosa Negra.
   Falou a respeito com Jevan a caminho da catedral.
   - No se preocupe, me. De um jeito ou de outro, Smon de Blackstone no passar de hoje.
   Odeline assustou-se com a expresso e a voz determinadas do filho.
   - Jevan, prometa que no far nada precipitado, colocando-se em perigo.
   - Eu? - Ele riu estridente. - Poupe sua preocupao para o bastardo de Thurstan.
   - O que vai fazer?
   - Tratar de obter o que me foi prometido. Agora, apressemo-nos. Tenho muito que fazer antes que se inicie a disputa.


   CAPITULO 17

   Da noite para o dia, o campo de treinamento de Durleigh tomou o ar festivo de uma grande feira anual. Barracas montadas s pressas vendiam de tudo, de alfinetes
a tecidos, passando por potes de cermica. Da barraca de cerveja, a multido dispersava-se em todas as direes, as risadas roucas competindo com os gritos dos vendedores
apregoando tortas de carne e vinho.
   - Que desgosto - murmurou Linnet, to brava que dois homens saram de seu caminho. Passou reto, com o livro de oraes de Thurstan junto ao peito.
   - As pessoas nem sempre se revelam to boas quanto gostaramos - consolou a abadessa Catherine, abrindo caminho rumo a uma seo de bancos enfileirados protegida
por um toldo.
   Elinore, Drusa e o squito de freiras ocuparam a primeira fila. As arquibancadas j estavam lotadas com gente do povo de Durleigh. Todos olhavam curiosos para
Linnet, alguns cochichando entre si. Uns poucos, mais solidrios, cumprimentavam-na e transmitiam palavras de apoio.
   Mas Linnet no conseguia responder. Tinha os nervos to retesados quanto as cordas que delimitavam a grande rea na qual se daria a disputa. Do outro lado, um
mar de espectadores vidos brigava pela melhor posio, alguns com crianas aos ombros.
   - Que desgosto - repetiu Linnet. Ao se voltar, porm, deu com uma viso ainda mais repulsiva.
   Odeline aproximava-se das arqubancadas pela direita, num rico vestido de l vermelha, os cabelos cacheados cobertos por uma rede dourada. Tinha pose de rainha,
e seu sorriso falso irritou ainda mais os nervos j em frangalhos de Linnet.
   - Onde est Simon? - indagou ela s acompanhantes, nervosa.
   - L, com meu Warin e sir Nicholas. - Elinore apontou para um grupo no lado esquerdo do campo.
   Linnet logo identificou o amado. Sobre a reluzente armadura, ele usava o tabardo cinza da Rosa Negra. Cogitou se mais algum ali conheceria o significado do emblema
escolhido por Thurstan para seu exrcito de cavaleiros da Cruzada.
   Uma rosa negra para a rosa que perdi, escrevera Thurstan.
   Linnet no suportaria perder Simon novamente.
   - Por favor, que ele vena - rogou, fervorosa.
   Uma agitao na multido anunciou a chegada de Hamel Roxby. Rodeado pelos capangas, ele adentrou o campo feito um heri conquistador, mas foi recebido com uns
poucos assobios e alguns xingamentos. Puxando as rdeas, com um olhar ele fez a platia se calar. Era uma viso e tanto o delegado, com o corpo macio em armadura,
uma espada e um cinto com facas compridas  cintura.
   - Ele  to grande - observou Drusa, temerosa.
   - E... - Trmula, Linnet curvou os ombros e viu Simon adentrar o campo.
   Ele estava de elmo, mas com o visor erguido, esquadrinhando as arquibancadas. No instante em que seus olhares se encontraram, ele sorriu e, com a mo direita,
tocou na rosa bordada sobre o corao.
   Uma silenciosa declarao de amor.
   Linnet lembrou-se do amor sem sorte de Thurstan e Rosalynd. Estariam ela e Simon destinados  separao tambm? No obstante, conseguiu sorrir.
   - Que Deus o proteja.
   Simon inclinou a cabea e esporeou o cavalo, levando consigo as esperanas e o corao de Linnet.
   Um padre comeou a percorrer o campo espalhando a fumaa de um incenso perfumado que queimava num recipiente metlico pendurado numa corrente. O arquidicono
Crispin entrou em seguida, seguido por uma fila de padres e novios em cnticos. Ao alcanar os cavaleiros, ele estacou.
   - Estamos aqui para decidir a questo da culpa de lady Linnet Especer na morte do bispo Thurstan de Durleigh - anunciou Crispin, solene. - Quem representa a lei
e a igreja?
   - Eu, Hamel, delegado de Durleigh.
   - Em carter temporrio - murmurou Elinore.
   Simon endireitou-se na sela.
   - E eu, Simon de Blackstone, defendo mileide.
   Linnet comeou a chorar. Ele sempre fora seu campeo. Nunca precisara tanto de um quanto agora. Apertando o dirio com mais fora, rogou a Thurstan que olhasse
por ele.
   - Seja feita a vontade de Deus - completou Crispin. Dando meia-volta, conduziu a procisso clerical para fora do campo de batalha. Mal haviam ultrapassado as
cordas
quando Hamel sacou a espada e atacou.
   - Traioeiro! - Nicholas lanou-se pelo campo. - Tem que esperar o sinal para...
   J no se ouviam suas objees sob o estrpito do ao, conforme Simon ergueu a espada para se defender da investida de Hamel.
   Simon estremeceu ao impacto sobre sua arma, entorpecendo-lhe o brao e a mo. Embora tivessem quase a mesma altura, Hamel levava vantagem no peso e no alcance.
Isso significava que teria que mostrar-se mais gil e mais esperto, se quisesse vencer.
   Simon no queria apenas vencer. Tinha que vencer. Mas Hamel no facilitaria. Nem jogaria limpo, aparentemente. Partiu para cima de Simon com uma saraivada de
golpes destinados a esmagar e mutilar.
   Simon cerrou os dentes e decidiu aumentar a distncia para ganhar tempo. Pressionando os joelhos, forou o garanho a recuar. Os gritos de protesto da multido
sobressaam-se ao som do sangue latejando em seus ouvidos. Aps dedicar um pensamento a sua aterrorizada Linnet, expulsou da mente tudo, exceto o homem a quem devia
derrotar. Hamel podia ser maior, mas ele aprendera a lutar com Hugh, um mestre espadachim. Quase podia ouvir o amigo sussurrando:
   Observe-o. Procure seu ponto fraco. Espere o momento certo e explore a falha dele.
   Simon observava e esperava, suportando investida aps investida. Testavam-se um ao outro com ao mortal, assim como na adolescncia haviam se enfrentado com punhos
cerrados e armas de madeira. O som de seu resfolegar preenchia o silncio que tomara conta do campo, entremeado por grunhidos e o estrpito de metal contra metal.
Simon abaixava-se, aparava os golpes, recuava. Recusava-se a investir, mantendo uma defesa arrojada, analisando o estilo de luta de Hamel  procura da falha que
lhe renderia a vitria.
   Hamel tinha os olhos fulgurantes atravs do visor do elmo, ardentes em fria e frustrao.
   - Fique parado! - rosnou. - Pare e lute, maldito! - Abaixando-se, partiu mirando a montaria de Simon. Com uma imprecao, Simon puxou bruscamente as rdeas. O
garanho retrocedeu, relinchando em revolta, os cascos escorregando na relva mida. Vamos cair! Instintivamente, Simon desencaixou os ps dos estribos e saltou,
caindo de costas na terra. Estonteado, sentiu um gosto de sangue na boca e distnguiu os gritos de Linnet em meio aos sons da multido. Reunindo foras, ps-se de
joelhos e acocorou-se.
   Hamel j galopava em sua direo, espada ao alto, os olhos faiscantes em triunfo maligno.
   Sem flego, com mais pontos doloridos do que poderia enumerar, Simon baixou a espada, obrigando-se a esperar. Como no jogo que os jovens sarracenos empreendiam
em seu campo, na margem do rio oposta  dos cruzados. Observara-os o suficiente para admirar-lhes a arte de conduzir o cavalo e compreender o valor de calcular o
tempo.
   Hamel aproximava-se... mais... mais... J estava to perto que Simon podia ver o brilho de triunfo em seus olhos. Quando ele investiu com a espada para o golpe
de misericrdia, Simon escapou abaixando-se, girou o corpo e levantou-se a tempo de agarrar o inimigo pela barra do tabardo. O mesmo impulso que quase arrancou os
braos de Simon tirou Hamel da sela.
   O delegado caiu com um baque que fez a terra tremer, mas ele se levantou mais rpido do que um felino atraioado.
   - Bastardo! - gritou Hamel, e avanou para Simon com uma furiosa seqncia de golpes.
   Simon sentia-se fraquejar, as noites insones cobrando seu tributo na forma de membros cansados e reaes lentas. Combatia a exausto tendo em mente o que estava
em jogo. A liberdade de Linnet. A vida dela.
   - Agora o peguei! - festejou Hamel, pronto para matar.
   Ao erguer a espada, cometeu seu maior erro. Demorou-se demais, certo de que Simon no atacaria.
   Era a oportunidade pela qual Simon esperara. Introduzindo-se sob a guarda relaxada de Hamel, deslizou a lmina pela espada dele, mirando seu ombro.
   Faa Hamel prisioneiro. Descubra o que ele sabe.
   No ltimo segundo, Hamel virou-se. A ponta da lmina de Simon escapou do ombro dele e o atingiu no pescoo, extraindo um jato de sangue. Com um grunhido, Hamel
encarou-o, o rosto largo contrado de dor e choque. A arma escorregou-lhe da mo, caindo ao cho. Hamel fechou os olhos e tombou ao lado de sua espada.
   - Simon! Simon!
   Linnet corria ao encontro de Simon pela relva pisoteada, seguida pela abadessa, pelo squito de freiras e mais metade de Durleigh. Todos entoavam o nome dele
e o dela.
   Estava acabado.
   Exausto, ferido, Simon caiu de joelhos e esperou.
   Estava acabado, e tinham vencido.

   A margem do campo de batalha, Crispin contemplava em horror mudo o corpo do delegado, ouvindo incrdulo os gritos de jbilo da populao que cercava o cavaleiro
triunfante.
   O bastardo do bispo e sua amante haviam vencido.
   Deus preferira-os a ele.
   A enormidade da perda pesava na alma de Crispin, os pecados empilhando-se. Ele envenenara no um, mas dois padres camaradas. O fato de no terem morrido por sua
mo pouco importava. Desejara suas mortes.
   Pouco importava tambm que tivesse acreditado que sua causa era justa, pois a causa sagrada agora jazia em cinzas a seus ps.
   Que fazer agora? Como viver sabendo que Deus no sancionara seus atos?
   Crispin enterrou o rosto nas mos. A morte era prefervel quele purgatrio em vida, mas no havia como desfazer os pecados que j cometera...
   - Ainda no acabou! - gritou uma mulher. Crispin ergueu o rosto a tempo de ver lady Odeline deixar a sombra do toldo e adentrar o campo.
   - Bastardo, no ficar com o que  de meu filho por direito!
   Algo brilhou em sua mo erguida conforme avanou para cima da aglomerao, a poucos metros de Crispin.
   Ela ia matar Simon de Blackstone.
   Crispin tinha certeza disso, assim como sabia que sua alma sobrecarregada jamais veria o cu. Um ltimo ato, decidiu. Uma boa ao para apagar os pecados do passado.
   Fazendo o sinal da cruz, colocou-se no caminho de Odeline.

   Um grito de dor mortal interrompeu as comemoraes. Envolta nos braos de Simon, Linnet viu o arquidicono tombar, o peito ensangentado, e lady Odeline cair
em cima dele num rebulio de saias vermelhas.
   - O que...
   - Ela esfaqueou o arquidicono! - algum gritou.
   Simon correu ao local do evento. Praguejando, tirou Odeline de cima do prelado e empurrou-a para Nicholas.
   - Segure-a firme - instruiu, e encarou Linnet. - O que vamos fazer?
   Ela se ajoelhou ao lado do inimigo e meneou a cabea. O sangue acumulando-se era de um mau augrio.
   - Irmo Crispin! - Anselme ajoelhou-se do outro lado, as mos hesitantes sobre o cabo incrustado de jias do punhal. - No ouso pux-lo. Arranjem ataduras limpas
e uma maca!
   Crispin abriu os olhos.
   - No se incomode, irmo, estou morrendo. - Esboou um sorriso. - Morte abenoada...
   -  um louco! - defendeu-se Odeline. - Atirou-se em cima da lmina!
   Nicholas encaminhou-a aos bancos.
   - Vamos, mileide.
   Crispin voltou a cabea, os olhos vetrificados de dor, porm determinados.
   - Nunca quis que Thurstan morresse, s que adoecesse...
   - Para assumir como bispo? - indagou Linnet.
   Ele confirmou e fechou os olhos.
   - Perdoe-me.., pois Deus jamais o far.
   Irmo Gerard ajoelhou-se  cabea do arquidicono.
   - Deixe-me tomar-lhe a confisso, reverendo padre.
   Linnet voltou-se e aconchegou-se no abrao de Simon.
   - Ele colocou o acnito na aguardente - sussurrou.
   - Sim. Odeline tem razo. Crispin  louco. Vamos. Simon conduziu-a aos bancos, onde j estavam Nicholas e Odeline. A tia tambm parecia ensandecida, com os cabelos
desgrenhados e o olhar selvagem. - Foi voc quem obrigou Thurstan a ingerir a beladona, Odeline?
   - Est acabado. Feito. - Ela desabou contra Nicholas. - Tudo por nada. Nada... sem a escritura.
   - A escritura de Blackstone Heath? - questionou Simon.
   Odeline sorriu lgubre.
   - Blackstone Heath... seremos felizes l, Jevan. No viveremos mais de migalhas alheias. Eu lhe disse que a conseguiria para voce...
   Linnet estremeceu.
   - Oh, Simon...
   - Voc matou Thurstan? - indagou Simon, brando.
   Odeline encarou-o com olhar distante, vazio.
   Irmo Anselme juntou-se ao grupo.
   - Acho que ela no est em condies de responder.
   Simon suspirou.
   - E Crispin?
   - Est com Deus. - Anselme fez o sinal da cruz.
   - Vamos tratar dos vivos. Sir Nicholas, se puder levar lady Odeline para a enfermaria, eu lhe darei um remdio para dormir. Talvez, quando acordar, ela possa
nos
contar mais detalhes. - Olhou para o campo. -  estranho Jevan no estar aqui...
   - Talvez tivesse conhecimento do que a me fez e temesse ser acusado de cumplicidade - sugeriu Simon.
   - Mas  filho dela! - protestou Linnet. - Mesmo que ela tenha cometido um crime, ele deveria apoi-la, por amor.
   - Receio que Jevan no seja de to boa cepa - replicou Anselme. - Simon, vamos para a enfermaria. Vou tratar de seus ferimentos.
   - Num minuto. - Simon continuou sentado, de repente esgotado de corpo e alma. Sentia muitas dores, mas nenhum dos cortes e pancadas era grave. O que. mais sentia
era alvio. - Est acabado - sussurrou, observando as freiras e os padres acomodando o corpo de Crispin numa maca. Olhou para Linnet. - Est acabado, e voc est
salva...
   - Graas a voc - completou ela. - Mas tive tanto medo... Se algo lhe acontecesse, eu no quereria mais viver. - Com um tremor, afundou-se mais entre os braos
dele.
   - Sei o que quer dizer. - Ele se deliciava ao contato com o corpinho quente e esguio de Linnet. Estarem juntos parecia-lhe to natural que teve a certeza de que
sua vida seria vazia e inexpressiva sem aquela mulher a seu lado. - Vamos nos casar, Linnet - murmurou, beijando-a no topo da cabea.
   Vamos nos casar. As palavras por que ela tanto ansiara agora cortavam-na como uma lmina. Virgem Maria, queria casar-se com Simon, mas sentia o dirio de Thurstan
entre ambos. O smbolo palpvel de uma barreira intransponvel.
   - No posso - declarou, angustiada.
   Simon tocou-lhe o queixo e a fez erguer o rosto, os olhos verdes confusos fixos nos dela, castanhos, atormentados.
   - Por que no? Voc no me ama?
   - Amo, de todo o corao. - Uma lgrima escorreu pelo rosto dela. - Mas no posso me casar com voc.
   - Posso sustent-la. Tenho dinheiro dos resgates...
   - Oh, Simon... - Incapaz de suportar a mgoa no rosto amado, Lnnet tentou se desvencilhar. Ele no a soltou. Ela sentiu uma dor ainda mais aguda. - Simon...
-
Fitou-o, esperando encontrar a cautela que transparecia em sua voz, mas viu s amor, humilhando-a. Conte a ele. Ele a ama e entender. - Simon... eu tive uma filha.
   Ele apertou as mos nos ombros dela, o olhar adotando a antiga frieza.
   - De quem?
   - Ela nasceu nove meses depois que voc partiu.
   -  minha? - Simon expressou alegria pura, mas logo voltou a acautelar-se. - Mas ela no est com voc... Ela... morreu?
   Com os olhos rasos d'gua, Linnet via a imagem dele embaada.
   - Eu... eu a entreguei para adoo.
   - Entregou? - Simon soltou-a, levantando-se num salto. - Voc entregou nossa filha? - Olhava-a como se estivesse diante de um monstro.
   - No queria que ela sofresse o estigma da ilegitimidade - explicou Linnet. - Thurstan arranjou um bom casal para adot-la...
   - Thurstan! - Simon tinha o rosto vermelho, os olhos fulgurantes de dio.
   Linnet sentiu o corao afundar. Ele no a perdoaria. Sentindo-se morrer por dentro, levantou-se e atirou-lhe o dirio.
   - Est tudo a... incluindo o nome de sua me. Ele escreveu tudo... menos o nome da famlia que adotou nossa filha.
   Incapaz de suportar o olhar severo de Simon um segundo que fosse, Linnet foi embora.

   Linnet abrira mo de sua filha.
   Simon permanecia imvel, a cabea baixa sob o peso enorme da traio dela. Fora um golpe ligeiro, inesperado. Amara-a, confiara nela como jamais confiara em algum,
e todo o tempo ela guardara aquele segredo odioso.
   - Foi a deciso mais difcil da vida dela - afirmou a abadessa Catherine, branda.
   - V embora.
   - S depois que eu disser tudo. Linnet j o amava ento, e queria ficar com o beb, mesmo sabendo que teria que enfrentar a desaprovao de toda a populao de
Durleigh. A associao dos boticrios no permitiria que uma mulher decada tivesse sua loja. Os pais dela a teriam apoiado, mas, depois que eles morressem, ela
e a criana acabariam num albergue.
   - Por isso, ela abandonou minha filha, egosta que .
   - Se quer culpar algum, culpe Thurstan e a mim. Ele sabia, de tanto observ-lo ao longo dos anos, que a mancha da ilegitimidade o tornara um homem amargo. Convencemos
Linnet de que seria melhor para a criana ser adotada por uma famlia carinhosa, a qual lhe daria um nome.
   Simon encarou-a.
   - S que ele nunca me assumiu.
   - Foi o preo que ele pagou pela sua vida.
   Ele se acautelou.
   - Como assim?
   - Nosso pai, o baro Robert de Lyndhurst, era um homem poderoso e autocrtico. Foi ele quem decidiu que Thurstan seria bispo, depois que nosso irmo mais velho
morreu. Meu pai no levou em conta o fato de Thurstan inclinar-se mais  vida na corte e estar apaixonado por uma dama de alta linhagem. Quando descobriu que voc
nasceria, ordenou que se interrompesse a gestao. Thurstan declarou, ento, que entraria para a igreja somente se permitissem que seu filho vivesse. Entraram em
acordo, mas Thurstan teve que jurar, pela alma imortal de sua me, Simon, que jamais o reconheceria como seu filho.
   A raiva que corroera o corao de Simon durante trs anos amainou um pouco.
   - E minha me?
   - Depois, ela se casou com outro. Poucas pessoas conheciam sua identidade e todas juraram nunca revel-la. - Catherine olhou para o dirio na mo dele.
   - Linnet disse que o nome dela est a. Se no sabe latim, ela poder traduzir para voce...
   - Ou a senhora - sugeriu ele, ainda profundamente magoado com Linnet.
   - No pode perdo-la?
   - No sei. Eu...
   - Simon de Blackstone! - Jevan contornava a arquibancada segurando Linnet firmemente  frente do corpo, a lmina de um punhal junto a seu pescoo.
   - O que est fazendo? - Simon olhava o rosto aterrorizado de Linnet. Parecia to pequena e vulnervel.
   Jevan emanava dio.
   - Reclamando o que  meu, a escritura de Blackstone Heath!
   - No sei onde est.
   - Est na sua mo. Meu tio a escondeu nesse dirio.
   Simon estendeu o volume.
   - Solte Linnet e ser seu.
   - Receio que a escritura no represente nada com voce vivo. - Jevan sorriu irnico. - Meu tio assim determinou.
   - Eu transfiro a propriedade a voc.
   Jevan encolerizou-se.
   -  o que diz agora, enquanto mantenho sua amante na ponta da faca, mas depois mudar de idia.
   - No, no mudarei. A manso nada representa para mim.
   Simon fitou o rosto plido e amedrontado de Linnet, sentindo algo estranho por dentro. Era a mais meiga, a mais adorvel das mulheres. Abrir mo da filha devia
ter sido a deciso mais difcil de sua vida, conforme afirmara a abadessa Catherne. Ela se sacrificara para que a criana pudesse ter uma vida melhor. No podia
culp-la por isso. A sensao de traio desapareceu, deixando em seu lugar uma tristeza profunda, por Linnet, por si mesmo e pela filha que jamais poderiam criar.
   - Vai fazer o que eu mandar! - gritou Jevan. Com a mo livre, tirou um pequeno frasco da bolsa ao cinto.
   - Voc vai beber isto.
   Simon arrepiou-se.
   - A beladona.
   Jevan sorriu.
   - Sobrou bastante para voc.
   - Pegou isso no quarto de sua me e matou o bispo Thurstan - resumiu Simon.
   - Foi preciso, depois que Rob FitzHugh contou-me que voc estava vivo. Meu tio teria alterado a escritura em seu favor, entende? Sendo assim, receio que tenha
de morrer tambm, para que eu herde a propriedade.
   - No! - gritaram Catherine e Linnet, juntas.
   - Calem-se! - gritou Jevan. - No se mexa, tia Catherine, ou mato sua preciosa Linnet.
   - Jevan... deve haver outra maneira - implorou a abadessa.
   - No, no h. Rob, Hamel e at minha me falharam. Depende de Simon, agora. Se ele falhar, Linnet morre. No quer isso, quer, Simon?
   - No. - Simon fitou Linnet nos olhos aterrorizados e deixou que tudo o que sentia por ela, amor, respeito, at o perdo, transparecesse num sorriso terno. -
Ela
j suportou demais de mim para que eu lhe falhe agora. - Estendeu a mo.
   - Simon, no! - gritou Linnet, tentando se desvencilhar.
   Jevan apertou a lmina em seu pescoo.
   - No se mova, meretriz! - Inclinando-se para a frente, Jevan pousou o frasco no banco. - Se deixai cair, Simon, eu a mato.
   - Entendido. - Simon pegou o frasco, puxou a rolha e virou-o dentro da boca.
   Horrorizada, Linnet o viu tomar o veneno. Seu corao parou de bater enquanto ele se manteve de p. Ento, ele se enrijeceu, emitiu um grito e tombou ao cho,
o corpo contorcendo-se convulsivamente.
   - Simon! Simon! - Linnet deu uma cotovelada no abdome de Jevan e conseguiu se libertar, jogando-se de joelhos ao lado de Simon.
   A abadessa Catherne segurou-a.
   - No, querida, no olhe! - Puxou-a para trs, gentil mas firme. - No podemos fazer nada por ele.
   Soluando, Linnet agarrou-se  abadessa.
   - Igualzinho ao tio Thurstan - divertiu-se Jevan, aproximando-se para admirar a obra. - Perfeito.
   Linnet sentiu tanta repugnncia que at superou a angstia.
   - No precisava mat-lo!
   - Mas eu quis. - Jevan embainhou o punhal e curvou-se sobre o corpo de Simon em convulso para pegar o dirio. Sorrindo, arrancou a contracapa e extraiu o pergaminho
dobrado l dentro. - Agora  tudo meu...
   No pde completar a declarao triunfal, pois Simon ergueu-se do cho e deu-lhe um soco no estmago. Quando ele se dobrou ao meio, Simon golpeou-lhe um direto
no queixo, agarrou-o e atirou-o deslizando no cho.
   - Simon? - Linnet deixou os braos de Catherine.
   - Est vivo! - Tocou-lhe o rosto, sujo, porm quente e com vida. - Mas como...?
   - No puxei a rolha. - Ele abriu a mo e mostrou o frasco ainda tapado. - Represento bem, no?
   A abadessa Catherine ria nervosa.
   - Virgem Maria, pensei que tivesse bebido! Nunca me senti to apavorada em minha vida...  um milagre.  um milagre. - Ento, sbria, olhou para Jevan. - E ele?
   - Vamos amarr-lo antes que volte a si - orientou Simon. - E entreg-lo s autoridades para que seja julgado.
   - Junto com a me. - Catherine meneou a cabea.
   - Sempre foi gananciosa, mas chegar a esse ponto...
   - Agora que Hamel est morto, quem representa a lei em Durleigh? - indagou Simon.
   - Provavelmente, um delegado de York assumir as funes at que o municpio nomeie um novo. - Catherine ergueu as saias. - Fique com Jevan. Vou chamar os irmos
para tomarem conta dele.
   Linnet agarrou-se a Simon, incapaz de acreditar que estava vivo.
   - Pensei que tivesse tomado a beladona...
   - E teria tomado - afirmou ele. - Por voc.
   - Oh, Simon... - Linnet fitou-o e encontrou um olhar lmpido, sem amargura nem pesar.
   - Eu te amo, Linnet - murmurou Simon. - Vamos nos casar. Juntos, deixaremos o passado para trs e olharemos para o futuro.
   Era o que ela mais queria. De todo o corao. Mas seria o amor deles suficiente para exorcizar os fantasmas do passado?


   EPILOGO

   Oxford, 10 de junho, 1222

   A casa de lady Rosalynd dormitava ao sol do meio-dia, uma brisa quente agitando descontraidamente as flores vicejantes junto  porta. Construda em pedra cinzenta,
a estrutura de trs pavimentos dominava as construes de madeira mais simples que a ladeavam. At as janelas, com as venezianas abertas ao ar de vero, pareciam
olhar orgulhosas os transeuntes.
   Montado em seu cavalo, Simon observava a casa em que supostamente vivia a me e sentiu um calafrio na espinha.
   - Posso ir at a porta, se quiser - ofereceu-se Linnet. Simon sorriu para a mulher que era sua esposa havia duas semanas.
   - Se Nicholas me visse tremendo deste jeito, me chamaria de covarde dos covardes.
   Dez dias antes, NichoLas criara coragem e fora confrontar-se com o pai.
   - Voc no  covarde. Apresentar-se  me que nunca conheceu  muito diferente de provar-se ao pai, o que Nicholas foi fazer.
   - De qualquer forma, nunca hesitei assim diante de uma luta.
   - No se trata de uma batalha - observou Linnet, terna.
   - Diga isso ao meu corao e ao meu estmago - resmungou ele. - Esto dando reviravoltas.
   Linnet sorriu.
   - Vamos para casa, ento.
   A sugesto era tentadora, mas tinham sido quatro dias de viagem de Durleigh a Oxford. S queria ver a me.
   - O que os homens vo dizer? - Referia-se aos guardas que os haviam acompanhado e que aguardavam numa estalagem prxima.
   - Que no  o comportamento que se espera do novo delegado de Durleigh - respondeu Linnet. - Se o rei souber disso, talvez no o confirme no cargo... por mais
que o prefeito e metade dos comerciantes lhe tenham implorado que assumisse a responsabilidade.
   Simon assentiu, ainda emocionado com a f nele depositada pelo povo da cidade. Aceitara o desafio de manter a ordem em Durleigh.
   - Talvez lady Rosalynd no queira ver o filho do qual abriu mo.
   - Eu quereria.
   Por um instante, seu olhar perdeu aquele brilho especial, e ele recordou as vezes em que acordara no meio da noite ao som de seu choro abafado. Por mais que lhe
repetisse que a compreendia e perdoava, Linnet no tinha paz, pois no perdoava a si mesma. Sua infelicidade era a nica mancha na vida que construam juntos, a
nica mcula em seu amor perfeito.
   Tinha que fazer isto por Linnet, tanto quanto por si mesmo. Alm disso, no poderia voltar a Durleigh e dizer ao bispo Walter que no vira lady Rosalynd.
   Walter de Folke no s se recuperara do envenenamento por acnito como fora nomeado bispo de Durleigh. Atravs de seus contatos, descobrira que Rosalynd le Beckele
desposara o baro William de la Hewaite, enviuvara e ora vivia numa bela casa em Oxford. Segundo Walter, lady Rosalynd passara muitos anos na corte. Simon imaginava-a
coberta de sedas e jias, a expresso soberba, mas nem assim superava o desejo de conhec-la.
   - Vamos entrar, ento - decidiu ele. - Devolveremos a ela as cartas que encontramos na ba de Thurstan. - Cartas que Thurstan escrevera muito tempo atrs, quando
estudante. - E a informaremos da morte dele, caso no esteja a par. Mas no lhe direi quem sou enquanto no tiver certeza de que no causarei problemas.
   - No prefere que eu espere aqui? - sugeriu Linnet.
   - No! - exclamou Simon. - Voc  minha fora. No vou a parte alguma sem voc, nunca mais. - Desmontou, tirou Linnet da sela e acompanhou-a at a casa. - Talvez
no haja ningum em casa... - comentou, esperanoso.
   Linnet riu.
   - As janelas esto abertas, meu amor...
   Algum gritou na lateral da casa.
   Simon olhou para Linnet.
   - Fique aqui.
   Sacando a espada, ele tomou o caminho ao lado da casa enquanto outro grito cortava o ar. Contornou uma mureta de pedra, uma construo e adentrou um jardim. Tratava-se
de uma cpia exata do jardim do palcio do bispo em Durleigh, com sebes de teixos entre inmeros canteiros de rosas perfumadas.
   No meio do jardim, um cachorro enorme agitava-se dentro de uma tina de madeira com gua. Uma mulher magra com o vestido todo molhado dava-lhe banho.
   - Senhora, precisa de ajuda? - indagou Simon.
   Ela ergueu o rosto. Era de meia-idade, mas ainda bela, com fios de cabelos loiros colados ao rosto corado.
   - Preciso. Bernard detesta tomar banho, mas ele e Rosie brincaram na lama e...
   O cachorro aproveitou a oportunidade para ganhar a liberdade. Latindo, pulou fora da tina.
   - Pegue-o! - pediu a mulher.
   Simon largou a espada, correu a agarrou o co em pleno ar. Acabou escorregando e caindo na lama, mas no largou o animal.
   - Est seguro!
   A mulher riu.
   - Eu diria que no consegir se livrar de Bernard to cedo...
   Linnet adentrou o jardim.
   - Simon? Voc est bem? - Ao v-lo todo enlameado, comeou a rir.
   Simon fingiu mau humor ante o divertimento dela. Que impresso causaria  me, todo sujo de lama e cheirando a cachorro? Mas havia remdio para tudo.
   - Se me passarem o sabo, vou aproveitar para lavar o cachorro, j que estou neste estado.
   Trabalhando em conjunto, os trs deram o banho no animal em poucos minutos. Livre, Bernard pulou fora da tina, sacudiu-se espalhando gua em todas as direes
e saiu correndo pelo jardim, latindo feliz.
   Simon sentou-se num dos bancos de pedra, despiu a tnica molhada e enxugou os cabelos com a toalha oferecida pela mulher da casa.
   - Lamento no ter roupas secas para lhe emprestar, sir...
   - Simon de Blackstone.
   A mulher engoliu em seco e sentou-se no banco.
   Simon surpreendeu-se. Teria sua me contado detalhes de sua vida quela empregada?
   - J tinha ouvido meu nome?
   - Sim. - As lgrimas ampliavam seus magnficos olhos verdes. - Meu Deus, pensei que nunca mais fosse v-lo, meu amor...
   Meu amor? Simon encarou a mulher, o corao to descompassado que mal ouvia a prpria voz.
   - A senhora  lady Rosalynd?
   Ela confirmou, uma lgrima escorrendo pelo rosto. As rugas finas em torno dos olhos e da boca, os poucos fios grisalhos em meio aos cabelos dourados eram os nicos
sinais de que tinha idade bastante para ser sua mae.
   - Como... como chegou aqui? - indagou ela.
   Simon enrijeceu-se.
   - Lamento a intromisso.
   - Simon... - Linnet pousou a mo em seu brao. Olhou ento para lady Rosalynd. - Seu nome estava no dirio do bispo Thurstan. Ele... ele morreu.
   Rosalynd suspirou profundamente.
   - Eu sei. Recebi a notcia h duas semanas, mas no me surpreendi. Na noite em que ele morreu, acordei com uma sensao de perda to imensa que temi que algo
lhe
tivesse acontecido. Foi mesmo um crime hediondo.
   - Pegamos os assassinos. - Com a voz embargada de emoo, Simon contou a histria intricada. - Jevan enforcou-se antes de ser julgado. Com a morte do filho, Odeline
perdeu o que lhe restava de sanidade e a reverenda madre Catherine levou-a para o convento.
   - Triste fim - murmurou Rosalynd. - Lamentarei a morte de Thurstan por toda a minha vida, mas o sofrimento ser menor agora que tenho voc. Estou feliz que ele
tenha sabido que voc estava vivo, antes de nos ser tirado. - Sorriu melanclica. - E uma alegria fit-lo e ser retribuda com seu carinho. Temi que me odiasse por
ter renunciado voc.
   - J odiei. - Simon entrelaou os dedos nos de Linnet. - Mas Catherine explicou que a sede de poder do baro Robert foi a causa de sua separao de meu pai. E
Linnet, minha esposa, fez-me ver que o amor s vezes significa renncia.
   Rosalynd sobressaltou-se.
   - Voc  Linnet Especer?
   - Era, at alguns dias atrs. - Linnet achegou-se a Simon. - Agora sou Linnet de Blackstone.
   - Virgem Maria... - sussurrou a senhora, os olhos marejados de lgrimas. - Deus escreve certo por linhas...
   - Vov! Vov! - Uma criana pequena adentrou o jardim, as bochechas coradas, os cachinhos loiros brilhando ao sol. Tinha olhos verdes como os de Rosalynd, s
que
um pouco mais claros.
   Que linda menina, pensou Linnet, lembrando-se pesarosa da prpria filha perdida.
   Rosalynd pegou a criana no colo e beijou-a. Feliz, olhou para Linnet.
   - Imagino se Thurstan tinha idia, ao elaborar este plano, de como a histria terminaria.
   Linnet piscou.
   - O que quer dizer?
   Em vez de responder, Rosalynd dirigiu-se  menina que se agitava contente em seus braos.
   - Rosei, lembra-se de que eu lhe disse que um dia conheceria sua mame? Bem, hoje  o dia!
   Linnet e Simon engoliram em seco, atnitos.
   - Ela.., ela  nossa filha? - indagou Linnet, mal ousando ter esperana.
   - . - Rosalynd no cabia em si de felicidade. - Thurstan achou ideal que eu a criasse, pois sabia que eu a amaria tanto quanto voc.
   Linnet olhou para a filhinha, o corao to cheio de amor que era inacreditvel que no explodisse.
   - No me lembro de voc... - comentou a pequena Rosie, chupando o polegar.
   Linnet caiu de joelhos e s no fraquejou mais porque Simon, a seu lado, amparou-a.
   - Mas eu me lembro de voc - sussurrou Linnet, encantada com a garotinha que tinha cabelos iguais aos seus e os olhos de Simon. - S que voc era muito mais pequenininha...
   - Agora sou grande - replicou Rosie.
   - No quer me mostrar seu quarto e seus brinquedos?
   A menina olhou cautelosa para a av.
   - Ela quer ver os gatinhos.
   - Ainda so muito pequenos para voc brincar com eles - advertiu Rosalynd.
   - S vamos olhar. - Rosei escorregou do colo da av e estendeu a mozinha rechonchuda para Linnet.
   - Eles esto no estbulo.
   Linnet emocionou-se ante a confiana com que a pequena lhe dava a mo, a alma destroada comeando a se curar. Fez um gesto para Simon.
   - Ele pode vir tambm? - indagou  filha.
   Rose olhou-o cautelosa.
   - Ele  muito grande. Pode esmagar os gatinhos.
   - No, ele  muito gentil - garantiu Linnet. - Ele  seu pai.
   - Meu pai  um anjo, minha av disse.
   - Eu no iria to longe - retrucou Linnet, divertida. - Mas  o mais maravilhoso dos homens.
   - Est bem, mas s se prometer no fazer barulho. - A menina estendeu a outra mo.
   Simon pegou-a e foi tomado por uma sensao de encantamento. Os trs estavam juntos... uma famlia. Sua familia. Era o que desejara a vida toda, e agora tinha.
Graas a seu pai. E a sua me. Voltou-se para a senhora sentada no banco, o semblante num misto de felicidade e pesar. Felicidade por ter recuperado o filho e pesar
por... Estaria pensando que iriam abandon-la?
   - Venha, me, no quero me separar da senhora, nem que se separe de Rosie.
   Lady Rosalynd levantou-se e, sorrindo, tomou a mo que ele estendia.
   - Nem eu quero me separar de voc.., nunca mais.
   - Vamos todos juntos? - indagou Rosie, o olhar brilhante se alternando entre os adultos.
   - Sim, agora e sempre - confirmou Simon.

   Mais tarde, naquela noite, Simon contemplava a filha adormecida, os braos bem fechados em torno de Linnet. Findava o dia mais feliz de sua vida.
   - Feliz, amor? - sussurrou.
   Linnet aconchegou-se a ele.
   - Sim. Se Thurstan estivesse aqui conosco, minha alegria seria completa.
   - Ele est conosco, em nosso corao. Sempre estar.
   Linnet concordou.
   - Acho que ele aprovaria seus planos de transformar Blackstone Heath num lar para rfos.
   - Tambm acho, mas talvez devamos esperar um pouco. Se o dia de hoje foi uma amostra, Rosei vai nos dar muito trabalho.
   Linnet fitou-o e sorriu.
   - Est insinuando que nossa filha  arteira?
   - E teimosa. Vamos apanhar para cri-la.
   - Nesse caso, ainda bem que sua me vai conosco para Durleigh.
   Sua me. Simon gostava da expresso. Ou melhor, gostava dela. Era meiga, carinhosa e espirituosa. Agradava-o a idia de passar mais tempo com ela, porm...
   - Rosie pode se confundir, com trs adultos educando-a.
   -  esperta demais para se confundir, na minha opinio. Alm disso, vai se adaptar mais facilmente  nova casa com Rosalynd por perto.
   - Quer dizer que no se importa?
   - Claro que no. Espero convencer Rosalynd a ajudar nos trabalhos em Blackstone Heath para recebermos as primeiras crianas. E tambm... - Linnet afagou o queixo
de Simon. - Ns quatro formamos uma famlia, finalmente, mas os adultos ainda tm feridas a curar. Vo cicatrizar mais rpido se ficarmos juntos.
   Ele a beijou na ponta do nariz.
   -  por isso que a amo. Se bem que j me vejo atarantado mantendo voc e nossa filha serelepe longe de encrencas.
   Linnet enlaou-o pelo pescoo e puxou-o para um beijo estonteante.
   - No conheo homem mais adequado a essa tarefa, meu amor. Meu campeo.
   Simon sorriu, os olhos cinza-esverdeados refletindo um amor profundo e duradouro.
   - Ser um prazer defend-las todos os dias de nossas vidas - sussurrou.

   Fim
   Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
